Terça-feira, 17 de Março de 2009

The return of Santana

Este vai ser um ano eleitoral forte – e como temos visto nos últimos anos, a internet ganha terreno no marketing, no debate, e acaba por vencer imprensa, rádio e TV na profundidade com que pode dedicar-se aos temas - a sua imensidão e o facto de não ter limitações de espaço e de tempo ajudam, claro.

Pedro Santana Lopes sabe que por um voto se ganha e por um voto se perde, e sabe que tudo não é demais no combate que tem pela frente. Por isso, há vários dias que o seu blog vem anunciando o lançamento do blog oficial da campanha. Quinta-feira da semana passada, a guerra abriu as suas portas e nasceu “Lisboa Com Sentido”, o blog oficial da campanha do candidato social-democrata. A ideia base é a mesmo assente na palavra sentido – o que faz sentido e o que não faz sentido, e uma ligação aos cinco sentidos. No editorial de abertura do blog está tudo claro: “Neste espaço vamos querer ouvir. Responder, debater. Mas não vamos atacar nenhuma pessoa, nem sequer quem tenha por hábito ofender”. Depois apresentam-se prioridades: “Ambiente e eficiência energética: uma questão de civilização, já mesmo de sobrevivência. (...) Repovoamento e reabilitação: uma questão de consciência (...). Acessibilidades e eliminação das barreiras arquitectónicas: uma questão de dever comunitário pelos direitos de todos.
Boa mobilidade e uso sistemático dos transportes públicos: uma questão de método e de qualidade no quotidiano.
Humanidade e inclusão social: uma questão de princípio para quem pense nos que precisam de mais atenção e mais cuidado”.

E no final, a ligação à palavra-chave: “É sentido o que dizemos: vamos dar sentido às coisas. O sentido da Democracia só existe quando as palavras não são ditas ou escritas em vão. Principalmente, no momento nobre de uma eleição”.

Está então aberta esta primeira frente de campanha: em Lisboa, Santana Lopes adianta-se e lança o seu blog. Nas legislativas, Sócrates também se chega à frente mas na versão site, mais sofisticado, eu diria obamizado, dadas as cores e os contornos do site. O próprio texto de entrada do actual primeiro-ministro é institucional na fórmula e no apelo ao eleitor: “Neste ano em que os portugueses vão ser chamados a fazer escolhas, é preciso lembrar que este não é um tempo para aventuras. O tempo que vivemos exige responsabilidade na acção, sentido de Estado, rigor, apoio às empresas e ao emprego, investimento, diálogo social e estabilidade política”.

Ao longo do ano, podemos preparar-nos porque vamos ser literalmente inundados por sites, blogues, twitters e facebooks eleitorais e políticos. Ficam os primeiros sinais, à Janela eu vou vendo chegar os candidatos...

publicado por PRD às 01:23
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Segunda-feira, 16 de Março de 2009

A palavra crise

Se escolher uma simples palavrinha, tenho sempre pano para mangas. Crise. Seja, então: o ministro Vieira da Silva defendeu que o acesso dos sem-abrigo às prestações sociais deve constituir uma prioridade e logo João Miranda comentou, no Blasfémias: “Esta notícia é estranha. Como que é que, com tantos programas sociais, incluindo rendimento mínimo, salário mínimo, reforma mínima e habitação social, ainda existem sem-abrigo em Portugal?” André Azevedo Alves responde no Insurgente usando a palavra “falhanço”: “O mesmo Estado que absorve cerca de 50% do PIB anuncia agora um programa especial de mais 75 milhões de euros dirigido aos sem-abrigo. Não seria melhor explicar antes (...) porque foram incapazes de cumprir esse objectivo os anteriores milhares de milhões de euros gastos pelo chamado “Estado Social”?”.

A crise vai a todos os cantos e recantos da nossa vida. No 31 da Armada, Carlos Nuno Lopes lê no Correio da Manhã um titulo: "Reformados já pagam medicamentos em prestações". E diz: “Esta parece-me ser mais uma consequência do mau Governo nacional do que de uma crise internacional. Mas lá virá alguem desculpar-se na crise”.

Nancy B, no blog Geração Rasca, encontra num jornal um caminho e uma ideia. Escreve: “N'O Sol (...) lemos as preocupações do director com o perigo apocalíptico do controlo da economia pelo Estado. O digníssimo director pretende dizer-nos o seguinte: a resposta para enfrentar a crise deverá pertencer às empresas, tributadas com adjectivos muito próximos da evangelização. Caríssimo director gostaria que me explicasse a articulação interessante entre os empresários do costume e os concursos públicos (...) e já agora e se não o maçar a tal independência saudável das empresas e os grandes desígnios nacionais”.

Mas não estamos sozinhos e vale a pena seguir Sandra Monteiro na história que conta no blog Ladrões de Bicicletas. Resumindo, ela conta que o jornal espanhol El Pais, “a jóia espanhola do grupo PRISA, recusou no início deste mês publicar (...) o anúncio à edição espanhola do Le Monde diplomatique, espaço publicitário” regular há vários anos. “A justificação enviada (...) foi apenas esta: «a redacção do El País não deu autorização». O que explica esta estranha decisão?”. A própria blogger adianta: a tal edição do Le Monde Diplomatique publica este mês  “em manchete um artigo (...) intitulado “A crise golpeia o El País”, em que analisa as dificuldades económicas atravessadas pelo grupo espanhol”.

Sandra Monteiro estranha e acha difícil acreditar, como eu, “que um jornal como o El País, que pretende ser uma referência em matéria de ética jornalística, reaja a uma situação de crise económica pensando que é possível ocultar a informação (...). Mas também é verdade que a comunicação é cada vez mais um espaço onde se misturam várias lógicas, com todo o peso das lógicas comerciais, económicas e financeiras”.

E fecho assim, com um sinal da crise que vem de fora, de um país que nos habituámos a invejar, para que se perceba que estamos mal – mas que o mal se estende pelo mundo fora e toca mesmo os mais insuspeitos lugares.

publicado por PRD às 01:21
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Sexta-feira, 13 de Março de 2009

Blog da semana: Ephemera

Chamo-lhe blog porque me dá jeito e assim posso classificá-lo como blog da semana. Na verdade, é bem mais do que um simples blog – e tem assinatura reconhecida. Trata-se da mais recente iniciativa histórico-tecnológica de José Pacheco Pereira, chama-se EPHEMERA e esclarece na página de entrada que “tem como objectivo divulgar materiais da biblioteca e arquivo pessoais” do historiador e político, “em particular dos diferentes espólios, doações, ofertas e aquisições que deles fazem parte. Na medida do possível, do tempo e das circunstâncias, todos estes materiais estão acessíveis aos investigadores que deles necessitem para o seu estudo e trabalho, nos condicionalismos normais de uma biblioteca e arquivos privados. Dada a dimensão e qualidade de alguns dos materiais, (...) o meu objectivo, a prazo, é tornar disponível a todos este acervo”.

Ali está então em ephemerajpp.wordpress.com , e note-se que efémera se escreve com ph...

Além dos materiais diariamente digitalizados e organizados, às dezenas, às centenas, aos milhares, há histórias deliciosas como esta: “Devo uma biblioteca completa a um funeral e à lembrança de um dos homens que veio velar um morto e que negoceia em papel e sucata. Bateu-me à porta e disse-me que tinha comprado umas toneladas de papel, sob o formato de livros, e que talvez eu quisesse alguns. Ele preparava-se, conforme as regras da sua profissão, para rasgar as capas dos livros para separar o tipo de papel e maximizar a sua compra. Prometi que ia ver e fui logo a seguir.

Era um dia desta primavera sem chuva e o local onde estava armazenado o papel era no meio de um campo (...) Lá estavam os contentores completamente cheios de livros, à primeira vista apenas maltratados pela forma como foram carregados, mas escapados à perigosa destruição pela água por esta longa seca. Tirei um que estava em cima, uma das primeiras edições brasileiras de Jorge Amado, depois outro, uma novela portuguesa dos anos quarenta, e outro, um manual de instrução para os oficiais de cavalaria do século XIX. Comprei tudo de imediato, com a condição que ele não deitava fora um único papel, quer dos que estavam, quer dos que faltavam e que “jornais escuros” também faziam parte do acordo. Insisti, com uma velha suspeita habitual, que tudo era tudo, fosse o mais pequeno e amarfanhado resto de posologia de um medicamento. Se havia lixo, eu veria o que era lixo”

E assim foram para o arquivo de Pacheco Pereira mais 6 toneladas de papel. Repare-se como o historiador mostra sem qualquer espécie de embaraço a sua obsessão pelos papéis: ele quer todos, ele quer tudo. Ele é um homem de paixão. Ephemera é um serviço publico, um trabalho notável, algo que devia obviamente ser apoiado pelo estado. Não é – é de Pacheco Pereira e do seu amor pelo passado e pelo estudo. Admirável amor.

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Quinta-feira, 12 de Março de 2009

Sobre a inveja

Tomemos, a propósito de um post, uma palavra como exemplo: inveja. A inveja. Leio sobre o tema um texto excelente de Marta Caires no blog Delito de Opinião:

“Há uns anos, quando a crise ainda não tinha tomado conta dos espíritos, José Gil escreveu um livro sobre o medo de existir, esse terror português que pede desculpas por respirar, por ter ideias, por andar e viver. O filósofo avançava razões para este atavismo histórico, recuava à ditadura, ao que a revolução não fez e, por último, à essência da sociedade. E, lá, por detrás dos debates, foruns e antenas abertas (...), o investigador detectava a raiz do mal na inveja que despreza o mérito, deprecia a criatividade e condena ao silêncio tudo o que possa florescer e ter sucesso. A inveja, ainda que feia, é humana, até os santos a sentem. Inveja por alguém mais bonito, pela abundância, pela alegria, mas aquilo que mina as relações sociais não é este imponderável, essa fraqueza de querer a felicidade dos outros. O impulso é como a espuma na areia, desfaz-se e não deixa rasto. A inveja - a que se instituiu entre os portugueses - é patológica, obssessiva. Corre sinuosa nas apreciações negativas, na troça de pequenos nadas”.

Sigo a pista da inveja pelo lado contrário – a inveja que muitas vezes sentimos das coisas boas que nos faltam. Leio então José Saramago, no seu blog, a propósito do 11 de Março espanhol: “Em Espanha, solidarizar-se é um verbo que todos os dias se conjuga simultaneamente nos seus três tempos: presente, passado e futuro. (...) O 11 de Março não foi só um dia de dor e de lágrimas, foi também o dia em que o espírito solidário do povo espanhol ascendeu ao sublime com uma dignidade que profundamente me tocou e que ainda hoje me emociona quando o recordo. O belo não é apenas uma categoria do estético, podemos encontrá-lo também na acção moral. Por isso direi que poucas vezes, em qualquer lugar do mundo, o rosto de um povo ferido pela tragédia terá tido tanta beleza”.

Eu invejo este sentido espanhol que tantas vezes nos falta – como invejo o texto que Daniel Oliveira publicou sábado passado no Expresso. Não cabia aqui na janela – mas hoje vi que estava reproduzido no blog Babel, e passou a fazer sentido citá-lo. Pelo menos, citá-lo quando escreve: “No Trivial Pursuit nacional não se tira prazer ou conhecimento da leitura. Ela é o Ferrari que se exibe na praça da aldeia. Portugal tornou-se melómano quando Santana Lopes inventou uma obra de Chopin e literato quando Cavaco confundiu Thomas Mann com Thomas Moore. Num país encadernado mas sem livros, com imensa cultura de lombada mas sem gosto, habitado por citadores de banalidades e de filósofos espanhóis, a cultura é um penacho. (...) Num país em que tudo o que conta é a aparência, já cansa ver como a cultura só é assunto quando serve para humilhar o vizinho do lado. Por cá, como se lê pouco, quem cita um livro é Professor Doutor”.

E também este texto passa pela inveja, e assim a palavra começa e acaba esta Janela Indiscreta. Há dias assim...

publicado por PRD às 19:12
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Quarta-feira, 11 de Março de 2009

Angola é nossa...

Fala-se muito de temas fracturantes e são quase sempre os mesmos: aborto, casamentos homossexuais, enfim – eu diria que tema fracturante mesmo é, por exemplo, o que rodeia as relações de Portugal com Angola. Por estes dias nota-se mais, com a visita a Lisboa do Presidente José Eduardo dos Santos. Reparemos por exemplo neste post de Luís Pinto no blog O Insurgente: “Parece que hoje vai estar por cá o rei de Angola a visitar o caseiro. Entretanto, parece que os angolanos vão continuar a ter aquilo que merecem e por que lutaram. Infelizmente, ao que parece, nós também”.

Muito critico também, Miguel Marujo pasma no Cibertulia: “Enquanto que os do costume falam dos perigos da liberdade em Portugal, aplaudem a chegada desse grande democrata que é José Eduardo dos Santos. Pasmo, mas a real politik - o dinheirinho, claro! - lixa tudo”.

Num outro registo, igualmente critico mas mais respeitador, Tiago Moreira Ramalho escreve: “é-me especialmente doloroso ver toda a classe política portuguesa quase ajoelhar-se perante Eduardo dos Santos. Fico com a sensação terrível que Portugal, ao investir nas boas relações com Angola, está a compactuar com um regime que, à partida, seria por nós condenado. Somos assim: moralistas (...). Seria bom que fôssemos um bocadinho menos hipócritas e não vendêssemos a alma por meia dúzia de tostões”.

Bom, com maior ou menor respeito, por todo o lado se respira desconfiança, preconceito, e uma ideia firme sobre o que está em causa. Há quem consiga, no entanto, ver o tema de outro modo. Vejamos o que escreve João Carvalho no blog Delito de Opinião: “O Chefe de Estado angolano vem a Portugal em visita amistosa e, ao que tudo indica, apresenta-se aberto ao diálogo. Se assim for, é preciso que nos lembremos de que Angola é, cada vez mais, um destino preferencial dos portugueses que partem empurrados pela crise internacional e pelo desemprego. E (...) é também alvo apetecido dos investimentos nacionais. Perder estes dois aspectos de vista é ignorar os nossos próprios interesses”. Paulo Gorjão, no Vox Pop, vai um pouco mais longe: “A visita (...) vem chamar a atenção para as relações bilaterais (...). Basta olhar de relance para o relacionamento entre Lisboa e Luanda para perceber de imediato que Angola é muito mais importante para Portugal do que o contrário e isso, naturalmente, é um traço que define a identidade da relação”.

Na verdade, a questão da coerência, da seriedade, de ter apenas uma face e uma palavra estão muito para lá de esquerda e direita. Leio Emídio Fernando no blog Correio Preto e ele diz tudo sob o titulo “coerência de aço”: “O Bloco de Esquerda resolveu não participar no encontro na Assembleia da República que juntou Jaime Gama, José Eduardo dos Santos e líderes parlamentares, na visita oficial do Presidente de Angola. O mesmo Bloco de Esquerda homenageou, na mesma Assembleia, 'Nino' Vieira”.

Eis como, de uma assentada, se pode ver até vai a politica real, à esquerda ou à direita. Tanto faz.

publicado por PRD às 19:06
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Terça-feira, 10 de Março de 2009

Três anos com Cavaco

Cavaco Silva é Presidente há 3 anos e claro que isso dá balanço, mesmo que, como escreve José Medeiros Ferreira, “pouco” se possa “concluir do seu mandato, prudente, cauteloso, com desejo de acertar, aqui e ali mal aconselhado. Ainda não passou por nenhuma daquelas provas que definem um consulado”. Um dos seus eleitores foi Duarte Calvão, do blog Risco Continuo, que confessa que “dificilmente” voltará a votar em Cavaco: “a verdade é que, eventualmente tolhido pelo facto de ter que mostrar que (...) conseguia coabitar com o Governo socialista, (...) fora duas ou três questões que só interessam a analistas políticos, não se nota grande diferença dos seus antecessores. E ele, que foi um óptimo primeiro-ministro, vai provavelmente terminar o seu primeiro mandato presidencial deixando o País pior do que o encontrou”.

Já Helena Matos, no Blasfémias, resume três anos a uma palavra: “Decência”. Com prós e contras faz Nuno Dias da Silva o seu balanço no Civilização do Espectáculo: “Pela positiva: os discursos em que ousou falar verdade e colocou o dedo na ferida, alguns vetos políticos que embaraçaram o governo e a adesão às novas tecnologias (...). Pela negativa: a manutenção no Conselho de Estado de Dias Loureiro (...), o excessivo empolamento do caso envolvendo o Estatuto dos Açores e o enxovalho, perante a sua complacência, que foi alvo na Madeira ao não ser recebido na Assembleia Legislativa regional”. Duas palavras que me parecem óbvias: “Discreto e rigoroso”. Assim considera António de Almeida no Direito de Opinião. Por acaso, ou talvez não, no momento em que comemora este aniversário o Presidente realiza um Roteiro para a Inclusão onde, perante desempregados do distrito de Braga, disse; “deixo-vos a minha solidariedade, o que é pouco, mas não tenho mais para dar.

A frase foi feliz, levou Carlos Araújo Alves no blog Ideias Soltas a dizer: “Parece pouco? Pois a mim parece-me muito. Muito mais do que esperaria de Cavaco Silva ou de qualquer outro político ou economista - a humildade de reconhecer que não sabe, não tem solução, mas que está ao lado deles. Estou surpreendido? Mais do que isso. Estou rendido!”

Leio muitos mais blogues com este tipo de apreciação, e deixo apenas mais um, o Fractura.net: “Cavaco Silva assume o que os partidos políticos deveriam ter já assumido há muito: a necessidade de pegar no assunto, esclarecer devidamente todos os parceiros sociais e ser esclarecido por estes. Como Presidente da República, Cavaco está a dar uma lição de humildade aos representantes sociais – partidos, gestores, sindicatos, trabalhadores”.

Foi a cereja em cima do bolo de anos – a que posso também acrescentar a ideia de João Vilallobos, no Corta-fitas, que montou um inquérito aos leitores com esta pergunta: “Cavaco Silva merece os parabéns pelos seus 3 anos de mandato?”. A maioria absoluta estava do lado do sim: 24 % diziam que até merecia “uma prenda supimpa” e 39% aprovava, embora pedisse mais.

Mais um ano, isso vamos ter de certeza...

publicado por PRD às 18:22
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Segunda-feira, 9 de Março de 2009

Alegrices

José Sócrates tem razão para alguma impaciência: não lhe bastava a crise, o estado do país, e ainda tem que se confrontar com uma facção no seu próprio partido. Manuel Alegre “estica a corda”, como ele próprio diz. José Teófilo Duarte no Blog Operatório reflecte um bocadinho o incómodo que se começa a sentir mesmo à esquerda: “Nós, os do país real, já não percebemos o porquê de tanta mesura para com o trovador coimbrinha. Desistiu daquela ideia de partido? Parta para outra. Já não há paciência para tanta serenata ao vento”.

O fim-de-semana, nessa matéria, foi dos críticos, como escreve Tomás Vasques: “No Expresso, tivemos a entrevista de Manuel Alegre; (...) no Diário de Notícias, é a vez de Helena Roseta, ex-social-democrata e ex-socialista, apoiante de Manuel Alegre, ser entrevistada. Li atentamente a entrevista. Gostei (...) da síntese que acompanha a fotografia: «PS não está a medir o grau de revolta, está a iludir-se com as sondagens.» Helena Roseta também sabe qual o caminho para Belém”.

Até agora, Alegre tem sido tratado com pinças, como sublinha FT no blog Insubmisso: “O silêncio do PS sobre Manuel Alegre é ensurdecedor. Os socialistas agarram-se à bandeira da liberdade de opinião para tapar o insulto de opinião. Uma espécie de paciente com uma perna sem circulação, tecido morto, infecção a alastrar mas que recusa a amputação”. Recusa, digo eu, mas nem sempre...

... Na verdade, há um momento a partir do qual a tampa salta a qualquer um, como sucedeu ontem: Coutinho Ribeiro, no blog Delito de Opinião, acha “deslocada a forma como José Lello se referiu ao carácter de Manuel Alegre”, mas reconhece que “Alegre não pode estar e não estar no PS conforme lhe dá jeito ou não. Não pode usufruir da vantagem de ser um "histórico" do PS e andar de braço dado com o Bloco de Esquerda (...). Não pode andar a fustigar permanentemente o PS e deixar de ir debater o PS ao congresso”. No mesmo blog, Pedro Correia tem outra opinião: “há (...) muitos eleitores socialistas que pensam como Alegre. E que se revêem, hoje mais que nunca, nas palavras desencantadas do poeta. Sócrates jamais revalidará a maioria absoluta sem estes eleitores”. No Corta-Fitas, Bruno Pires também segue esta ideia: “se Manuel Alegre repetir a votação das presidenciais - caso consiga fundar um partido até lá, aliando-se, por exemplo, ao Bloco (...) - o actual primeiro-ministro diz adeus, pelo menos, à maioria absoluta”.

Parece cada vez mais insustentável a relação entre a esquerda de Alegre e o resto do PS – e Paulo Pinto Mascarenhas tem razão, no ABC do PPM, quando fala em “campanha de relançamento político de Manuel Alegre depois do XVI Congresso do PS” e lhe chama “A operação "agarrem-me se não eu candidato-me".

Temos novela para os próximos tempos, por isso vale a pena fechar com humor. Muita graça, digo eu, tem Pedro Picoito no Cachimbo de Magritte, sob o titulo “Dupond e Dupont”: “Manuel Alegre está para o PS como Passos Coelho para o PSD. A diferença é que Alegre escreve livros que ninguém lê e Passos (Coelho) lê livros que ninguém escreve”

 

publicado por PRD às 00:21
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Quinta-feira, 5 de Março de 2009

Simplex

Ontem o Simplex voltou a ser palavra de ordem: o Governo apresentou um pacote de 200 novas medidas no âmbito do Programa de Simplificação Administrativa e Legislativa. Termina o do boletim de vacinas em papel e reforçou-se a desburocratização nas áreas da saúde e das Pequenas e Médias Empresas, entre outras decisões.

João Eduardo Severino, no Risco Continuo, recorda que “Simplex na Função Pública ainda é uma miragem na maioria dos departamentos. Experimentem entrar nos Serviços de Estrangeiros e Fronteiras”. E depois queixa-se do IRS electrónico: “entrei no site das Finanças, fui até ao IRS e... bem, aquilo é de tal forma complicado e confuso que desisti. Já vou de patins a caminho do escritório do contabilista...”

O Simplex é uma boa ideia? Joshua, no Palavrussaurux Rex , diz que sim: “Tem sido responsável pelo decréscimo de custos operacionais e efectiva desburocratização? Tem”. Mas é claro que não salva a legislatura e a seguir o blogger desdobra-se em críticas ao governo.

Muitos blogues, aliás, acham que estas 200 novas medidas são poeira para os olhos dos eleitores com duvidas...

Carlos Nunes Lopes, no 31 armada, acha que simplex é... “esperar sentado: “Encerramento de centros de saúde. Longas listas de espera para cirurgias. Absurda diferenciação entre público e privado. Urgências caóticas. Dois Ministros da Saúde depois... O Governo apresenta a Reforma da Saúde:

espere... sentado.”

Na verdade esta palavra simplex parece mexer um pouco com toda a gente, e há sempre mais uma história para contar. No site do Expresso, os comentários dos internautas transbordavam olhares desconfiados:

“Estas medidas são muito bonitas mas pouco práticas. Já o cartão do cidadão que devia simplificar a vida às pessoas é mais caro, mais lento e obriga a trazer uma folha A4 com os dados do cartão de Utente pois a maioria dos centros de saúde não têm máquinas que permitam a leitura do novo cartão”.

 

No site do jornal Público, a notícia de ontem contabilizava, pela noite, mais de 80 comentários de todo o tipo. Dizer mal é um passatempo de que gostamos particularmente, por isso fecho com um comentário que encontrei, anónimo, e que diz mal de quem diz mal: “A resistência à mudança corre farta nas veias dos portugueses. "Estava mal e ficou pior" "Por mim era assim..." "Eu gostava era que..." TRISTE fado! No Simplex houve muitas medidas com bons resultados. E outras que terão tido menos impacto. O balanço global é positivo. Trabalho e dinâmica é coisa que as pessoas já não estavam habituadas a ver na Administração Pública... E agora estranham, é claro”.

Dizer bem também faz bem á saúde – e neste caso, é simples, é simplex...

publicado por PRD às 00:19
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Quarta-feira, 4 de Março de 2009

Clubes falidos?

A notícia talvez não surpreenda, mas ainda assim assusta: “Porto, Benfica e Sporting fecharam o primeiro semestre da época 2008/2009 no vermelho, com um total de 13 milhões de euros negativos, revelam os relatórios enviados à Comissão do Mercado dos Valores Mobiliários. Os três grandes clubes portugueses  estão em situação de falência técnica” – lia-se então nos jornais.

Claro que o mundo dos blogues reagiu: Francisco Aragonês, no blog Mesa Redonda, só repara no Porto e lê a noticia “Com espanto mas ao mesmo tempo com alguma alegria”, ainda que nota que, além do Porto, bem mal “devem estar as contas de todos os clubes”.
No blog Dias Úteis, Pedro Ribeiro olha mais para a frente e escreve: “algum dia as contas dos clubes (...) vão ter de ser vistas, à lupa. E terá de haver alguma consequência. E se queremos que os 3 grandes continuem a existir, quem sabe se não será necessário uma espécie de "pacto de regime" entre eles para uma politica financeira responsável. (...) Claro que todos vamos continuar a querer é que a bola entre e venham mais três pontos, e vitórias e títulos. Mas é cada vez mais urgente olhar mais além”.

A expressão é feliz, olhar mais além, infelizmente pouco usada no futebol, que bom escreve Nelson Filipe Patriarca n’O Meio é a mensagem, vive de aparências: “Tal como muitas coisas nestes país, o futebol nacional é uma pura ilusão. Os três"grandes" são um grupo de falidos, de mão estendida mas a fazer figura de gente rica e a manterem lutas e trocas de palavras pelos jornais e pelos media. (...) Se os clubes fossem tratados por igual às empresas há muito que tinham fechado”.
Por entre este tipo de comentários acabo por encontrar um post longo, porém muio bem sustentado, assinado por Pedro Arroja no blog Portugal Contemporâneo. No essencial, Arroja avisa que “se o Porto, o Benfica e o Sporting estão falidos, então, o que dizer dos restantes? Estão falidíssimos! O caso do Estrela da Amadora é o mais badalado, mas existirão outros semelhantes. Ou seja, o nosso futebol está como o resto do país: de pantanas!”

Mas antes disso explica parte do problema: “Nos últimos anos, o futebol foi um dos maiores sectores exportadores do nosso país. Recordo-me, em particular, do processo que culminou na venda de vários jogadores da super equipa que José Mourinho construiu no FC Porto e que permitiu ao clube (...) mais de 100 milhões de euros em receitas extraordinárias. Infelizmente, esta expressão, "receitas extraordinárias", parece nunca ter sido bem entendida pelos dirigentes que, embasbacados com os tempos de vacas gordas - e, vá lá, com o talento dos jogadores -, se habituaram a tratá-las como receitas operacionais. Assim, também os dirigentes se habituaram a ser tratados como craques da bola, definindo para si próprios salários milionários (...). Infelizmente, os tempos são agora outros. Por um lado, não há dinheiro. Por outro, também não há jogadores suficientemente bons para gerar esse tipo de receitas”.

Ou seja: também o futebol vive acima das suas posses. Como os bancos, as empresas, as pessoas. Diria, como Vasco Pulido Valente, que o mundo está mesmo muito perigoso...

publicado por PRD às 00:18
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Terça-feira, 3 de Março de 2009

A escolha Vital

Ontem abordei o Congresso do PS de uma forma global, hoje aproximo a lente da escolha de Vital Moreira para cabeça de Lista do Partido às eleições europeias, facto que Rui Carmo, no Insurgente, nota que colide com outro facto: “Ainda ontem o vi na TVI 24, na boa companhia de Vasco Pulido Valente e Rui Ramos, a afirmar - se a memória não me falha -, que não tinha informações sobre a escolha do cabeça de lista do PS para as eleições para o parlamento europeu”.

Agora, já sabe tudo e vai ter de escolher. Ou melhor, escolheu já. Vital Moreira, deixem-me que vos diga, é um dos mais prolixos militantes da blogoesfera – e no blog Causa Nossa tem sido mais papista que o papa, um defensor deste governo mais amigo de José Sócrates do que o próprio José Sócrates. Veremos como será daqui para a frente...

No mesmo blog Insurgente, André Azevedo Alves escreve, como se fosse um exemplo: “se um dado académico tiver um perfil público e estiver alinhado de forma próxima com o Partido X, é de esperar que os vários pay-offs associados ao processo político gerem fortes incentivos em termos de interesses pessoais no sentido de esse académico subscrever (...) a linha de opinião que mais favorece o Partido X. Estranhamente, (...) Vital Moreira parece ignorar este ponto relativamente básico”. No 31 da Armada, Nuno Miguel Guedes puxa a brasa à sardinha dos blogues: “Vital diz que está feliz «aqui». E que está surpreso (...). Aceitou a nomeação ontem à tarde, o que significa que não terá sido primeira escolha. E fala do seu blogue. Definitivamente estamos na moda...”

No Delito de Opinião, Carlos Barbosa de Oliveira vê a “rosa murcha” e nota-se que também releu os escritos recentes de Vital Moreira: “Acredito que, para muitos leitores, a escolha de Vital Moreira tenha sido uma surpresa. Não para mim, que conheço bem como Sócrates premeia os seus fiéis e me habituei a “ler” os encómios diários do Professor de Coimbra como um sinal “. Um sinal que acaba por se alargar a outras escolhas para estas eleições europeias, como bem recorda Henrique Burnay no 31 da Armada, chamando-lhe Campanha Vermelha: “Com Ilda Figueiredo (um pouco aburguesada), Miguel Portas e Vital Moreira (...) nestas europeias os portugueses têm imensos ex-comunistas por onde escolher”. Nem por acaso, no Delito de Opinião, João Carvalho recupera palavras de Pedro Marques Lopes na SIC-Notícias: «Vital Moreira é a Zita Seabra do PS.»

Deixando as brincadeiras de parte, e sabendo que a escolha é para a Europa, ainda assim não resisto a recuperar uma ideia que Vital Moreira deixou no seu blog em 2005: “Não se podem pedir sacrifícios a toda a gente e depois consentir a continuação da situação de impunidade da corrupção e da improbidade política e administrativa que grassam em muitas esferas da nossa vida pública”.

Isto nada tem a ver com Europa, mas dado que a escolha de Vital foi de José Sócrates, não é de mais deixar por aqui no ar uma das boas ideias que estão no seu blog. Quem sabe, dê algum resultado...

publicado por PRD às 00:17
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Estes textos são escritos para serem “falados”, ou “lidos”, pelo que não só têm algumas marca de oralidade (evidentemente, propositadas...) como é meu hábito improvisar um pouco “em cima deles” no momento em que gravo a rubrica. Também é relevante dizer que, dado tratar-se de uma “revista de blog’s” – e uma vez que os blog’s não se preocupam com a oralidade ou com a eventual citação lida dos seus textos -, tomo a liberdade de editar minimamente os textos que selecciono. Faço-o apenas para que, em rádio, não se perca a ideia do blogger pelo facto de escrever frases longas e muito entrecortadas. Da mesma forma, não reproduzo palavrões nem frases pessoalmente ofensivas, assim como evito acusações cuja possibilidade de prova é diminuta ou inexistente. Sendo uma humilde crónica de rádio, tinha ainda assim de ter alguns princípios. São estes. Quem tiver razão de queixa, não hesite!

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