Quinta-feira, 16 de Abril de 2009

Os golos portugueses

A Liga dos Campeões deixou de estar na rota do Futebol Clube do Porto - ironia das ironias, foi um português, Cristiano Ronaldo, a eliminar a equipa nacional, o que diz bem sobre isto de sermos cidadãos do mundo ou da terrinha. Sobre isso, poucas ideias no mundo dos blogues, encontrei esta no “Liga Galo de Ouro”: “Cristiano Ronaldo conseguiu nos últimos anos uma mão cheia de coisas irritantes. Tudo na liga dos campeões: fazer um manguito aos lampiões na Luz; eliminar o Benfica de Fernando Santos; marcar e eliminar o Sporting; marcar e eliminar o Mourinho; marcar e eliminar o Porto”. E mais ironicamente pergunta, a rematar: “e assobiam o rapaz porquê?”

Agora ficava aqui a matar a frase clássica, o futebol é mesmo assim. António Boronha, no blog com o seu nome: “Gostei da resposta de José Gomes à repetida pergunta de Luís Baila, se estava frustrado com o facto de não ter chegado às 'meias-finais' da 'champions'?... O treinador que substituiu Jesualdo Ferreira (...) respondeu-lhe que estavam orgulhosos de se terem batido de igual para igual com o campeão europeu e do mundo, de clubes, e líder da liga mais competitiva do planeta futebol. Nem mais. Não sendo um grande jogo de futebol foi, acima de tudo, emotivo quanto ao desfecho final. Da partida e da eliminatória”.

No mundo dos blogues há análises deste tipo, sensatas e com algum rigor, mas também há coisas do outro mundo, como o post de Anastercio Leonardo no Tertúlia Benfiquista, que ficou contente com a derrota do Porto. E vejam como explica tal sentimento: “A grande razão é o facto de eu viver no Porto. (...) Quando jogam o trânsito desta cidade fica um caos. Hoje um trajecto que geralmente faço em 2 minutos demorei 40 minutos.  Acho que para além das vezes que jogamos contra eles, nunca os insultei tanto como hoje. A outra grande razão, é que pelo menos amanhã vou ter um dia de trabalho santo”. O benfiquista que vive no Porto remata com um elogio a Ronaldo, claro

No Mar Salgado, Vasco Lobo Xavier rende-se ao resultado: “No fundo, no fundo, mutatis mutandis, a Champions League não é muito diferente do campeonato português...”. ou seja, “no fim ganharam os melhores”.

E voltando ao começo, isto é, voltando ao facto de ser um jogo com equipas de dois países mas jogadores de muitos outros, e do golo inglês ter sido afinal marcado por um português, percebo bem o que escreve Alexandre Borges no 31 da armada: “Nestas coisas, há quem apregoe ser dever moral torcer pela equipa pátria. Mas uns jogavam com três portugueses, os outros com dois - o meu coração balançou”.

Bom, quando se vê um golo como aquele que Cristiano Ronaldo marcou, é difícil não deixar o coração balançar. Onde fica Portugal – essa seria outra questão, talvez para outro dia...

 

publicado por PRD às 18:55
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Quarta-feira, 15 de Abril de 2009

Rangel na Europa

Falemos do Parlamento Europeu. Já irei à escolha de Paulo Rangel para cabeça de lista do PSD, porque a verdade é que, enquanto em Lisboa se anunciava tal facto, justamente em Bruxelas passava-se algo inusitado: o deputado europeu Carlos Coelho decidiu convidar 18 bloggers para visitar o Parlamento Europeu. De André Abrantes Amaral a João Gonçalves, passando por Carla Hilário Quevedo e Leonel Vicente, andam todos em Bruxelas “Com uma agenda bem carregada”, segundo conta João Távora, que acha este convite um “reflexo da preocupação do eurodeputado social-democrata com o crescente divórcio entre os cidadãos e o governo da Europa (...) e o reconhecimento da influência dos blogues na opinião pública”.

Pois muito bem: logo ali ao lado, no Corta-Fitas, João Villalobos nem hesita e escreve: “Aqui em Bruxelas nenhum dos deputados do PSD parece ter vontade de falar sobre a escolha de Paulo Rangel, pelo menos por enquanto. O que me vale é que eu também não”.

Ao mesmo tempo em Lisboa, Carlos Guimarães Pinto no insurgente palpita assim: Paulo Rangel mais Vital Moreira igual a “70% de abstenção”. Por aí vamos então nas reacções ao nome apontado pelo PSD: André Azevedo Alves acha “uma boa escolha”, Carlos Nunes Lopes, do 31 da Armada, vê em Paulo Rangel “um candidato capaz de vencer as Eleições Europeias. Manuela Ferreira Leite, diz ele, fez aquilo que os portugueses esperam do maior partido da oposição: que apresente candidatos capazes de vencer eleições, apresente alternativas e que tenha capacidade de regeneração”. Coutinho Ribeiro, no Delito de Opinião, discorda: “acho que Marques Mendes teria sido uma escolha mais acertada. Teria mais impacto e seria mais abrangente. Paulo Rangel é uma escolha que afunila”. Carlos Abreu Amorim julga estarmos perante “um notável upgrade intelectual em relação ao ‘Mr. Chance do cavaquismo’, Deus Pinheiro, cabeça de lista em 2004”. E diz mais: “É uma escolha da líder que constitui uma vitória contra o ninho de víboras que a ajudou a eleger e, agora, cinicamente, a está a encurralar em direcção a uma derrota tremenda nas Legislativas”.

À esquerda, Daniel Oliveira parece desiludido no Arrastão: “Depois de meses de tabú e de repetidas promessas de que o candidato às europeias seria muito forte”, foi apenas “mais uma vez, um dos poucos aliados internos de Manuela Ferreira Leite”. Um social-democrata da facção Passos Coelho podia juntar-se ao Bloco de Esquerda. Falo de Pedro Marques Lopes no blog União de Facto: “Com a escolha de Paulo Rangel, a Dra Ferreira Leite demonstra uma incapacidade total de abrir os horizontes do PSD. Apesar das suas qualidades, Rangel não cumpre dois requisitos básicos para uma campanha de sucesso que permitisse uma vitória nas Europeias: não motiva os militantes do PSD e não ganha um voto fora do espaço do partido. Mais uma oportunidade desperdiçada”.

Ou seja, e por aqui me fico: até podia parecer uma escolha unânime, mas já se vê que nem dentro do PSD todos estão de acordo...

publicado por PRD às 23:53
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Terça-feira, 14 de Abril de 2009

A Tailândia em combustão

Vale a pena começar por contar esta história rápida: há dois anos, mais ou menos, convidei para vir aqui à Antena 1 conversar comigo, sobre blogues e sobre a vida, Manuel Castelo Branco, autor de um dos blogues que sigo com regularidade, o Combustões. Cidadão do mundo, ele escreve sobre todo o tipo de temas, o que fez com que não me apercebesse do óbvio. Mas o óbvio veio na resposta ao meu convite: que sim, que tinha muito gosto em vir à Antena, mas tinha um pequenino problma. É que vivia na Tailândia, em Banguecoque...

Pois é evidente que me lembrei logo de Manuel Castelo Branco nestes dias de brasa que se têm vivo naquelas paragens. E o que vos posso dizer é que temos ali, no blog Combustões, um verdadeiro diário da crise, bem escrito, explicado e mesmo fotografado.

Num dos primeiros textos sobre a crise, esclareceu o seu ponto: “sou pela monarquia, pela aristocracia, pelo exército, pela Tailândia culta e preparada para dirigir um Estado moderno. Sou, sobretudo, por este povo que amo como ao meu e que atravessa hoje a linha de fogo que separa a dignidade do abastardamento. Se os tais vermelhos plutocráticos vencessem, dentro de dez anos a Tailândia seria apenas mais um entre os países subdesenvolvidos da Ásia que foi primeiro colonizada e depois comunizada”.

Desde aí, tem feito reportagem contado histórias, fotografado. Escrevia há dois dias: “São quatro e meia da manhã. Parto daqui a minutos para a área da Casa do Governo cercada pelos vermelhos. Não posso deixar de ver o que se passa e espero poder tirar fotos para esclarecimento dos leitores. Desejem-me sorte”.

Ontem escrevia; “Nunca me fiei nos noticiários, como também nunca fui entusiasta dos mentideros e rumores. Como dizia Frei Amador Arrais, se "Deus nos deu dois ouvidos e uma boca, tal implica que devemos falar duas vezes menos do que ouvimos". Acrescentar-lhe-ia: se "Deus nos deu dois olhos e uma boca, tal exige-nos ver antes de falar". Se os acontecimentos ocorrem em baixo da nossa janela, por que raio os seguimos pela rádio ou entregamos a nossa inteligência à comunicação social ? Ontem deitei-me e não consegui dormir. Senti, como em finais de 2008, quando os amarelos Tradicionalistas ocuparam a Casa do Governo, que tinha de lá ir ver. Afinal, estando a estudar na Tailândia a sua história e cultura, tinha história a acontecer a meia dúzia de quilómetros. Nunca me desculparia se um dia assomasse, implacável e fria, a razão por não haver ido: o medo, que se pinta e esconde amiúde com a dita prudência e, tantas vezes, se arma de argumentos para se justificar. Montei uma motorizada e lá fui pelas longas, silenciosas e escuras avenidas que levam ao complexo de edifícios governamentais”.

O resto, desafio os ouvintes a irem ler ao blog Combustões – ali está o jornalismo do futuro, feito por quem tem dois olhos e vê, e sabe usar a cabeça para mais do que segurar um chapéu. Eu é que tiro o chapéu ao Manuel Castelo Branco, que dá abadas diárias às matérias dos jornais....

 

publicado por PRD às 23:52
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Segunda-feira, 13 de Abril de 2009

Loucuras

“Estará tudo doido?” - a pergunta, que leio no blog Lisboa SOS, inspira o dia. Comecemos por esse mesmo blog. Escreve-se ali: “Quatro partidos afixaram propaganda no Marquês de Pombal. O vereador (Sá Fernandes) quer tirá-los. Muito bem, achamos bem. O IGESPAR também acha bem. Diz que é uma «zona sensível da cidade», que o Marquês tem «características específicas». Muito bem. Mas, espera lá... Onde estavam o Zé e o IGESPAR quando a TMN colocou umas bolas gigantescas no Marquês de Pombal? Quando a Avenida da Liberdade foi fechada para fazer uma demonstração de Fórmula Um? Quando a Praça das Flores foi fechada para publicidade a uma marca automóvel? Quando o Terreiro do Paço foi invadido por bolas gigantescas da TMN? (...) Desculpem, mas aí já não havia «zonas sensíveis da cidade»? (...) José Sá Fernandes é a ÚLTIMA PESSOA com moralidade para vir agora proibir cartazes no Marquês de Pombal”.

Pois é, anda tudo meio doido. Apesar da Páscoa, o mundo dos blogues andou animado por causa de uma notícia do Expresso onde se conta que a jornalista Fernanda Câncio, presumível namorada de José Sócrates, tem vindo a publicar muitos textos em que defende o primeiro-ministro. Textos de opinião, entenda-se. Ora, aparentemente isto não seria noticia, mas nos blogues foi e é mora para o debate: pode ou não Câncio escrever o que bem entende, há aqui conflito de interesses ou não.

Parece óbvio que a jornalista tem razão – a opinião é livre e não depende das nossas relações pessoais. Mas lá está, como anda tudo meio doido há quem não aceite tal facto. Escreve então João Miranda no Blasfémias: “A tese mais interessante é a dos que defendem que a opinião, por ser opinião, não está sujeita a critérios éticos e, consequentemente, não gera conflitos de interesses. Faz sentido. Ricardo Costa já está preparar um artigo com o título “Lisboa: a arte de bem governar”. (...) E Judite de Sousa está a preparar um editorial para a RTP sobre a “excelente governação” da Câmara Municipal de Sintra”.

Com argumentos destes, digam-me lá se não anda por aí muito juízo fora dos eixos. Encontro mais loucuras, como a que Ana Margarida Craveiro escreve no Delito de Opinião sobre o PS. Pois bem: no partido que aguenta Manuel Alegre e as suas divergências, que tem a JS que tem, e que até vê Vital Moreira contra Sócrates sobre a escolha de Durão Barroso, a blogger acha que “O PS é hoje um imenso rebanho atrás de um líder de palha, calando aquilo que vê de errado, concordando no desespero do poder com prazo de validade”...

Loucura por loucura, fecho com aquela história sobre o vestuário recomendado às funcionárias de uma Loja do Cidadão do Algarve. Parece que o tal Manuel Alegre veio ontem dizer que tais regras têm “cariz fascizante, totalitário e contra a liberdade individual”. Tomás Vasques tem razão na recomendação que faz ao poeta socialista: “Cá por mim, que não sou de intrigas, aconselho Manuel Alegre a fardar-se de candidato à presidência da República”. Ou voltando ao começo: estará tudo doido?

publicado por PRD às 23:50
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Quinta-feira, 9 de Abril de 2009

Blog da Semana: Paulo Freixinho

Entramos num fim-de-semana prolongado, há muita gente em férias ou a partir para férias, e a escolha do blog da semana fica antecipada para esta quinta. Optei por um blog que, de alguma forma, podemos ligar aos tempos livres, ou pelo menos à ideia de passa-tempo. Chama-se Paulo Freixinho, o que pode não dizer nada a ninguém, mas logo por baixo do nome se esclarece “Seja bem-vindo ao primeiro blogue português sobre um autor de Palavras Cruzadas”.

E é disso mesmo que se trata: Paulo Freixinho é um profissional das Palavras Cruzadas e dos passatempos em geral. Militante do tema desde os 14 anos, editou a sua primeira revista em 1990, a "Jogos Cruzados", já extinta. Conta ele que “A produção da Jogos Cruzados levou-me até à Agência Feriaque onde iniciei uma colaboração que dura até hoje e que já resultou em mais de 20 000 passatempos, onde se incluem cerca de 400 revistas, na maioria dedicadas aos mais novos”. Actualmente, assina as Palavras Cruzadas da Caras, Diário de Notícias, Público, 24 Horas, TV+ e Notícias Magazine.

Pelo caminho, é também um pintor e, como diz, “surgiu este "vício" dos blogs e aqui estou eu para mostrar ao "mundo" o meu trabalho”.

O trabalho de Paulo Freixinho está no blog, por todos os lados: em palavras cruzadas para os seus leitores, em dicas e ajudas para os passatempos que vai publicando nos jornais, e em pequenas histórias sobre a sua profissão.

Um blog muito dedicado a quem gosta deste tipo de jogos que nunca faltam nos jornais e nas revistas. Podem encontrar o blog em

palavrascruzadas-paulofreixinho.blogspot.com/

Na história que Paulo Freicinho conta da sua vida, acaba por se perceber um pouco da sua paixão: “Quando comecei a fazer passatempos para a Agência Feriaque, aos 21 anos, seria certamente um dos autores de Palavras Cruzadas mais novos. Ao longo destes 17 anos, preocupei-me sempre com a qualidade dos passatempos que produzi. Aliar a qualidade à quantidade nem sempre foi fácil mas penso que o saldo é bastante positivo. Ainda sou do tempo da máquina de escrever e da tinta-da-china que servia para pintar os quadrados pretos nas grelhas das Palavras Cruzadas. (...) Houve tempos em que o volume de trabalho a fazer era tanto, que optei por fazer a barba apenas uma vez por semana para ter mais tempo para os Passatempos. (...) Hoje em dia, já não é assim. Veio o casamento, as duas filhas, mais uns anitos e, obviamente, tive que abrandar o meu ritmo de trabalho. Actualmente trabalho no sótão da minha casa, vantagens da Internet. Embora utilize o computador, não prescindo da folha quadriculada, da lapiseira, da borracha e... do dicionário, claro está!”

Ou seja: um trabalho de qualidade, personalizado, assinado, de autor, que o blog acaba por espelhar. É uma ideia que vos deixo – fim de semana longo, nada para fazer, porque não umas palavras cruzadas ali num blog ao virar da esquina...

 

publicado por PRD às 00:39
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Quarta-feira, 8 de Abril de 2009

"Somos o que for a nossa memória"

Algumas descobertas, ou noticias, ou ambas as coisas, vinda do mundo dos blogues. Comecemos por um momento feliz, ou pelo menos bem concretizado, o que encontro no blog Geração Rasca assinado por Nancy B.. Fala de desemprego, mas fala de forma original. Assim:

“O adulto (ou jovem) desempregado surge no centro de emprego e é-lhe diagnosticada uma doença conjuntural, aparentemente passageira, motivada ora por herança genética, ora por negligência pessoal, ora por conjuntura social, ora por acasos diversos (...).
Face à doença conjuntural, com um certo perfil estrutural, o profissional do centro de emprego receita-lhe uma terapia milagrosa - cursos de reconversão profissional ou outra actividade de política pública de combate ao desemprego – uma espécie de receita que combate todas as doenças. O adulto aprende a auto-medicar-se e passa a utilizar tal comprimido para todas as doenças, enfim aquela mezinha é afinal miraculosa.
Paradoxos:
As políticas de combate ao desemprego não serão antes uma terapia de auto-medicação, sempre que o desenvolvimento científico e tecnológico (...) exclua do mercado de trabalho profissionais menos qualificados?
E quando o patamar de exclusão começar a subir a escadaria da estratificação social, continuaremos a demonstrar aquela atitude levemente social, levemente política, levemente privilegiada e levemente indiferente?”

Estas 158 palavras dão que pensar. Um blog pode ajudar a pensar, pode deixar-nos a pensar – como este me deixou – ou pode ser pensamento puro. No blog Pó dos Livros, dedicado justamente aos livros e aos autores e leitores, enontro uma citação de António Tabucchi que me enche as medidas. E aprendo com ele: «Não sou daqueles escritores que acham que a Internet vai constituir um perigo para o livro, e tal. Aquela velha história. Acho que não. O livro é o livro. É um instrumento. Como o martelo, digamos. É evidente que o Black & Decker é mais rápido para fazer um furo mas o martelo não deixou de existir. E a tesoura também não. Nem a bicicleta».

Gosto disto. É por isso que há 3 anos ando por aqui, observando, sublinhando, lendo e interpretando o mundo dos blogues. E é por isso que nesta quarta-feira de semana de Páscoa, que é semana meio-parada, ainda tenho tempo para felicitar mais um blog com assinaturas reconhecidas que chega a este universo. Chama-se “União de Facto”, junta o investigador Bernardo Pires de Lima e o comentador Pedro Marques Lopes e abriu hostilidades há dois dias com este post:
“Numa altura em que cada opinador, profissional ou amador, se encontra em risco de levar com um processo do Eng. Sócrates, eu e o Pedro decidimos abrir mais um blog para debitar faladura. Esta vai ser a nossa casa principal a partir de agora”. Vou estar atento à casa e aos seus autores, ciente de que Marques Lopes tem razão no que escreveu há poucos dias no Sinusite Crónica. Não era sobre blogues, mas podia ser, num futuro qualquer: “A verdade é que nós somos mais, muito mais, que o presente: somos o que for a nossa memória”.

publicado por PRD às 00:38
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Terça-feira, 7 de Abril de 2009

Justiça e enriquecimento ilícito

O debate destes dias à volta de processos como o do Freeport acaba sempre por relançar um outro debate: como pode o Estado, com a mão pesada da justiça, criminalizar – e por isso, prevenir – o dinheiro que se ganha de forma ilícita.

Ora o PCP aproveitou logo a boleia mediática e quer que a Assembleia da República legisle sobre a matéria. Rui Bebiano, no blog Terceira Noite, foi dor primeiros a comentar: “de uma coisa estou certo, escreveu: naquilo a que chamamos um estado de direito ninguém pode ser julgado duas vezes, e duas vezes condenado, pelo mesmo crime. Se o enriquecimento é ilícito, existiu antes dele um acto, ou existiram diversos actos, provavelmente conjugados, que determinaram essa ilicitude. Os quais deverão, sem qualquer dúvida, ser investigados, julgados e punidos de uma forma rápida, eficaz e exemplar”. No Cinco Dias, Nuno Ramos de Almeida respondeu-lhe: “Criminalizar o enriquecimento ilícito não significa julgar duas vezes o mesmo crime. Pretende-se (...) criar um mecanismo para conseguir julgar criminosos que de outra maneira seria muito difíceis  de apanhar. (...) Ao contrário que diz Bebiano, não estamos perante uma justiça de classe, mas uma alteração jurídica com vista a permitir que a justiça combata os crimes financeiro e de colarinho branco”.

Miguel Teixeira, no Câmara de Comuns, concorda: “Em boa hora surge esta iniciativa legislativa (...). A esperança constrói-se todos os dias, assim como a credibilidade nas instituições e pessoas que se vem desvanecendo todos os dias. Como seria Portugal se preocupações tão naturais como esta estivessem já legisladas? Por certo que algumas personagens que o País aprendeu a admirar sem saber bem porquê, não seriam tema de conversa ou de fascínio popular”.

João Soares, no blog Mirante, não acredita que a Assembleia aprova qualquer lei neste domínio: “Não é preciso ser um génio (...): desde que oficialmente o problema foi levantado pelo então deputado João Cravinho, ninguém tem dúvidas da falta de vontade ou de capacidade para encarar o assunto com seriedade e eficiência”. No Mais Actual, Rui Costa Pinto recupera a mesma intenção nas palavras de Manuela Ferreira Leite, e tem esperança: “Pode ser que, desta vez, o PS tenha vergonha na cara e aprove uma legislação fundamental para combater os corruptos”. Ora, do lado socialista coloca-se a questão também em termos de direitos, liberdades e garantias. Tomás Vasques observa o tema por esse lado mais difícil: “O Estado começa com pezinhos de lã, em matérias em que ninguém lhe leva a mal, como o enriquecimento ilícito. Depois, aos poucos, vai estender o princípio consignado na lei (...), aliviando o Ministério Público duma carga de trabalhos. Virá o dia em que o Estado acusa um cidadão da prática de um qualquer crime e o cidadão que se amanhe e prove a sua inocência num processo kafkiano”.

Entre a vontade de prevenir o crime de colarinho branco e os riscos que isso implica para a nossa existência, estou com o povo: venha o diabo e escolha...

publicado por PRD às 00:37
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Segunda-feira, 6 de Abril de 2009

Cenário dantesco...

Se eu tivesse andado por fora uns dias e agora chegasse a Portugal e andasse pelo mundo dos blogues a actualizar-me, deparava com um cenário dantesco: José Sócrates não teria condições para continuar primeiro-ministro, os magistrados portugueses vivem entre a espada e a parede e acabou a liberdade de informação. Uma tragédia.

Nesse sentido, gostei de ler o post de João Villalobos no Corta-Fitas que, de alguma forma, resume o momento: “Tudo ferve. No Facebook cria-se um grupo de apoio ao João Miguel Tavares e ainda outro apelando à resignação do PM do seu cargo. No twitter, de segundo em segundo a timeline vai-se preenchendo a um ritmo frenético de contestação, acumulando comentários sarcásticos sobre o Freeport, os processos colocados e a colocar por Proença de Carvalho ou as amplitudes do verbo «pressionar». É uma autêntica tempestade de areia digital a qual torna invisível, por entre o vento e a fúria, o que solidamente sustenta aquilo que efectivamente se vier a passar.

Enquanto isso, lá fora no mundo 1.0, aqueles que antecipam o novo ciclo político disseminam um discurso de requiem para José Sócrates e asseguram os nomes de Costa, de Vitorino ou de António José Seguro como alternativas já listadas. Para esses, o socratismo descansa já em paz e as exéquias estão feitas, aguardando apenas o momento formal da despedida.

Eu, no entanto, revi há pouco o Kill Bill  de Tarantino. E tenho ainda fresca na memória a cena em que Uma Thurman, encerrada dentro de um caixão a sete palmos de terra da superfície, se liberta depois de muitos socos pacientes e certeiros na madeira dura. Como ela, Sócrates poderá ter recursos que aos muito bem informados escapam. Tal como ele lhes pode escapar. Opto por esperar, até ver onde chegam os seus poderes de Kung-Fu. Os dele e os dos seus mestres”.

É isto, na verdade, que se passa: um agitado ambiente algures entre a conspiração, a adivinhação, e a ficção cientifica. Claro que há verdades no meio da confusão, mas já ninguém sabe onde andam, como o episódio das pressões sobre os magistrados nem atesta, ou como esse outro caso do jornalista João Miguel Tavares, que foi processado pelo primeiro-ministro na sequência de um artigo que corre a blogoesfera à velocidade da luz. O corporativismo funciona, claro, e correm pela rede mensagens solidárias. Percebe-se o que move o colunista da moda e o primeiro-ministro permanentemente indignado: cada um defende a sua dama.

À velocidade da luz circula também um dos artigos do fim-de-semana de Vasco Pulido Valente no jornal Público, e esse sim merece atenção, que é sério e sem direito à difamação. Escreveu Vasco: "O português parte do princípio que os políticos se 'enchem' (os que são espertos, pelo menos). Não acredita na honestidade do Estado ou na eficácia da lei. Acredita no que recebe e no que lhe tiram; e não se importava de arranjar um lugar à mesa".

Lá está: sem direito a processo, e a dar que pensar. Artigos assim, vale a pena multiplicar pelos blogues...

 

publicado por PRD às 00:36
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Sexta-feira, 3 de Abril de 2009

Blog da Semana: Tuga em Londres

Nestes dias em que Londres é a capital do Mundo, por via da cimeira do G20, achei que seria oportuno escolher para blog da semana mais uma dessas páginas de portugueses que decidem viver fora, investir fora, a partilhar connosco a sua experiência, a sua vivência. Desta vez escolhi justamente o blog de uma portuguesa a viver na Grã-Bretanha. Chama-se Tuga em Londres, a autora é a Filipa. Podem encontrá-la em tugaemlondres.blogs.sapo.pt/

Contou no começo do blog, em 2007: “Estava de férias no Alentejo com os meus pais quando recebo o telefonema que foi mudar radicalmente a minha vida até então”.

O telefonema era para voltar a Londres “para uma segunda entrevista para um programa internacional de licenciados na área de gestão”. Tudo se passou em 2005 e a Filipa continua hoje em Londres: “Trouxe na mala o bacalhau, o chouriço, o salame de chocolate e a música dos Clã e do Pedro Abrunhosa que ouço muito mais desde que estou em Inglaterra do que alguma vez ouvi enquanto vivia em Portugal”. E percebe-se, claro. Mas voltemos à actualidade...

Esta semana, Filipa fala da cimeira do G20 e de como isso abala a vida da cidade e escreve: “já houve uma circular a passar pelo escritório onde trabalho na semana passada a avisar que vai haver segurança redobrada no nosso edifício durante os dias em que decorrerem estas manifestações, (...) pedem-nos para trazer o passaporte ou outra forma de identificação para além do habitual passe de entrada no edifício (...) Chiçaaa! Com isto tudo o pessoal até fica nervoso ao ler o aviso a pensar o que raio poderá acontecer”.

Nada de mais, não aconteceu nada de mais. Noutro post, a Tuga em Londres decide aconselhar os portugueses que pensam ir à capital britânica na Páscoa: “Londres vai ter 4 dias de férias com o feriado de sexta-feira (...). Espera-se uma grande quantidade de turistas na cidade (...) e várias actividades estão a ser planeadas para preencher os feriados dos visitantes e habitantes desta cidade. Agora, com a primavera e com o novo horário de verão, a luz do dia prolonga-se até mais tarde, uma grande vantagem para quem quer aproveitar ao máximo o que esta cidade tem de melhor para oferecer”.

Noutro post, encontro um elogio à noite de comédia Portuguesa em Londres: “um verdadeiro sucesso! O público não parava de chegar e rapidamente a casa ficou cheia pronta para receber umas boas gargalhadas que foram muito bem conseguidas pelos comediantes (...). Acho que falo por todos quando digo que passámos uma noite bem divertida e foi uma óptima situação para conhecer outros Portugueses que também vivem nesta grande cidade”.

E é assim o Tuga em Londres: modesto, humilde, simples, de uma portuguesa em Londres – dá bem a ideia e imagem de como é viver fora de portas sem querer perder a ligação a Portugal. Uma ideia que inspira, é o meu destaque da semana.

 

publicado por PRD às 00:34
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Quinta-feira, 2 de Abril de 2009

A voz do G20

A Cimeira do G20 não pode permitir “meias medidas”, disse o Presidente norte-americano Barack Obama. Pois o mundo dos blogues respondeu-lhe sem meias medidas, a começar num inspirado Paulo Pinto de Mascarenhas que se lhe referiu sob o titulo “O Ponto G do Mundo”. Eu acrescentaria: quem o encontrar, chama-lhe seu.

Para já, e de começo, as imagens mais marcantes foram mesmo de conflitos nas ruas de Londres. Escreve Nuno Gouveia no Cachimbo de Magritte, ligando Londres a Lisboa: “Sempre que os líderes mundiais se reúnem, a extrema-esquerda sai à rua e provoca manifestações violentas. Não seria altura dos seus promotores portugueses se demarcarem destes actos, que infelizmente já fazem parte das notícias? Ou será que apenas condenam a violência da extrema-direita?”

No Insurgente, André Abrantes Amaral observa os primeiros discursos e ideias e espanta-se: “quem diria que a Europa alertaria os EUA para os gastos excessivos do Estado. Que na cimeira dos G20, a voz da razão fosse a da chanceler da Alemanha”.

Na verdade, a cimeira pode ser vista de muitas maneiras, conforme o ponto de vista e o interesse de quem a vê. Paulo Gorjão, no blog Vox Pop, titulo um dos seus posts de forma clara: “A Lua de mel acabou”. E diz: “Como que lembrando aos mais distraídos que a percepção dos interesses dos Estados é mais duradoura do que as suas lideranças, pela parte que lhe toca, Nicolas Sarkozy coloca um ponto final à lua de mel europeia com Barack Obama. A França não vai enviar mais militares para o Afeganistão. Não estamos a falar do Iraque, nem o Presidente dos EUA é ainda George W. Bush. Porém, Sarkozy revela total indisponibilidade para reforçar a presença militar francesa no Afeganistão. Há linhas de continuidade que são indiferentes aos tempos”.

Nuno Dias da Silva, no Civilização do Espectáculo, desmancha um pouco o cenário:

“As grandes cimeiras políticas são simplesmente para «inglês ver». Realmente produtivas só as fotos de família, os faustosos banquetes e as visitas de beneficência das primeiras damas. Tudo o que resto é discutido o resto do ano. Nos bastidores. A divisão dos blocos EUA/Inglaterra e França/Alemanha também está bem vincada na cimeira do G20, em Londres. As conferências de imprensa chegaram a ser separadas, ou seja, por blocos políticos. Sarkozy chegou mesmo a dizer que «a política não é só fazer discursos bonitos. É sobretudo assumir responsabilidades». O destinatário da «boca» do presidente francês só pode ser um...Barack Obama”.

Fecho a volta com Miguel Castelo Branco no blog Combustões. Ele escreve um belíssimo texto sobre a inveja, começando com uma citação que pertencerá a Unamuno ou de Ortega y Gassett: "A inveja é muito mais dolorosa que a fome, pois trata-se de uma fome espiritual". E depois de desenvolver o tema, remata assim: “A inveja é um grave padecimento individual, mas quando se transforma em visão do mundo gera loucura colectiva (nazismo), empobrecimento colectivo (comunismo) ou, simples, comezinha e medíocre, a tirania dos homens pequenos que alguns teimam em confundir com a democracia e com a lei da maioria. Viram o retrato de família dos G-20? Ali está a inveja entronizada”. Mais nada a dizer por hoje.

publicado por PRD às 00:31
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Estes textos são escritos para serem “falados”, ou “lidos”, pelo que não só têm algumas marca de oralidade (evidentemente, propositadas...) como é meu hábito improvisar um pouco “em cima deles” no momento em que gravo a rubrica. Também é relevante dizer que, dado tratar-se de uma “revista de blog’s” – e uma vez que os blog’s não se preocupam com a oralidade ou com a eventual citação lida dos seus textos -, tomo a liberdade de editar minimamente os textos que selecciono. Faço-o apenas para que, em rádio, não se perca a ideia do blogger pelo facto de escrever frases longas e muito entrecortadas. Da mesma forma, não reproduzo palavrões nem frases pessoalmente ofensivas, assim como evito acusações cuja possibilidade de prova é diminuta ou inexistente. Sendo uma humilde crónica de rádio, tinha ainda assim de ter alguns princípios. São estes. Quem tiver razão de queixa, não hesite!

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