Sexta-feira, 14 de Novembro de 2008

Blog da semana: Diário do Tripulante

Escolha da semana na Janela Indiscreta, hoje recomendo um blog que tem tanto de banal quanto de original. Parece contraditório mas não é: chama-se de”Diário do tripulante” e m subtítulo explica-se: “Um blog que conta várias histórias e episódios do dia-a-dia de quem anda ao volante de um autocarro no coração da cidade de Lisboa, os amarelos da Carris”.

E é isso mesmo: Rafael Santos tem 25 anos e desde há ano e meio que conduz um autocarro da carris, depois de ter tirado um curso de Operador de Câmara e Repórter. Fez alguns trabalhos para a RTP, TVI e SIC – mas, explica ele próprio, “Como o trabalho na televisão escasseava, tive de mudar de rumo e pelo meio ficou uma passagem pelo comércio têxtil”.

Depois de um período de formação na Carris, Rafael chegou enfim à sua actividade actual: “Quando entrei na Carris, conta ele, tal como tantos outros, de imediato me disseram que iria ter muitas histórias para contar e é verdade. Passado cerca de um ano e meio (...) recordo-me de algumas de muitas histórias caricatas. Por vezes chego a casa e acabo por comentar este ou aquele episódio e logo me dizem...«A tua vida parece um filme». Mas não é a minha vida, mas sim a vida de um motorista da Carris”.

Foi assim que decidiu abrir o blog Diário do Tripulante onde justamente conta as aventuras e desventuras da sua profissão. Nalguns momentos são histórias banais do dia a diz, noutros são realmente histórias do arco-da-velha

“Engana-se, escreve Rafael, quem pensa que ser motorista da Carris é pêra doce. Por vezes até é bem amarga porque somos nós que estamos ali a dar a cara. (...) Hoje (...) regressei para a 15E e mais um dia cansativo devido a uma avaria no autocarro, tendo de ir trocar o autocarro á Musgueira. Para não bastar ainda tive de levar com algumas má disposições de quem não arranjou melhor forma de começar a semana. O primeiro foi um tipo que reclamou comigo por eu estar a chegar a Belém e o eléctrico estar a partir, não permitindo assim o transbordo (como se eu tivesse culpa...). Depois e já bem perto do fim do dia, um senhor com os seus 70 e tais anos, lembrou-se de me insultar. Faltavam 5 minutos para partir de Algés e como estava frio na rua, abri a porta para que os passageiros entrassem e aguardassem sentados. Maldita a hora que tive esta ideia. O tipo pede para sair desta forma: «Abra a porta, porque quero sair sff. Já que você não sai daqui, saio eu...» e abri.... O tipo sai do autocarro e começa a insultar-me. «Vocês fazem o que querem, (...) sou eu que vos pago o ordenado....» e la foi aos gritos por Algés fora. Agora digam lá que isto é um mar de rosas e que ser motorista da Carris é só acelerar, travar e abrir portas. Amanhã 708 e depois termino a semana com dois dias na 701”.

Com fundo amarelo, como convém, este diário de um motorista da Carris pode encontrar em diariodotripulante.blogspot.com.

Uma outra maneira de viver um blog, uma ideia original e um motorista repórter...

publicado por PRD às 19:43
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Quinta-feira, 13 de Novembro de 2008

Mensagens

O país anda nervoso e enervado – dos estudantes aos professores, dos médicos aos clientes dos bancos, um pouco por todo o lado se sente uma inquietação e um desassossego que, em teoria, seriam fatais para quem governa e vai a votos no ano que vem. Pois nessas circunstâncias, nada de grave acontece porque a oposição, bom, a oposição podem bem ser retratada neste post do incontornável João Gonçalves no Portugal dos Pequeninos: “A dra. Manuela foi a Fátima pregar aos militantes. Queixou-se de si, isto é, do facto de "não passar" a "mensagem" do partido e de "falhas" nessa comunicação. Também as atribui aos jornalistas que não acompanham a "agenda" do PSD. Apesar da "anestesia comunicacional" e da cumplicidade sem vergonha com que o sector, público e privado, tutelado (...) pelo dr. Santos Silva "conta" a vida pública portuguesa, a dra. Manuela sabe que (...) a "produção" política do PSD é frágil. Um país de medrosos tende a refugiar-se atrás do que está quando as dificuldades crescem. Os "resultados" de Sócrates nos estudos de opinião só evidenciam isso e não propriamente uma qualquer genialidade particular da criatura. A propaganda e a referida complacência fazem o resto. Manuela, no lado oposto, limita-se a ajudar, não porque queira, mas porque não é capaz de mais do que aquilo”.

Assim estamos, realmente. E o mensageiro paga as favas, como bem nota João Ferreira Dias, no blog Kontrastes, que concorda com a líder do PSD apesar de também a criticar. Escreve: “A insipidez da sua mensagem e sobretudo da sua imagem pública - carrancuda e superior - camuflam boa parte das suas intervenções públicas, escassas mas existentes”. Mas “MFL lança um dado que é preciso ter em conta (...). A líder dos «sociais-democratas» acusa os meios de comunicação social de regularem o momento das transmissões relativas ao PSD, regulando para baixo a campo de actuação (...). Não servindo de desculpa para o vazio de comunicação ao eleitorado, revela contudo uma realidade muitas vezes silenciada: os media organizam e filtram a informação, privilegiando este ou aquele poder”.

Já Gabriel Silva, no Blasfémias, pede a Ferreira Leite que se explique melhor: “é que fica-se com algumas dúvidas, desagradáveis, sobre o que quer dizer ao certo com «Não pode ser a comunicação social a seleccionar aquilo que transmite»”.

As coisas não correm de feição no lado laranja, apesar de estarem hoje reunidas, mais do que nunca, para uma campanha de peso contra este Governo. Não espanta, por isso, o que escreve José Medeiros Ferreira num aviso suave, porém assertivo: “Este é daqueles momentos em que se percebe perfeitamente que não é a oposição quem ganha as eleições, mas sim o governo quem as pode perder”. No entanto, Manuel Jorge Marmelo, no Teatro Anatómico, acaba por lhe responder um pouco como julgo que a maioria dos eleitores responderia: “Um tipo vê falar o líder parlamentar do PSD, Paulo Rangel, ou o líder do CDS, Paulo Portas, e tem vontade de eleger Sócrates com maioria absoluta só para ver se os indivíduos se calam”. E assim vai o mundo visto do ecrã da blogoesfera.

publicado por PRD às 19:46
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Quarta-feira, 12 de Novembro de 2008

Supervisão ou minivisão?

O Caso BPN voltou ontem à ordem do dia, com a audição de Victor Constâncio, noite dentro, no Parlamento. Vale a pena recuperar uma ou duas ideias deixadas por Eduardo Pitta no blog Da Literatura: “A direita zurze em Constâncio, como se Constâncio tivesse metido ao bolso a totalidade ou parte dos milhões que foram pelo cano. Eu também não aprecio o estilo Constâncio, mas não confundo forma e conteúdo. E sobretudo não confundo polícias e ladrões”.  Ora, diz Eduardo, “O que me faz muita confusão é a ausência de bandidos. Há seis anos, quando rebentou o escândalo Casa Pia, os jornais e a TVI “descobriram” milhares de criminosos (...). Desta vez, logo desta vez ninguém sabe onde foram parar 1,2 mil milhões de euros”.

Dito isto, ou escrito isto, já se percebe que Jorge Ferreira deve ter razão quando, no blog Tomar Partido, escreve que “a Assembleia da República marca para o serão as audiências que pretende desvalorizar”. Pedro Correia, no Corta-fitas, acha que “Constâncio, o supervisor que não supervisiona, passa o serão no Parlamento a tentar explicar o inexplicável: por que não interveio a tempo, como a lei lhe facultava e até impunha”.

José Medeiros Ferreira, no Bicho Carpinteiro, também estranha a audiência mas vê o tema de outro modo:”Como ninguém quer convocar Oliveira e Costa, atiram-se a Vítor Constâncio como gato a bofe. Querem ajustar contas com o homem que lhes deu cabo das contas sobre o défice orçamental em 2005”.

Sem querer ajustar contas, Manuel Castelo-Branco é taxativo no 31 da Armada: “Banco de Portugal não precisa de novas leis nem de mais recursos, (...) só precisa de um novo governador”. Miguel Marujo, no Cibertulia, responde-lhe: “Sim, podemos continuar a bater em Vitor Constâncio (...). Mas, muito importante nesta história, não podemos esquecer que os principais responsáveis são os senhores que passaram impunes no BPN desde há muitos anos. Esses sim, cometeram crimes. O polícia só não foi a tempo do assalto”. Mantendo o caso dentro do filme policial, encontro João Pinto e Castro no blog Jugular: “Começa a ser demasiado óbvio que (...) o PSD está muito mais interessado na investigação e condenação dos polícias do que na dos ladrões”.

Nesta falta de tempo ou oportunidade para apanhar o ladrão, talvez Bruno César tenha razão quando escreve no blog Reactor 4: “Se vivemos numa economia de mercado a regulação será anti-natura desse sistema, impedindo desta forma uma eficaz regulação. Muitos querem agora crucificar Vítor Constâncio mas o real problema é a esquizofrenia de todo o sistema. Um sistema que é contra a regulação mas quer ser regulado!”.

No meio do intenso debate, tropeço na descoberta engraçada que João Villalobos traz ao blog Corta-Fitas. E com ela fecho a ronda: “A mascote do BPN para as contas da miudagem chamava-se «O Contas Papa-Euros». Não bastando, o texto para o jogo correspondente reza assim: «Procura todos os euros, não te esqueças das bolhas de ar e cuidado com os tubarões»”. Comenta Villalobos: “C'um escafandro! Esta gente tinha mesmo jeito para as metáforas”...

publicado por PRD às 19:56
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Terça-feira, 11 de Novembro de 2008

O apito sem cor

Voltemos ao futebol, já que ontem o dia foi dos professores e por isso deixei passar em claro Paulo Bento e as suas polémicas declarações sobre a arbitragem no jogo da Taça de Portugal com o Futebol Clube do Porto...

Quando estudava, dizia-se que se um aluno tinha má nota, a culpa era dele – se todos tinham má nota, a culpa era do professor. Lembrei-me desta frase-feita depois do jogo de domingo e da arbitragem de Bruno Paixão. Por causa das palavras de Paulo Bento, no futebol o tema voltou a estar na ordem do dia. José Nunes, no blog Linha Avançada, nota este facto. “A grande figura do jogo foi Bruno Paixão, que conseguiu a proeza de pôr os 2 treinadores de acordo. Quem é que não estava?”. Foi isso que encontrei no mundo dos blogues: muita gente do Porto e do Sporting a queixar-se unanimemente do árbitro. Será que por causa disso fez um bom trabalho?

Valupi, no blog Aspirina B, não gostou das palavras de Paulo Bento: “A arbitragem portuguesa, os problemas da arbitragem, tudo isso mete nojo. Penso que o Sporting tem sido demasiado simpático”. Disse que eram “Declarações que metem nojo”. No blog com o seu nome, António Boronha é peremptório: “se arbitrar 'bem' é somar decisões erradas, de igual modo para os dois lados, então Bruno Paixão foi excelente”. A norte, Mário Faria, no blog Reflexão Portista, diz que o pior do jogo foi mesmo o árbitro: “uma calamidade. O jogo foi bastante difícil de apitar, mas o homem foi mau de mais”. O mesmo que pensa um sportinguista, Katanec, no bog 442: ”O jogo esteve "sempre controlado", mas o árbitro não deixou. Portanto, esqueçam lá essas análises complicadas, que é coisa de intelectuais esquisitos”. Se lhe perguntasse, Filipe Sousa, do Futebol de Ataque, deveria estar de acordo. É ele quem escreve: “Erros da arbitragem foram mais que muitos. Parecia ser um jogo bem tranquilo mas Bruno Paixão resolveu deixar a sua marca”.

A ver por estes exemplos, Paulo Bento tem razão pelo menos no que respeita ao trabalho do árbitro neste jogo. Mas estará em causa a aribitragem em geral? Para esta pergunta, não encontro aqui respostas, por isso avanço sem medos para o que escreve o genial Maradona no blog Dieta de Rochemback: “Aconteceu um bom jogo de futebol, pelo que, provavelmente, estamos todos de parabéns. Até o árbitro, uma nulidade apitativa sob qualquer ângulo, conseguiu orientar as coisas de modo a fazer um trabalho tão complexo que não há capacidade de processamento instalada no planeta para descodificar todos os seus pormenores, e assim se identifique quem é que foi prejudicado ou quem é que foi beneficiado. Um conselho de amigo, apenas: essa táctica de inventar faltas atacantes nas grandes áreas para se livrar de apuros já começa a chatear”.

Voltando ao começo: todos ralham, ninguém tem razão, ou porque todos ralham há mesmo razão?

publicado por PRD às 23:22
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Segunda-feira, 10 de Novembro de 2008

A luta contínua

Foi impressionante a manifestação dos professores, este fim-de-semana, e era inevitável abrir esta Janela olhando aquela massa humana na Avenida e aquilo que reclama, exige, e que a faz protestar. Paulo Gorjão, no Vox Pop, fala na “Insustentável Ministra” e escreve: “Não é necessário perceber muito de educação para compreender que se passa algo de muito grave. Basta ter um pouco de bom senso e senso comum. Pura e simplesmente não é normal que a esmagadora maioria dos professores se manifeste, ultrapassando em larga medida a capacidade de mobilização sindical e/ou partidária. A insatisfação com a ministra da Educação é profunda e mesmo no PS começa a esgotar-se a tolerância”. Pedro Correia, no Corta-fitas, vai mais longe e pergunta: “Como pode um membro do Governo actuar contra a vontade unânime de 120 mil pessoas sob a sua tutela? A resposta é óbvia: simplesmente não pode. É esse o dilema imediato de Maria de Lurdes Rodrigues”.

Dilema que Tomás Vasques, no Hoje Há Conquilhas, acaba por resumir e tornar óbvio: “Os professores querem ser avaliados, não desta maneira, mas de outra. O problema é saber qual é a outra maneira. Pelo andar da carruagem, e porque nunca se encontrará a outra – a que agrade a gregos e troianos –, o que me parece que está em causa é a própria avaliação dos professores. O Governo, esse, vai ser avaliado por todos no próximo ano”. O rastilho está lançado – independentemente das razões e dos argumentos, é evidente que é impossível governar contra a classe profissional que se tem de tutelar: “o problema desta ministra da Educação, escreve Alfredo Barroso no blog Sorumbático, (...) é o seu profundo desprezo pelos professores, pelos sindicatos, pelos partidos políticos e pelo debate democrático. Em suma: por todos os que a contestam”. E deixa este eviso: “O engº Sócrates que se ponha a pau: (...) a intolerável prepotência política da drª Maria de Lurdes Rodrigues (...) pode estragar-lhe os cálculos eleitorais e, sobretudo, tramar o PS”.

No blog Profavaliação, esta ideia ganha força na mistura entre a ministra, o governo e José Sócrates: “Sócrates considera que o braço de ferro e o reforço da imagem de inflexível lhe devolvem os votos que os professores lhe tiraram”. Ora, escreve Pedro Morgado no Avenida Central: “Um governo responsável não pode assobiar para o lado quando uma classe inteira sai à rua para protestar. É por isso que Maria de Lurdes Rodrigues e José Sócrates, com a complacência do Presidente da República, são os principais responsáveis pelo clima gravoso que se vive na escola pública e que culminará com a sua completa degradação. (...) O afastamento da Ministra e a suspensão imediata deste modelo de avaliação são as únicas saídas possíveis para repor o normal funcionamento da escola pública ainda a tempo de a salvar. Se tal não acontecer, caberá aos professores mobilizarem e sensibilizarem a sociedade civil para a defesa da escola pública. Vergar os professores será trágico”.

A manifestação de sábado veio de novo confrontar a sociedade com uma pergunta central: reformar sistemas contra as classes profissionais que os alimentam é possível em democracia? Não sei, nem encontrei resposta nos blogues por onde andei...

publicado por PRD às 23:20
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Sexta-feira, 7 de Novembro de 2008

Blog da semana: Jacarandá

Nasceu em Junho, muito discretamente, e por ali tem crescido sem que quase se dê por ele. Se calhar deveria dizer que em Junho foi plantado, ou deu flor – pois que se chama Jacarandá, a árvore favorita do autor. E o autor do blog chama-se António Barreto – esse mesmo, o sociólogo, o politico, o amador da fotografia, o colunista do Público, também ele chegou ao mundo dos blogues justamente em o-jacaranda.blogspot.com.

Não se sabe para onde pode evoluir esta aproximação de António Barreto às novas tecnologias. Não será demais lembrar que durante anos se vangloriava de dispensar o telemóvel: não tinha e não usava. Mas um blog é um blog – e o Jacarandá de Barreto não é apenas o repositório dos seus textos, é também uma montra da sua arte fotográfica. Sob o genérico Luz, há fotografias a preto e branco legendadas com o talento do autor. Reparo nesta, de um homem em cima de uma escada a podar um arbusto:

“Tormes é uma terra virtual. É uma aldeia sonhada por Eça de Queirós em “A cidade e as serras”. O nome da ficção acabou por dar nome à terra real. Ali, a mulher de Eça tinha uma casa e uma quinta. Eça esteve lá uma única vez, não mais de dois dias, detestou o desconforto, o frio, o nevoeiro, tudo. Fugiu. A família, décadas depois, conservou a casa, arranjou-a primorosamente, ali produz vinho verde de boa qualidade. Ali estão umas recordações e umas relíquias do escritor. Quando lá cheguei, este senhor aparava a hera. Com a minúcia de uma manicura”.

E lá está a foto, que ampliada enche o ecrã do computador.

Textos dos jornais, fotografias de António Barreto, produção escrita menos conhecida ou dispersa: podem ler no blog um excelente ensaio, grande, para ler devagar, sobre os 50 anos da televisão em Portugal, originalmente escrito para uma obra comemorativa editada pela RTP. António Barreto no seu melhor: “Com mercado, concorrência e publicidade, a televisão de “alta qualidade” está praticamente condenada. Só a televisão digital ou por cabo e todas as suas potencialidades poderão salvar ou ressuscitar uma televisão de qualidade. A resolução desta contradição, entre democracia e cultura, não se anuncia para breve. Nem em Portugal, nem no resto do mundo”.

Não é ainda o diário de um homem critico, revoltado, indignado e céptico – tudo adjectivos que lhe ficam bem e de alguma forma lhe deram a fama e a glória. Não é ainda. Mas é o espaço publico de António Barreto no mundo dos blogues e só por isso merece o destaque e a escolha da minha semana. Espreitem o Jacarandá e verão que a árvore vale a pena.

publicado por PRD às 23:18
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Quinta-feira, 6 de Novembro de 2008

Eleições nos EUA (III e última...)

Quarenta e oito horas depois, as ondas de choque das eleições norte-americanas continuam a varrer o mundo dos blogues. Passando em revistas dezenas de blogues nacionais, sinto excatamente o mesmo que Luciano Amaral quando escreve no “Gato de Cheshire”: “É estranho: por uma vez toda a gente à minha volta gosta do presidente americano… Foi preciso chegar a esta idade. (...) Até estou com medo…”

Na verdade, há uma quase unanimidade em torno de Barack Obama, que não chega a ser quebrada pelos blogger mais á direita. Um bom exemplo seria João Gonçalves, do Portugal dos Pequeninos, que bem tentou mas não conseguiu mostrar o seu lado mais conservador e acabou por escrever: “Hoje é suposto o mundo ter acordado mais "porreiro". Até o José Pacheco Pereira o revela depois de uma noite de aparente insónia partilhada entre conversas de chacha com os seus amiguinhos da Quadratura e um batalhão de papagaios na América. Isto é, a realidade (...) continua o seu implacável caminho, indemne à "esperança" e a mais um "homem novo". Desde que o homem deixou de ser um macaco, tem sido sempre assim”. Vindo de onde vem, é quase um elogio, digo-vos eu...

Do lado oposto, aterro no Teatro Anatómico de Manuel Jorge Marmelo, onde a emoção é levada ao extremo: “Um homem não chora, claro. Um homem não chora diante da televisão apenas por estar emocionado com as imagens da vitória de Barack Obama. Um homem morde os lábios, engole em seco e sustém as lágrimas para que não o vejam torrencialmente feliz por estar vivo para asssistir ao dia em que um negro vence as eleições presidenciais num país que, não há muito tempo, praticava oficialmente a segregação racial e onde ainda existe uma coisa atroz, absurda, como o Ku Klux Klan. Um homem não chora nem admite que, às vezes, muito de vez em quando, ainda sonha. Um homem não chora, claro, mas, que diabo!, todos temos direito a um momento de fraqueza, a ser ridículos e lamechas, a tomar a sério uma variação actualizada daquela frase mais que batida: não esperes por aquilo que Obama pode fazer pelo mundo; pensa no que podes tu fazer para ajudar a mudá-lo”.

Agora falta apenas o futuro, como bem escreve Carlos Guimarães Pinto no Insurgente: “Obama terá um longo período de estado de graça no seu país e do Mundo. Estes são sempre os melhores períodos para tomar decisões difíceis. Esperemos que Obama gira o país com a mesma inteligência com que geriu a sua campanha”.

Uma campanha que, pelos vistos, chegou à blogoesfera portuguesa sob este manto de agrado, unanimidade, e apoio. Nunca tinha visto tal coisa por estas paragens...

publicado por PRD às 23:16
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Quarta-feira, 5 de Novembro de 2008

Eleições nos EUA (II)

O meu post preferido foi colocado às 2:50 da manhã, hora de Lisboa, sete da tarde da Califórnia. Está no blog Cinco Dias e é assinado por David Ávila, correspondente nos Estados Unidos. Diz assim:
“É hora de celebrar. Uma vez que não aceitaram a minha inscrição para voluntário da campanha democrata, nem fiz telefonemas para arrastar pessoas da cama para irem votar, a minha participação para a festa que se avizinha, no Yerba Buena Park será organizar uma claque estilo futebol europeu para animar a malta. Aceito sugestões de cânticos. Até aqui só tenho: “Como se dice? Como se llama? Obama, Obama!”  Preciso alguma coisa para a população WASP cantar (White Anglo Saxon Protestant) e talvez qualquer coisa para as mulheres, que fica sempre bem.

David Ávila”.

Um sinal da alegria democrata com a vitória de Obama nas eleições norte-americanas. Por cá, algumas notas soltas: primeiro, trabalho fraco dos blogues mais políticos, que limitaram a sua presença na net a uns posts curtos, muitas vezes redundantes em relação à informação que a TV e as noticias online iam dando. Uma excepção foi o post de Bruno Garschagen, no Insurgente, quando consegue olhar para a frente e perguntar: “Qual será o futuro do pensamento conservador? (...) Os conservadores americanos têm um imenso trabalho a fazer para recuperar anéis perdidos e curar as feridas dos dedos decepados”.

Outra nota interessante. Quem seguiu a emissão na SIC Noticias reparou que por lá estavam os comentadores da Quadratura do Circulo. Pois bem, Pacheco Pereira foi fazendo o seu Abrupto em directo e ao vivo. Chamou “messiânico” a António Costa depois desta frase do comentador-autarca: “Mesmo que a vitória venha ser estreita, podemos dizer, parafraseando Neil Armstrong : uma pequena diferença que faz uma grande diferença para toda a humanidade”. E há por lá mais pérolas da noite televisiva que vale a pena ler. Surpreendentemente, também José Saramago estava acordado e postou durante a noite eleitoral nos seus Cadernos de Saramago: “Há poucos minutos uma estação de rádio portuguesa quis saber qual seria a primeira medida de governo que eu proporia a Barack Obama no caso de ele ser (...) o novo presidente dos Estados Unidos. Fui rápido na resposta: desmontar a base militar de Guantánamo, mandar regressar os marines, deitar abaixo a vergonha que aquele campo de concentração (...) representa, virar a página e pedir desculpa a Cuba. E, de caminho, acabar com o bloqueio”. Há coisas que não mudam...

Fecho este olhar suave sobre as diversas formas de ver as eleições americanas no mundo dos blogues com uma análise ponderada e interessante de JCS no blog Lóbi: ”Esta ideia de que o mundo vai mudar com as eleições americanas é um bocado histérica. A humanidade está, aliás, muito sensível. Qualquer coisa faz mudar o mundo. O mundo muda todos os dias.(...). Independentemente de quem vai liderar os Estados Unidos nos próximos anos (...), uma coisa é certa: os Estados Unidos não vão mudar. O mundo talvez… mas isso é outra conversa”.

Pois é outra conversa, mas estes resultados, digo eu, ainda vão dar muita conversa. Real e virtual...

publicado por PRD às 23:15
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Terça-feira, 4 de Novembro de 2008

Eleições nos EUA (I)

“Aproxima-se a grande noite. 169 milhões de eleitores registados vão tentar tornar o mundo mais seguro para a Democracia e para a minha conta bancária” – é assim que Rogério Casanova, no blog Pastoral Portuguesa, introduz o tema do dia, da semana, do mês: eleições na grande América. Hoje é o dia e escolhi um conjunto de boas frases e ideias para deixar aqui á Janela. Curiosamente, todas elas fazem valer a vantagem de Obama. Como se fosse uma aposta, ou como se fosse óbvio. Vamos lá...

A saber, João Gonçalves no Portiugal dos Pequeninos: “Uma vez eleito, Obama vai dar um desgosto à esquerda patológica global porque terá de exercer a presidência dos EUA com tudo o que isso representa para o mundo e que Bush Júnior nunca soube representar. Para além disso, precisa de limpar a casa. Em suma, não ficamos mal servidos com Barack Obama. Ele é apenas o precário sumo sacerdote do tempo que passa”.

Pedro Correia, blog Corta-Fitas, recuperando o romance Mancha Humana: “Não nos deixemos iludir excessivamente pelas manchetes dos jornais, que se limitam a reflectir a espuma dos dias. Sob a América de Obama, esconde-se a América de Silk. Imóvel, dúplice, secreta, manchada pelo preconceito. Essa América ver-se-á ao espelho dentro de 24 horas. Gostará desse retrato de si própria?”

Carlos Abreu Amorim, blog Blasfémias: “A ‘Obamania’, sobretudo na Europa, ameaça converter-se num culto – o que é uma contradição a prazo. Os europeus apaixonados por Obama tendem a esquecer-se de que este é um americano impregnado de valores do seu país. Ora, muitos destes colidem com aquilo que a esquerda europeia é: colectivista, estatizante e… anti-americana”.

João Lopes, no blog Sound & Vision: “Seja qual for o resultado das eleições (...), a candidatura de Barack Obama soube devolver aos americanos a sensação de uma relação com a história em que a evidência do quotidiano mais concreto remete, em última instância, para o lugar da América no mundo. É por isso que faz sentido dizer que algo da existência de cada um de nós, não americanos, se decide no acto eleitoral (...) — porque, afinal de contas, mal ou bem, os destinos do planeta continuam a passar pela identidade da América”.

Bruno Sena Martins no blog Avatares de um desejo: “Obama que está longe de ser de esquerda, será uma realista, nacionalista, pró-israelita, defensor do Império”.

E ao fim da noite a noticia que ainda baralha mais as cartas: “A avó de Obama, a mulher que praticamente o criou, acabou de falecer. A um dia da eleição. Que abuso simbólico”. Daniel Oliveira, no Arrastão, prefere dizer que “não há nada que não aconteça a McCain”: “Depois de um furacão a lembrar o Katerina, de um vaipe de McCain que o fez escolher uma louca do Alasca para sua vice e da crise financeira, morreu a avó de Barack Obama”.

É assim, neste ambiente, que partimos para as eleições. Amanhã cá estarei com os comentários do mundo dos blogues aos resultados que vierem do outro lado do mar.

publicado por PRD às 23:13
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Segunda-feira, 3 de Novembro de 2008

PREC, parte II

O que mexeu com toda a gente foi o verbo: nacionalizar. Neste caso um banco, o BPN. Ai Jesus que isto dá para rir à esquerda, à direita e ao centro. Comecemos por uma análise séria, de Pedro Arroja, no blog Portugal Contemporâneo: ele acha que “o Governo, dadas as circunstâncias, não está a inventar a roda - o que é bom”. Mas naõ deixa de garantir que esta noticia ”marca a chegada da crise financeira ao país em toda a sua intensidade. (...) O Estado português vai ter agora de ir pedir dinheiro emprestado para dar realidade a estas medidas. E é neste ponto que vai ser testada a fragilidade relativa da economia portuguesa”.

João Gonçalves, pelo seu lado, procura responsáveis: “A supervisão pela qual Constâncio é responsável há uma pipa de anos falhou. O BPN andou "à solta" até não poder mais. Convinha, aliás, contar a sua história e perceber quem é que passou pelas cadeiras do banco desde que ele foi criado. Parte significativa do regime não vai, com certeza, gostar de ser rever ao espelho”. Bibt, no blog Papagaio falante, só quer saber uma coisa: “Quem vai pagar este prejuizo?”. Diz ele: “Para variar, o povo…”

No domínio das perguntas que ficam, há interrogações pertinentes  no Blasfémias, por LR: faz algum sentido “Confiar a regulação da Banca a banqueiros? A da Saúde a médicos? A da Educação a professores? A da Justiça a juristas? E, conhecendo-se o que se conhece, que se brade sempre por mais regulação?”

Na verdade, como recorda Mac, no blog Tudo ou Nada, “Em Outubro, o ministro das Finanças garantia que nenhum banco português estaria em perigo devido a problemas de insolvência”. Mas agora nacionaliza o BPN: “Se calhar para comemorar o Dia de Finados”.

O dia de finados ou o regresso dos heróicos anos da revolução: “Hoje é dia de PREC!”, exclama Hugo Besteiro no blog Tacada do Dia, e remata bem: “Assim não custa muito a iniciativa privada. Privatizamos os lucros e nacionalizamos as dívidas”. “Alguém se está rir”, ironiza Luís Castro no Cheiro a Pólvora: “É a primeira nacionalização em Portugal desde 1975. (...) Será impressão minha ou oiço alguém a rir à gargalhada lá do fundo da cova?!.

Quem ri? Nuno Dias da Silva, no Civilização do Espectáculo, não tem duvidas: “Vasco Gonçalves, o primeiro-ministro que foi o mentor das nacionalizações (...) depois do 25 de Abril, deve andar às voltas no túmulo, perdido de riso”.

Muito a sério, o comunista Vítor Dias, no Tempo das Cerejas, pede “a algum órgão de informação (...) que, por amor de Deus e à verdade, dedique umas três ou quatro páginas (...) a uma antologia de algumas das inumeráveis catilinárias, piadas, remoques, calúnias e mentiras que, ao longo de 33 anos foram lançadas contra as nacionalizações de 1975”.

Fernando Martins, no Cachimbo de Magritte, tem duvidas sobre a palavra a aplicar: "Nacionalização" ou "Resgate"?

Qualquer que seja a palavra, é o Estado a reentrar na economia privada e liberal. Parece mesmo que voltámos a 1975, como o Blog dos Marretas nota com graça: “Fala-se de uma rebelião nas Forças Armadas e o Governo anuncia uma nacionalização. Onde que eu já vi isto?”

publicado por PRD às 23:10
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Estes textos são escritos para serem “falados”, ou “lidos”, pelo que não só têm algumas marca de oralidade (evidentemente, propositadas...) como é meu hábito improvisar um pouco “em cima deles” no momento em que gravo a rubrica. Também é relevante dizer que, dado tratar-se de uma “revista de blog’s” – e uma vez que os blog’s não se preocupam com a oralidade ou com a eventual citação lida dos seus textos -, tomo a liberdade de editar minimamente os textos que selecciono. Faço-o apenas para que, em rádio, não se perca a ideia do blogger pelo facto de escrever frases longas e muito entrecortadas. Da mesma forma, não reproduzo palavrões nem frases pessoalmente ofensivas, assim como evito acusações cuja possibilidade de prova é diminuta ou inexistente. Sendo uma humilde crónica de rádio, tinha ainda assim de ter alguns princípios. São estes. Quem tiver razão de queixa, não hesite!

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