Terça-feira, 16 de Setembro de 2008

O fenómeno Palin

Ora vamos lá olhar para miss Sarah Palin, candidata a vice nas eleições americanas. Desde que o seu nome foi anunciado, e a sua existência revista, o mundo dos blogues vive obcecado por esta mulher. O debate politico do momento passa por ela e pelo que pensa dela certa esquerda, certa direita. Vamos em frente, entremos pelo blog Corta-fitas através de Teresa Ribeiro: “Se fosse feia e tivesse mais dez anos (...), se ao lado de McCain não parecesse ainda uma menina (...), nesta recta final das eleições americanas McCain já estaria arrumado”. No mesmo blog, Pedro Correia socorre-se de Camille Paglia, “talvez a mais célebre feminista americana”, para deixar interrogações no ar: "Talvez estejamos a ver a primeira mulher Presidente [dos EUA]. Como democrata, ainda estou em estado de choque. O dela foi o melhor discurso que já escutei de uma política americana." Um depoimento insuspeito”, diz Pedro Correia.

No blog Gato do Cheshire encontro Luciano Amaral: “Sarah Palin é apresentada pelos seus inúmeros críticos alternadamente como uma idiota sem remissão ou então como uma criatura cuja perfídia e capacidade política só podem ter características extra-humanas. (...) Apesar de tudo, a tese da imbecilidade não deve ser verdadeira. Porque se o fosse”, Barack Obama não seria hoje, escreve Amaral, “um gajo à rasca para subir nas sondagens”.

Henrique Burnay, no 31 da Armada diz que, “por muito que a esquerda tente, a imagem de uma Sarah Palin cavernícola e de crucifixo na mão não colhe. Palin foi escolhida por ser e representar as mulheres que trabalham, são mães de família, enfrentam combates e são conservadoras. Há muitas”.

Responde-lhe Ana Gomes, no blog Causa Nossa, depois de lhe chamar a “lasca do Alasca”: “Cheirou-me logo que a "babe" do Alasca ia sair pela culatra aos republicanos - o mulherio que votou Hillary Clinton jamais se deixará seduzir por uma dama que está nos seus antípodas ideológicos, sendo obscenamente pró-armas e anti-aborto”.

Irónico, Manuel Jorge Marmelo no Teatro Anatómico vê em Palin: um “cruzamento de Donas de Casa Desesperadas, O Amor no Alasca e personagem marota de certos filmes pornográficos”

Do outro lado da barreira, Bruno Gonçalves no Atlântico: “Palin representa a tradição maverick de McCain”. Afonso Azevedo Neves, no Grande Alface, nota que a esquerda vê em Obama qualidades que, por outro lado, em Palin se transformam em defeitos: a inexperiência, a ignorancia, até os sermões do seu pastor. Em Obama é vantagem, em Palin passam a “sinal do fim dos tempos”.

E andamos assim, com a candidata republicana como paradigma do debate entre esquerda e direita. Fecho a ronda com a descoberta do antigo jornalista José Paulo Fafe, agora também em blog. Para mostrar onde anda o bom jornalismo e como “é fácil escrever pouco e dizer muito”, cita um parágrafo da revista Veja sobre a candidata: "Sarah Palin pode ter silhueta de bonequinha de luxo, mas, no seu primeiro discurso ao país, ela mostrou que morde feito um pit bull de batom". Imagem certeira, sem dúvida...

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Segunda-feira, 15 de Setembro de 2008

Madonna por um canudo

Para 75 mil portugueses, hoje é dia de ressaca do concerto de Madonna – talvez por isso, nos blogues não encontro muitas opiniões sobre o concerto, a não ser para criticar...

No Corta-Fitas encontro um post de Luis Naves, contra a cantora: “ Madonna excita o país. Não gosto da cantora, não percebo o interesse pelas suas canções banais. Não é boa actriz nem canta bem. O fenómeno é, para mim, incompreensível. Há quem fale na transgressão, mas vejo toneladas de marketing e de make-up. (...) Sempre achei que cada um se diverte como achar melhor, mas este gosto triunfal abafa os outros, pois a cultura transformou-se num mercado. O mercado devia ser onde se compram as batatas”.

No mesmo blog, Cristina Ferreira de Almeida gosta de Madonna e foi ao concerto. Mas não gostou: “O nome do parque (Belavista) só pode ser irónico. Pareceu-me que Madonna estava loira mas não posso jurar, pode ser efeito dos gazes tóxicos do caixote do lixo contra o qual fiquei esmagada, a um quilómetro do palco”. Queixa semelhante encontro no blog Palpitar: “Eu vi Madonna. Era um traço negro com um ponto amarelo em cima. Madonna vestida de preto com o seu cabelo louro. Eu vi, melhor, julgo ter visto Madonna no Parque da Bela Vista. A 15 quilómetros do palco. Os écrans pareciam-me mais pequenos que a minha televisão de casa. (...) Paguei 60 euros. Por este preço e nestas condições bem que me poderiam ter oferecido uns binóculos”.

Patrícia, no Electricidade Estática, prefere sublinhar a boa forma da cantora: “Quero chegar aos 50 com 1/10 daquela forma. E 1/10 daqueles músculos. E daquela energia. 1/10 do dinheiro já seria pedir demais... mas também pode ser!”

No blog Yé-Yé, critica-se o espaço e o concerto: “Nunca vi um local tão inadequado e tão perigoso para um concerto como o Parque da "Má" Vista, em Lisboa! Como é possível? O espectáculo de Madonna foi outra seca. Uma canção que durou duas horas, com desafinanços pelo meio. Devo ter conhecido uma ou outra música. Até "La Isla Bonita" estava completamente desfigurada”.

Eu por acaso estive lá no Parque da Belavista e gostei do espectáculo, mas aqui conta a opinião dos bloggers e fecho com mais um, Pedro Picoito, no regressado Cachimbo de Magritte: “Madonna esteve (...) a cantar a um quilómetro de minha casa. Graças a Deus e à orografia respeitável do Vale de Chelas, não ouvi nada. Digo-o porque não gosto da Madonna. Não é tão gira como a Sarah Palin, não caça ursos como a Sarah Palin (...) e talvez nem seja republicana como a Sarah Palin. Tirando isso, não tenho opinião sobre ela.”. Ora bem: Madonna existe mas no mundo dos blogues só se fala de Sarah Palin. É a mais recente obsessão da blogoesfera e está em debate por todo o lado. A música não deu polémica, dá a politica americana. Amanhã, amanhã vou apurar essa paixão como deve de ser...

publicado por PRD às 19:11
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Sexta-feira, 12 de Setembro de 2008

Blog da semana: Bomba Inteligente

O fim de semana que chega é dominado por um nome: Madonna. Fez 50 anos há menos de um mês, mas a cantora, compositora, dançarina, também actriz, até mesmo autora de livros infentis, não se deixa intimidar pela idade...

E aos 50 anos faz mais uma tournée mundial, com a sua carga erótica e a sua batida fortíssima. A tournée passa por Lisboa no próximo domingo, no Parque da Bela Vista, e os 70 mil bilhetes postos á venda voaram em menos de nada.

Ora bem: quis escolher para blog da semana algum que pudesse ter ligação directa a Madonna.

Por todo o globo, os admiradores da cantora alimentam centenas de blogues – mas em Portugal, pasme-se, não encontrei um só... Lembrei-me então de escolher para blog da semana um dos mais antigos da blogoesfera nacional, eu diria mesmo que é um clássico, e cuja autora é fã confessa da "Material Girl".

Carla Hilário Quevedo é a Bomba-Inteligente, blog que abriu portas em Abril de 2003, ou seja, há mais de cinco anos. E abriu bem, com a seguinte frase: “As bombas inteligentes não são estúpidas; são bombas que aprendem”, aparentemente uma frase de Colin Powell.

Pois bem: ao longo destes mais de cinco anos, a Carla desenvolveu um blog pessoal muito especifico: é o reflexo da autora, dos seus gostos, das suas obsessões, amores e ódios, mas é também uma placa giratória permanente de informação – seja no diálogo com outros blogues, e a Carla conhece centenas deles, seja nas ligações que faz com as colunas que assina no jornal Sol e no diário Meia-Hora.

Se no começo o blog vivia mais de texto, hoje vive mais de imagem, musica, clips. E Madonna tem lugar cativo: uma busca no motor do próprio blog descobre 93 referências a Madonna, na maioria dos casos vídeos e fotografias.

Carla inventou a rubrica “Eu Hoje Acordei Assim”, onde coloca fotografias de grandes mulheres que pelos vistos a inspiram em cada momento – e Madonna, claro, aparece diversas vezes, mesmo quando a bloger questiona o penteado ou a roupa.

No universo dos blogues nacionais, e naquilo que de mais puro um blog pode ter e ser, o Bomba Inteligente, que pode encontrar em bomba-inteligente.blogs.sapo.pt, merecia sempre ser um destaque desta Janela – aí fica então sob o pretexto Madonna, mas obviamente sem precisar de qualquer pretexto. Vale por si – neste caso, vale pela Carla Hilário Quevedo...

publicado por PRD às 18:44
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Quinta-feira, 11 de Setembro de 2008

Na América

11 de Setembro é sempre dia com marca – como se fosse obrigatório recordar, reviver, voltar à ferida de 2001.

Acho que não é – e aqui, na Janela Indiscreta, fui observar os portugueses que andam pelos Estados Unidos da América, felizes da vida, cumprindo os seus mares, os seus amores. Regresso assim ao blog Mind This Gap, um trabalho excelente, já aqui elogiado, que vive de experiências e exemplos de portugueses que decidiram ir pelo mundo fora, não como emigrantes em crise, mas como jovens à procura de mundo. Lá encontro histórias de sucesso na América:

Maria Correia, Bióloga, em Baltimore:

"Cá" tenho a novidade, tenho o sonhos, tenho a descoberta, tenho a felicidade de viver um dia de cada vez, tenho o sabor de vitoria a cada dia que passa e que vejo o sucesso no que faço. Não tenho os amigos de sempre (...) mas tenho os amigos que fiz cá, tenho aqueles que me acompanham dia após dia nesta aventura, aqueles que entretanto se tornam Amigos, e sobretudo aprendi que nem todos precisamos de ser iguais para sermos amigos! Não digo que seja uma amizade melhor nem pior, é sem duvida uma amizade diferente, somos diferentes mas estamos no mesmo barco e basta isso para o sentimento de união nascer”.

Cláudia Maia, Relações Internacionais, Nova Iorque:

“Nem tudo é aventura, prazer, glamour internacional! Na minha experiência pessoal, há um factor que não podemos ignorar, porque nos vai desassossegar, fazer sentir divididos, forçar a (re)considerar as nossas opções. É o factor 'saudade' ... saudades da família, saudades dos amigos, saudades dos percursos que se faziam (...) O factor 'saudade' alimenta viciosamente o factor 'dualidade', o dilema da dúvida e da incerteza ... (...) Mas não quero atormentar-vos com os factores 'saudade' e 'dualidade' ... Avancem sem medos, partam à aventura, e enriqueçam Portugal com as vossas experiências!”.

Para fechar, Maria Neiva, Arquitecta, Nova Iorque:

“Não tenho nada a perder, foi o que pensei quando decidi sair de Portugal. É sempre difícil deixar alguma coisa para trás, mas mais difícil foi perceber que não havia propriamente nada para deixar. Porque a família e amigos, neste tipo de situação, não se deixam. E a minha vida era como a da maior parte dos meus amigos, na corda bamba. Sem saber se dali a um mês perdíamos o emprego, se perdíamos o arrendamento jovem, quase a perdermos o tino. (...) Fui à procura de uma estabilidade financeira. E encontrei-a. Fui tambem a procura de outras riquezas, daquelas que só encontramos quando vivemos num país que não é o nosso, quando lidamos diariamente com pessoas de outras origens e quando falamos outros idiomas”.

Nova Iorque é sem duvida a capital das capitais, a cidade de todos e ninguém. Neste dia 11 que recorda sempre um dia 11 triste e escuro, procurei palavras globais, felizes, portuguesas, de um mundo de todos, ainda assim em Nova Iorque. A roda não para, felizmente.

publicado por PRD às 18:42
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Quarta-feira, 10 de Setembro de 2008

Feminino & masculino

E hoje para algo diferente: sempre que se fala de escrita, na literatura, é recorrente o debate sobre a ideia de “escrita feminina”. Nunca se chega a conclusões, mas parece haver uma ideia pelo menos feminina da escrita.

O mundo dos blogues é, nessa matéria, mais aberto: tão livre, tão pouco ou nada controlado, permite uma observação mais aberta, sem o filtro da audiência, do comércio ou do trabalho editorial.

Nessa medida, dei-me ao trabalho de estudar os melhores blogues nacionais assinados por mulheres. E sem querer fazer aqui um ranking, quis no entanto perceber se havia algo de feminino que os unisse.

Más noticias: não há nada que os una. Os melhores blogues de mulheres são apenas os mais imaginativos, os mais bem escritos, os mais criativos. Seja uma Rita Silvério, a famosa Rititi, que acabou de ser mãe e escreve de uma forma que é a um tempo feminina e masculina: “A maternidade tira-nos todas as certezas, e maluca da gaja que disser o contrário. Que se desenganem as patetas, ser mãe não nos dá direito a escrever sobre nós em maiúsculas, mas claro, gente doida há em todo o lado”.

Mas se for para outro lado, descubro que os melhores blogues sobre gastronomia e cozinha são assinados por homens – e que nos blogues mistos, de grupo, com homens e mulheres, é frequente serem eles os femininos da coisa, e elas os atiradores furtivos.

O que o mundo dos blogues revela é, na maioria dos casos, talento a rodos para a escrita. Como esta M. no blog Borboletas na Barriga:

“Os dias não são todos iguais e tenho dentro uma revolução em curso, tenho coisas para dizer mas não ouso dizê-las, sinto-me vacilar. Preciso de violência, de me esquecer do que sinto, de me afogar em esquecimento. Divido-me entre a varanda e o sofá, ensaio os passos junto à parede, preparo-me para sacudir as coisas belas. Sinto-me urgente, envenenada pela minha própria vontade, traída pela minha absurda capacidade de acreditar. Quero a cabeça cheia de ruído e o coração arrumado”. Feminino ou masculino?

“Amar não é um compromisso, é uma consequência”. Feminino ou masculino? Encontrei no blog “Bem haja”, é feminino mas o que neste jogo de sol e sombras de que é feita a blogoesfera, em que cada um pode criar o seu personagem e escolher o género, o sexo, a condição, bom, dizia, neste universo é difícil dizer mais do que isto: há boa escrita. Muito boa. De homens e mulheres e gente que não sabemos a que sexo pertence. Fecho este olhar fora do comum, e fora da corrente e da torrente dos dias, com Margot, que presumo ser do sexo feminino, no blog Folhos e Confetis, citando Virginia Woolf:

 “A sua simplicidade aprofundava aquilo que os inteligentes falsificavam. A simplicidade de espírito de que era dotada fazia com que tombasse a prumo como uma pedra, pousasse exacta como um pássaro, conferia-lhe naturalmente essa descida, essa queda do espírito sobre a verdade, que encantava, suavizava, sustinha – talvez em vão”.... Talvez em vão.

publicado por PRD às 18:40
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Terça-feira, 9 de Setembro de 2008

Coches em andamento

Desde Agosto que a polémica anda pelo mundo dos blogues, mas agora em Setembro, com o regresso à vida normal, parece que o tema acordou. O tema é a localização do novo Museu dos Coches. Há uma petição online a correr contra o novo edifício, petição onde se diz que “O Museu Nacional dos Coches é um dos museus mais visitados de Portugal e o mais visitado da cidade de Lisboa e aos visitantes portugueses e estrangeiros não é indiferente a dignidade e o ambiente que lhe conferem a qualidade do espaço actual.”

Pede-se ao Presidente da Republica que interfira no sentido de travar o processo, reabrir o debate, e quem sabe usar o dinheiro do novo edifício para outras obras públicas mais úteis à nação.

Paulo Ferrero explica porquê no blog “Carmo e a Trindade”: “Pode parecer petição a mais mas não é. (...) Porquê? Porque nunca chegou a haver qualquer debate sobre a necessidade em se fazer um novo museu dos coches, (...). Porque se está a esconder deliberadamente uma série de pareceres, de finais de 90, (...) que dizem claramente não ao regresso do picadeiro e da escola equestre ao edifício do actual museu”. Essa mesma explicação aparece no blog Cidadania Lx onde se pode ler que a opção pelo novo Museu é “errada, irresponsável e contraproducente”, além de um “desperdício de dinheiros”. O Fórum Cidadania LX usou blog e jornal para alimentar o debate:

“A popularidade (do museu) resulta da localização, dos coches (...) e do próprio edifício do antigo Picadeiro Real. O que nos leva a questionar os porquês e consequências de um novo museu, a construir nas Oficinas Gerais de Material do Exército, a nem 50 metros do actual museu, onde está agora o Instituto Português de Arqueologia, que será desalojado”.

No blog com o seu nome, o Arquitecto Luís Marques da Silva evita criticar o “aspecto formal do edifício”, e escreve: “o que interessa são os coches e não o museu; eu entendo que a monumentalidade da colecção, merece um espaço mais tratado e adequado, não deixando os coches por ali espalhados, numa lógica de ultra racionalismo: O tratamento a dar a uma colecção deste género, não pode ser o mesmo que se dá á colecção Berardo no CCB!”.

Com alguma graça, o autor do blog Bic Laranja escreve: “Mudar o museu dos coches para a esquina do outro lado da rua faz-me lembrar aquele estudante de engenharia que se transferiu duma universidade pública para uma particular (...) porque ficava ali perto, entre outras razões...”.

Em Agosto a polémica passou quase despercebida, mas este mês ela promete voltar. Uma vez mais, é pelo mundo dos blogues que ela vai circulando, à espera que o debate se alargue e de uma vez por todas se perceba onde vamos, no futuro, ver os coches da nossa História.

publicado por PRD às 18:38
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Segunda-feira, 8 de Setembro de 2008

Regresso às aulas...

Se pudéssemos medir o pulsar da blogoesfera, certamente esta semana esse electrocardiograma ia agitar-se muito num conjunto vasto de blogues... quais? Bom, os que se dedicam à educação e ao ensino. Estamos na semana do regresso às aulas e já se agitam as bandeiras – porque na verdade, professores e especialistas que abrem blogues para debater educação, em geral, são contra. Contra a ministra, contra a politica. Repare-se, por exemplo, que um dos blogues mais activos tem o o significativo nome de “A Sinistra Ministra” – nome infeliz para um blog onde a linguagem desce a um nível nem sempre pedagógico...

Por essa blogoesfera fora, critica é a palavra-chave, mas nem sempre nesse tom de rua: “O “annus horribilis” está prestes a iniciar-se”, escreve Karadas no blog Cantinho da Educação: “Se o anterior ano lectivo já foi tenebroso para os professores, este promete ser ainda pior: aumento do trabalho burocrático com a consequente desvalorização do acto de ensinar; novo processo de avaliação de desempenho que irá criar um clima de terror em muitas escolas (...). A acrescer a tudo isto (...), dois terços dos professores estarão impossibilitados de aceder ao topo da carreira, ficando fortemente penalizados em termos salariais. Saber que no final da carreira auferirão um salário de 280 contos (...) é algo de “profundamente motivador” para se exercer tão exigente profissão. Se conhecerem alguma profissão tão desconsiderada e desprezada como esta avisem que eu de facto não consigo descortinar nenhuma”.

Todos os anos se repetem queixas, lamentos, desmoralização. Este ano ficaram 40 mil professores por colocar, a classe protestou, José Sócrates respondeu que “O tempo das facilidades acabou”, o que levou Paulo Guinote, do blog Educação do Meu Umbigo, a perguntar: “Mas Quantos Professores Tiraram O Curso Na Independente?”. E depois mais a sério: “Uma coisa é procurar justificar uma racionalização dos meios humanos, mesmo que com argumentos estritamente economicistas, outra ser desnecessariamente acintoso”. É claro que o secretário-geral da FENPROF, Mário Nogueira, aproveitou a maré para, como conta o blog Jumento, “desvalorizar as medidas positivas no sector face ao desemprego, (...) a defesa corporativa leva-o a considerar que o primeiro objectivo das escolas é empregar professores. Mas, escreve no blog, dizer que há precariedade no sector é um abuso, há muito que há professores no desemprego e tal acusação nunca foi feita. A não ser que Mário Nogueira considere que o Estado e os contribuintes devem pagar a professores para os quais não há alunos”.

Fecho este primeiro olhar sobre o regresso ás aulas com humor. No blog Eduquês, sobre 30 anos de diferenças na escola portuguesa:

“Situação: O Carlos e o Quim trocam uns socos no fim das aulas:
Ano 1978: Os companheiros animam a luta, o Carlos ganha. Dão as mãos e acabam por ir juntos jogar matrecos.
Ano 2008: A escola é encerrada. A SIC proclama o mês anti-violência escolar, O Jornal de Notícias faz uma capa inteira dedicada ao tema, e a TVI insiste em colocar Moura-Guedes à porta da escola a apresentar o telejornal, mesmo debaixo de chuva”.

Vamos ver se assim será, a coisa ainda agora começou...

publicado por PRD às 18:36
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Sexta-feira, 5 de Setembro de 2008

Blog da semana: Ponto Media

O mundo da comunicação está em plena revolução – e ninguém sabe muito bem onde irá parar. A plataforma blog contribui para essa mudança, alimentando debates que os meios clássicos não promovem, revelando novos autores que de outra forma jamais sairiam do anonimato, e contribuindo ela própria para a conversa alargada sobre o futuro dos media e do jornalismo.

Há evidentemente, um conjunto generoso de blogues que reflecte sobre comunicação social e jornalismo, muitos deles ligados aos cursos académicos. Neste domínio, no entanto, é incontornável, para quem se interessa pelo tema, visitar regularmente o blog do jornalista António Granado, Ponto Media, que se encontra em ciberjornalismo.com/pontomedia.

Para começar, é um dos mais antigos blogues do panorama nacional: os primeiros textos que ali se encontram datam de Janeiro de 2001. Então, como hoje, Ponto Media assume-se como “Weblog sobre media em português. Com ligações para artigos interessantes e para estórias de jornalismo e jornalistas. De segunda a sexta”.

Literalmente: todos os dias há pequenos posts, às vezes de duas linhas apenas, chamando a atenção para um artigo num jornal estrangeiro, um novo livro, um vídeo, uma polémica que nasça, a cobertura jornalística de um evento relevante.

Como se estivéssemos perante um (bom) big brother, aqui monitoriza-se todo o planeta, e chegam links para textos e blogue e noticias de toda a parte. É riquíssimo em informação, não muito marcado pela opinião do autor, embora naturalmente haja uma escolha de temas.

António Granado já pertenceu à direcção do Público, neste momento é chefe de redacção, doutorado em estudos de comunicação no Reino Unido, tem livros publicados sobre estas temáticas, assistente convidado da Universidade Nova de Lisboa, justamente no Departamento de Ciências da Comunicação.

Ponto Media é então a minha escolha da semana – uma escolha que interessa não apenas a quem vive da informação e do jornalismo, mas a quem quer perceber melhor como funciona este universo e que futuros lhe estão a ser desenhados um pouco por todo o lado. A revolução está em marcha, mais do que um ponto, estamos no domínio das reticências, mesmo dando razão a Jeff Jarvis numa entrevista que reli no blog e onde se diz: “O jornalismo é pessoas à procura de coisas que precisam de saber”. Nem mais...

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Quinta-feira, 4 de Setembro de 2008

ASAE "ataca" na AR

E hoje é mais para rir – pelo menos julgo que ninguém terá deixado de sorrir com a notícia que dizia que a ASAE tinha fechado, enfim, o refeitório do Parlamento...

Primeiro, a gente ri. Depois o mundo dos blogues comenta... “Com que então tínhamos um caso de “Em casa de ferreiro, espeto de pau”?”, pergunta o Blog Ondas 3. Vem de seguida o “Ensaio Geral” e remata: “Sim, está bem, mas o que a ASAE havia de ver era o estado em que está a Assembleia”. Pinto Ribeiro, no blog Suck and Smile, carrega mais ainda na ironia e pede à ASAE trabalho afincado na assembleia: “Pena os verdadeiros ratos não poderem ser exterminados”, conclui. Anakin, no Anis’blog, redobra o olhar critico: ”Ao que parece a cantina do parlamento estava ao nível dos deputados ... de rastos” Mas acaba por aceitar o que se passou: “A ASAE presta um serviço público muito importante ao fiscalizar os estabelecimentos (...) defendendo os interesses dos clientes. (...) Se todos nós somos fiscalizados, porque não o próprio governo?”

Mais sério e rigoroso, lendo a noticia com atenção, Tomás Vasques olha o tema de outra perspectiva no seu “Hoje Há Conquilhas”: “A ASAE, quando fiscaliza um restaurante ou qualquer outra casa de «comes e bebes» e detecta «desconformidades com a lei», determina o encerramento imediato até à vistoria que confirme que foram realizadas as obras propostas. O restaurante da Assembleia da República encerra agora, por dois meses, como resultado de uma acção inspectiva da ASAE realizada há dois anos. Não se entende a diferença de critérios, nem os deputados são menos dignos do que os demais cidadãos para que sejam obrigados a almoços confeccionados sem observância das regras de higiene. A lei quando nasce é para todos”.

Por isso mesmo, JN no “Notas ao Café” escreve: “Qualquer outro restaurante ou afim seria de imediato encerrado para a protecção do cliente, mas o do parlamento não o foi. Podia-se até pensar que a ASAE não considera todos os cidadão iguais perante a Lei, mas tal não deve ser o caso; afinal a dualidade de critérios perante a lei é inaceitável”. Leio ainda Jorge Ferreira no Tomar Partido: “O refeitório do Parlamento vai fechar na sequência de recomendações feitas pela ASAE há dois anos. Ora aí está uma tolerância que todos os restaurantes gostariam de ter por parte da ASAE: dois anos para corrigir as deficiências detectadas. Mas não. Quando são particulares com falhas a ASAE fecha o estabelecimento e pronto. Ou seja: a ASAE é um festival de violações do artigo 13º da Constituição que diz que todos os cidadãos são iguais perante a lei”. As perguntas ficam no ar...

Na verdade, toda esta conversa acaba por dar razão a Waldorf no Blog dos Marretas, que chama a esta acção de Asae uma “Oportunidade Perdida”: “Fechavam toda a Assembleia e a imagem pública da ASAE melhorava imediatamente”.

publicado por PRD às 19:30
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Quarta-feira, 3 de Setembro de 2008

Pedroso & A Justiça

Notícia do dia foi sem duvida a vitória de Paulo Pedroso no processo que moveu contra o Estado Português. O mundo dos blogues comentou esta prisão abusiva e este erro grosseiro do juiz Rui Teixeira. Excelente e rigoroso, o post de João Gonçalves: “O dr Paulo Pedroso foi alvo de um dos maiores assassinatos de carácter de que há memória. Foi exibido ao país como uma "presa" fácil num safari exótico. Sofreu, de imediato, a "presunção" de culpado numa absurda inversão dos princípios que aprendemos nas universidades de direito. Esse lance infeliz da administração da justiça custou-lhe quatro meses e meio de cadeia e um "julgamento" alarve na praça pública. (...) A justiça deu-lhe, aqui, razão e o Estado foi condenado numa indemnização. Parece que o mesmo Estado, através do Ministério Público, vai recorrer. É, também, um direito seu. Convinha (...) que a justiça fosse mais prudente, mais eficaz e, sobretudo, menos espectacular e tagarela”.

Tão tagarela como bem recorda Miguel Marujo no Cibertulia: “Quem leu a acusação percebia que o Zé da Tia Anica podia ser tão acusado como Paulo Pedroso (...)... Enfim, um mar de erros grosseiros, que não retiram o ónus que Paulo Pedroso carregará”. António de Almeida, no blog Direito de Opinião, bem o confirma: “É francamente mais fácil obter uma absolvição na Justiça, do que na opinião pública, (...) onde o político há muito que foi condenado, e provavelmente nunca voltará a ver totalmente reposto o seu direito ao bom nome”. José Carlos Guinote, no blog Pedra do Homem, alarga mesmo a análise ao efeito cabala: “Sempre pensei que o processo Casa Pia cumpriu objectivos político-partidários muito concretos. Tratou-se de decapitar a direcção socialista de então, liderada por Ferro Rodrigues. A luta contra a pedofilia é outra coisa (...). Espero que o processo tenha ao menos permitido minorar o sofrimento de algumas das vítimas e ajudar a prevenir outros crimes”.

Manuel Jorge Marmelo, no Teatro Anatómico, levanta a dúvida sobre o facto de Paulo Pedroso ser figura publica e bem defendida: “Suponho que, todos os anos, milhares de portugueses sejam detidos ilegalmente, mas que muito poucos tenham o poder e o dinheiro necessários para conseguirem ser libertados, primeiro, e, depois, para fazerem o Estado pagar pelos erros que a Justiça comete. Ou seja: sendo supostamente cega, a Justiça tem o hábito maroto de, em certos casos, espreitar por baixo da venda como as crianças batoteiras quando jogam à cabra cega”.

No fim deste dia de tantas opiniões e ideias, registo esta, mais sensata e pensada, de JCS no blog Lóbi: “Paulo Pedroso é a primeira vítima de pedofilia a receber uma indemnização do Estado. As outras vítimas – as que sofreram abusos sexuais – continuam à espera. Mas isso não impede Paulo Pedroso de dizer, com todo o descaramento, que esta decisão reforça a confiança na Justiça. Pode alguém dizer, sobre o processo Casa Pia, que alguma coisa reforça a confiança na Justiça? Ou isto era uma luta e Paulo Pedroso entende que ganhou ou então não, não pode”. Mais nada a dizer por agora.

publicado por PRD às 19:28
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Estes textos são escritos para serem “falados”, ou “lidos”, pelo que não só têm algumas marca de oralidade (evidentemente, propositadas...) como é meu hábito improvisar um pouco “em cima deles” no momento em que gravo a rubrica. Também é relevante dizer que, dado tratar-se de uma “revista de blog’s” – e uma vez que os blog’s não se preocupam com a oralidade ou com a eventual citação lida dos seus textos -, tomo a liberdade de editar minimamente os textos que selecciono. Faço-o apenas para que, em rádio, não se perca a ideia do blogger pelo facto de escrever frases longas e muito entrecortadas. Da mesma forma, não reproduzo palavrões nem frases pessoalmente ofensivas, assim como evito acusações cuja possibilidade de prova é diminuta ou inexistente. Sendo uma humilde crónica de rádio, tinha ainda assim de ter alguns princípios. São estes. Quem tiver razão de queixa, não hesite!

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