Quinta-feira, 17 de Julho de 2008

Pagar cara a crise

 

Discutiu-se o estado da nação há exactamente oito dias, só não se sabia do seu efectivo e real estado. Veio Vítor Constâncio e o Banco de Portugal e descobrimos, como escreve André Abrantes Amaral no Insurgente, que “A crise está aí e o Eng. Sócrates vai-se ver aflito para aguentar o barco até às eleições de 2009. (...) A pergunta que fica é saber qual a receita, depois do falhanço desta, que o primeiro-ministro vai apresentar para merecer o segundo mandato”.

Bom, aparentemente as sondagens continuam do lado do PS, como nota Pedro Correia no Corta-Fitas: “Crise? Que crise? O PS de Sócrates, (...) recupera um ponto percentual. Longe da maioria absoluta, é certo. Mas oito pontos acima do "novo" PSD”. A ver as coisas como Jorge Ferreira, no Tomar Partido, estes números vão mudar: “Só o Governo persistia em não ver. Só o Governo insistia em fingir. Só o Governo é o responsável por termos acordado tarde e más horas para a crise que todos percebiam. Portugal vai pagar caro duas vezes: vai pagar caro pela crise em si mesma e vai pagar caro pela demora do Governo em agir”. Vítor Constâncio deu as más noticias e falou. Rui Costa Pinto, no Mais actual acha que o governador “continua a sua 'missão' de ajudar o governo socialista”. E explica: “Depois das contas públicas, apresentadas depois do debate do Estado da Nação, em versão cor-de-rosa pálido, chegou a vez de relançar a questão do nuclear. (...) Estas elites estão como o país: de rastos”. Paulo Pinto de Mascarenhas junta os jornalistas à elites: “José Sócrates tem um trunfo indiscutível a seu favor: os jornalistas e os comentadores, tal como os bloggers,  sentem a crise na pele e, como outros portugueses, preferem o mal que têm à alternativa que desconhecem. É curioso verificar como a maioria continua a levar Sócrates aos ombros até 2009”.

É no meio desta debate em ambiente de depressão que encontro um longo post de Pacheco Pereira no Abrupto:

«"Crise" é a palavra que mais se ouve por estes dias. As análises e os vaticínios mais negros quanto à dimensão da "crise" são o pão-nosso de cada dia. Quem nos ouve fica com a impressão de que o mundo caiu num buraco monumental, de que não se consegue sair, e com o mundo todos nós atrás. E, no entanto, não é verdade. O mundo não está em "crise". Somo nós, países industrializados ocidentais, na Europa e nos EUA, que estamos em "crise", não é o mundo. Bem pelo contrário, o mundo está bem e recomenda-se».

Pacheco desenvolve outro raciocionio, outra forma de pensar: “Na actual "crise" estamos nós a perder, mas muito mais gente a ganhar e por isso convinha dobrar a língua quando falamos de crise. A nossa lamentação sobe aos céus, mas para muitos milhões de homens são palmas que se ouvem. A vida é cruel, como todos sabemos”.

E em tempos de crise do lado de cá, e florescimento do lado de lá, este pensamento de Pacheco Pereira merece uma visita ao Abrupto para uma leitura atenta. E para que o debate sobre a economia não fique, como de costume, pela espuma dos dias...

publicado por PRD às 19:39
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Quarta-feira, 16 de Julho de 2008

Visto do Porto

 

E hoje para algo diferente: às vezes, um blog também serve para termos noticias, ou sabermos por onde andam, o que fazem, o que escrevem pessoas que admiramos, conhecemos, respeitamos.

Exemplo: Manuel Jorge Marmelo é escritor, jornalista, obviamente do Porto. Já várias vezes o citei nesta Janela, dado ser também um bom observador do país e dos seus dramas e fatalidades.

Bom, ao ler hoje o blog dele, Teatro Anatómico, deixei-me embrenhar por um texto que começava assim:

“Pensamos com palavras e comunicamos com palavras. Talvez por isso, poucas coisas vendam tão bem uma cidade como uma frase de efeito. Nova Iorque é a que nunca dorme, Roma é a eterna e Paris a cidade-luz. Não há quem ignore que o Rio de Janeiro é maravilhoso mesmo sem lá ter ido jamais. Pois bem. Se tivesse o poder de escolher umas poucas de palavras que pudessem ajudar a vender o Porto, creio que copiaria uma que o catalão Enrique Vila-Matas escreveu no romance “A Viagem Vertical”: o Porto é diferente de tudo.
Vila-Matas, sabê-lo-ão vocês tão bem como eu, ou até melhor do que eu, é um exagerado. O Porto talvez não seja diferente de tudo, nem a Livraria Lello, da Rua das Carmelitas, a mais bonita do mundo. Será uma das mais fascinantes e belas livrarias do mundo, mas, para ser tão categórico como o catalão, teríamos que conhecer todas as livrarias do planeta, coisa que sinceramente não parece ser possível. E quando Mayol, o personagem barcelonês que vem ao Porto podendo ter escolhido ir a Paris, diz que só aqui viu o mar a sério, com as ondas avançando até à orla em “malévolos clarões”, “reluzentes como se fossem de vidro, tensas como cobras”, é absolutamente preciso que não nos deixemos ludibriar. É muito possível ver o mar a sério noutras cidades e noutras paragens — mas não, talvez, este mar grosso e batido pelo vento Norte, engolfando-se em ondas lentas que se vêm desfazer sob o deck que serve de esplanada na Praia dos Ingleses”.

Ponto primeiro: uma pessoa lê um texto assim e fica agarrado e vai até ao fim, precisava de mais 4 ou 5 minutos para acabar de o ler aqui.

Ponto segundo: uma pessoa lê um texto assim e sente orgulho em quem o escreveu e o publicou num blog.

Só que, lá está, a notícia é outra: este texto, na sua versão completa, saiu no suplemento de viagens do jornal espanhol El Pais e se não fosse o blog de Manuel Jorge Marmelo, autor, talvez nunca o conhecesse. E vale a pena ler. Quer se goste ou não do Porto.

É verdade que o tempo é de Verão – mas terei tempo para me dedicar a ele, hoje quis mostrar que para lá dos dias e das notícias e da actualidade, há também outros mundos neste mundo que vejo aqui da Janela, todos os dias...

publicado por PRD às 19:37
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Terça-feira, 15 de Julho de 2008

Os amigos do PSD

 

Passou o debate do estado da nação, o país entra devagar em férias, mas infelizmente o PSD não tem sossego; ontem o Correio da Manhã revelava que, cito, “A operação de cedência de créditos fiscais e da Segurança Social ao Citigroup, realizada por Manuela Ferreira Leite enquanto ministra das Finanças do Governo PSD/CDS-PP, está a ficar cara ao Estado: dos 11, 44 mil milhões de euros cedidos ao Citigroup em 2003, mais de 3,74 mil milhões foram substituídos por outros créditos cobráveis dos anos seguintes”. “Pobre Manuela”, escreve com razão Rui Costa Pinto no blog Mais Actual: “Com Alberto João Jardim de um lado e Santana Lopes do outro, só faltava à nova líder do PSD o desenterrar da titularização dos créditos fiscais e o Citigroup. Lembram-se? Sem dar cavaco a ninguém! No governo, a então ministra das Finanças não deu sinais de respeitar a oposição, agora na oposição exige respeito da parte do governo”.

Miguel Abrantes, no Câmara Corporativa, refina a critica e recupera o artigo da própria Manuela Ferreira Leite no Expresso de Sábado: “Enquanto os nossos impostos, actuais e futuros, forem o garante do pagamento dos prejuízos, vão continuar a proliferar os investimentos públicos, mesmo que ruinosos para o futuro do país.”. Escreve então o blogger: “Ora aqui está um ponto que há-de merecer a maior atenção nos próximos tempos: o negócio de Manuela Ferreira Leite com o Citigroup, por acaso o negócio mais ruinoso que o Estado português fez até hoje”. No blog Mala Aviada, o aviador acha que somos todos “masoquistas”, e que o que grassa pelo novo PSD é apenas “o oportunismo e a ignorância”, enquanto no Coisas de Sherpas se deixam as perguntas habituais: “competência (???...) e responsabilidade (???...) ao mais alto nível, credível (???...) e de aplaudir, (???...)”, e o remate: “habilidades do passado que empenharam o presente, negro futuro, claro!!!...”

A nova líder do PSD não tem sossego, como confirma Lourenço Anes no blog Calçadão de Quarteira: “Alberto João Jardim, afirmou ontem que ele é que personifica a «verdadeira oposição» ao Governo da República. O homem que não teve suficiente ousadia para enfrentar Ferreira Leite nas urnas, começou, deste modo, a destruição interna da nova líder”. Na verdade, com companheiros assim, não precisa de inimigos. Nem por acaso, Pedro Marques Lopes, que até esteve ao lado de Passos Coelho, já mostra, no blog Atlântico, as fracturas: “A nova direcção do PSD parece ter aterrado ontem na Portela. Subitamente, descobriram o estado do país e o que tem sido a governação do PS. Como parece que estiveram alheados do que se tem passado no país, esclareço: os portugueses já sabem disso e não é de agora. O que queremos saber é a cura proposta para a doença (...). O PSD segue, no fundo, a estratégia da extrema-esquerda: criticar sem apresentar alternativas”.

Pois é: usando livremente uma ideia de Churchill, os adversários estão fora do PSD, os inimigos estão dentro...

publicado por PRD às 18:23
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Segunda-feira, 14 de Julho de 2008

"Nova Bagdad"...

 

Se eu quisesse resumir de forma irónica e parcial os factos, seguiria as palavras de Paulo Ferreira no Câmara de Comuns: “ALGUNS ciganos do Bairro da Quinta da Fonte decidiram recuperar algumas ideias e teorias da época de "ouro" da economia portuguesa e que ainda hoje "rende dividendos"...o PREC! A terra a quem a trabalha, as casas também, o chumbo quente idem idem, aspas, aspas...”. Bom, o caso terá sido mais complicado, como as imagens na SIC mostraram, mas o tema ainda não arrefeceu. André Azevedo Alves, por exemplo, pergunta n’O Insurgente se aquilo é Quinta da Fonte ou Nova Bagdad e escreve: “Para os governantes, tudo é anormal, ou caso único, ou a primeira vez que aconteceu…Para nós, é a guerrilha urbana que se instalou às portas de Lisboa. Basta ouvir os moradores honestos desses bairros, para se perceber que o que se passou é o pão nosso de cada dia”.

No blog Entre Deus e o Diabo encontro uma análise muito realista e pragmática sobre o tema: “Estas mini-cidades farowest sempre existiram. Quem conhece Benfica ou o Bairro S. João de Deus no Porto sabe isso. Aqui não são os ciganos ou os pretos que têm culpa de alguma coisa por serem ciganos ou pretos. Os ciganos e os pretos até podiam ser encarnados que continuariam a fazer o mesmo.
Aqui não há ninguém que fique bem na fotografia. O Estado continua a engavetá-los a monte. Estas comunidades põem-se a jeito em vez de tentarem, pelo menos um bocadinho, afastar o crime das suas vidas”.

De longe, de bem longe vem o autor do blog Combustões e diz: “Nestes curtos dias em Lisboa, (...) dei-me conta que já ninguém manda e já ninguém obedece. As facadas da praia anunciaram os tiros num ignoto bairro social. Talvez na próxima vez assista a tiroteio no Rossio. Volto para a Ásia com a clara sensação que Lisboa, nove meses volvidos, está muito diferente, para pior”. Por falar em perto e longe, leio Miguel Marujo no Cibertulia: “Não são "aceitáveis imagens em Portugal que nos fazem lembrar Beirute", disse Paulo Portas (...). Este senhor é lamentável a todos os títulos: Beirute foi uma cidade devastada por guerras civis, não um mero problema de segurança”. Mas registo também uma frase de João Gonçalves – “Quem não tem um Afeganistão por perto, caça com Loures”. A brincar a brincar este é um caso bem sério. No blog Lóbi, JCS, regista que “até agora (...) foram ouvidas duas pessoas, que saíram do Tribunal com termo de identidade e residência, que é como quem diz «em liberdade». E sugere: “Senhores jornalistas, perguntem lá ao Ministro se isto não está uma maravilha e se os gráficos não continuam a demonstrar a queda a pique da criminalidade”.

Para desanuviar o ambiente, como faço com frequência, acabo a ronda no Blog dos Marretas onde Animal escreve:

“Cá para mim, aquela cena de fárueste da Quinta da Fonte tem a ver com o facto que não havia i-Phones disponíveis para todos os pedidos e os que estavam disponíveis não funcionaram”...

publicado por PRD às 23:37
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Sexta-feira, 11 de Julho de 2008

Blog da semana: sobre transplantes pulmonares

 

A notícia tem andado por aí, em alguns jornais. Acabou por se tornar público o que podia ser apenas privado: um familiar do primeiro-ministro foi alvo de um transplante pulmonar em Espanha. O assunto não teria grande interesse para o mundo dos blogues, não se desse o caso de, por causa desse facto, ter descoberto não um, mas 3 blogues portugueses dedicados a esta operação delicada. Decidi escolhê-los como blogs da semana, por serem páginas que confirmam uma outra utilidade, uma outra forma de entender este universo: quando a tragédia nos bate à porta e podemos, através de um blog, partilhar, debater, comunicar, prevenir. Ou apenas sentirmo-nos úteis.

Assim é, por exemplo, no Transplante pulmonar, onde Célia Pereira, de Marco de Canaveses, partilha com quem a lê o drama, mas também a esperança, de quem sofre. “É dura a espera, escreve ela...são dias que custam a passar...para trás deixamos a familia, os amigos...rumo a uma nova vida... (...) foi-nos dada uma oportunidade, por isso há que aproveitá-la...” Célia está ali “à espera que me seja dada um nova oportunidade de viver com dignidade e acima de tudo com qualidade de vida...”

Enquanto espera o transplante, publica no blog tudo o que encontra sobre a sua doença: notícias de jornais, descobertas científicas, casos de solidariedade. No blog de Célia, encontro o link para o blog Transplantes pulmonares (http://transplantespulmonares.blogspot.com/ ), onde Mafalda Martins conta que “Este blog é exclusivamente dedicado a uma pessoa muito especial, foi ela que fez de mim o que sou hoje (...) ... essa pessoa é simplesmente o meu pai. Um homem de uma força inigualável, um exemplo de bondade disposto a ajudar aquele que precisa. Agora chegou a vez de o ajudarem a ele... Aqui vou relatar a longa historia dos duros anos que o meu pai tem passado. (...) Sofre de uma doença crónica chamada Enfisema Pulmonar”. Depois de contar em pormenor a doença, percebe-se que está também à espera de um transplante e dedica os seus dias a relatar a esperança, a força e a coragem do pai neste momento difícil. É um blog de apoio e encorajamento.

Por fim, o blog de Sandra Campos, também se chama Transplantes Pulmonares (http://xanicatrabalhosmanuais.blogspot.com/ ), que tem outra história, a dela própria: “Esta é a minha SEGUNDA VIDA”, conta. “Sou TRANSPLANTADA PULMONAR devido a FIBROSE QUISTICA. Tenho um único objectivo: aproveitar a vida o melhor possível e ajudar todos os que necessitam de informação e apoio nesta área”. Lá está então informação, noticias, e links, lá estão os trabalhos manuais de Sandra Campos, t-shirts, colares, aneis, sabonetes, vasos com plantas, tudo pintado à mão, trabalhado, decorado. E assim se torna útil e proveitosa uma aparente má noticia. Por causa desse episódio falou-se de doenças pulmonares, e por causa disso fui parar a 3 blogues que, em circunstancias diferentes, ajudam pessoas que sofrem na espera, na doença, na recuperação. Basta que entrem num deles, por exemplo em http://transplantespulmonares.blogspot.com/, e acedem aos outros. São as minhas escolhas da semana.

 
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Quarta-feira, 9 de Julho de 2008

Vale e o "pacote"

 

Comecemos com uma conclusão de Paulo Ferreira no blog Câmara de Comuns: “Com Vale e Azevedo a vida é sempre cheia de surpresas de última hora....à Benfica!”

Pois bem: à Benfica, a surpresa foi mesmo a detenção do antigo dirigente em Londres, onde tem vivido como lorde e onde declarou que só voltaria a Portugal se o viessem buscar. Parece que querem ir buscá-lo mas, entretanto, Paulo Pinto Mascarenhas conta no Atlântico: “já foi ouvido em Tribunal e saiu em liberdade sem fiança. À Lusa, o advogado (...) referiu (...) que João Vale e Azevedo colaborou sempre com as autoridades britânicas e por isso não foi decretada prisão preventiva, ou pagamento de fiança. (...) Pelos vistos, o pedido de detenção da justiça portuguesa não estará propriamente fundamentado”. No blog Pais do Burro, Filipe Tourais ainda admitiu que Vale e Azevedo tinha conseguido ver “finalmente satisfeita a sua reivindicação de um voo Londres-Lisboa inteiramente grátis”, mas precipitou-se, pelo menos por agora.

No blog Direito de Opinião, António de Almeida alarga a reflexão: “É preciso ser-se muito azelha para ter problemas depois de ser dirigente no bizarro futebol português. Bem sei que o caso nada tem que ver com futebol, nem tão pouco de forma directa com a conturbada passagem de Vale e Azevedo pela direcção do S.L.Benfica, mas os problemas deste sr. com a Justiça portuguesa começaram exactamente no dia em que deixou de ser problema do clube da águia. De resto Vale e Azevedo até tem vocação para o populismo, foi o seu estilo enquanto esteve no futebol”.

Por isto, e mais pelos casos Maddie, Casa-Pia, e tantos outros, o blogger vê neste processo bode expiatório: “Qualquer coisa serve para mostrar que a Justiça em Portugal funciona, e continuará a funcionar enquanto tiver á mão o Vale Azevedo para entreter a opinião pública”. No blog Jumento, escreve-se algo importante que diferencia Portugal da Grã-Bretanha neste caso: “A forma como foi tratado pela justiça inglesa foi uma vitória (...) sobre a justiça portuguesa, foi ao tribunal pelo seu pé, não ficou detido e não foi exibido aos jornalistas como um animal de circo. Que bom que seria se a justiça portuguesa fosse como a inglesa”. João Gonçalves, sem querer, responde ao Jumento: “O dr. Vale e Azevedo declarou-se, em Londres, um "refugiado político". (...) Ao referir-se a si mesmo naqueles termos, Vale e Azevedo sentenciou que a justiça nacional se move noutra "esfera", isto é, toma decisões políticas, presumindo-se (...) que a trafulhice e a aldrabice em larga e alta escala também consistem, muito prosaicamente, em "política". (...) Nunca se esqueçam, quando encherem a boca de democracia, que ela - a nossa especialmente - é como um "pacote" em que, para sermos coerentes, temos de a aceitar na íntegra. No "pacote" vem a justiça, a política, a bola, as televisões, etc., etc. e estimáveis criaturas como o dr. Vale e Azevedo. Ele "fugiu" do "pacote" quando o "pacote" deixou de o servir. Não admira, pois, que se sinta "refugiado", ou seja, livre dele”. Tudo dito...

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Terça-feira, 8 de Julho de 2008

Perguntas, perguntas

 

Uma das formais mais comuns de colocar problemas, ou se mostrar indignação, ou apenas de desabafar, é escrever sob a forma interrogativa. Primeiro uma pergunta – às vezes apenas a pergunta. Outras vezes, a pergunta como ponto de partida. Exemplo: “E agora, a direita já está preparada para governar?”. A pergunta é de João Miranda no Blasfémias: “Após a queda da coligação entre o CDS e o PSD, Pires de Lima confessou que a direita que chegou ao poder em 2001 não estava preparada para governar. E entretanto aprendeu?”. Parece que não. Uma pergunta diferente, a que deixou André Azevedo Alves aos leitores do Insurgente:

Qual o melhor líder para o CDS-PP? 235 votos contabilizados e o vencedor foi António Lobo Xavier seguido justamente por António Pires de Lima. Outra pergunta, outro tema, José Medeiros-Ferreira reparou que “Cavaco Silva, que perdeu popularidade desde a visita à Madeira, está de novo mais activo” e interroga-se: “Uma nova fase do mandato presidencial?”.

No já citado Blasfémias, outra voz, a de Helena Matos, e outra pergunta: “Onde estão os defensores de Foz Côa?”: “Em 1994, com o PS já a cavalgar a onda que levaria Guterres ao poder (...), transformou-se a questão das gravuras de Foz Côa num cavalo de batalha contra o cavaquismo. (...) Os turistas prometidos nunca apareceram, os arqueólogos levantaram a tenda e partiram para outras cruzadas. Sobraram os portugueses que pagaram o que lá está da barragem. (...) O pior é que não só pagamos tudo isto e mais o que inventarem como ainda vamos perder o Baixo Sabor.  A quem se pode mandar a conta?”

Como se vê, hoje ando atrás de perguntas com respostas armadilhadas. Era inevitável passar pelas perguntas que deixou o incêndio na Avenida da Liberdade. Daniel Oliveira, no Arrastão, pergunta “Porque continuam a existir tantas as casas vazias? Porque sai demasiado barato tê-las assim e continua a faltar a coragem para seguir os melhores exemplos e, nos grandes centros urbanos, taxar fortemente os fogos devolutos”. Recorda ainda que são  “4.600 edifícios devolutos (que) põem Lisboa em perigo. Apesar da lei, ao legítimo direito à propriedade parecem continuar a não corresponder nenhuns deveres”. No Atlântico, Henrique Raposo também pergunta quanto valem “as rendas das pessoas dos prédios afectados pelo incêndio, e que agora se queixam muito”. Mas encontro no blog Cinco Dias, num post de Maria João Pires que revisita a memória do incêndio do Chiado, outras interrogações mais profundas, assinadas por Miguel Esteves Cardoso no jornal O Independente:

“Onde será o próximo incêndio? Em que bairro, em que cidade, com que consequências? Uma catástrofe é mais violenta quando se compreende que se poderia prever e que se poderá repetir. Quem viu o Chiado a arder viu também arder, na sua imaginação incrédula, Lisboa inteira. Há um fogo português - fogo da incúria, da incompetência, da incompreensão - que arde sem se ver. Está a arder agora. E continuará a arder mesmo depois de ter sido apagada a última chama nas ruas da Baixa”.

Sábias palavras, tantos anos depois...

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Segunda-feira, 7 de Julho de 2008

A justiça não é redonda, como a bola...

 

O fim-de-semana foi triste para o desporto e a justiça nacionais: os acontecimentos e tricas à volta da reunião do Conselho de Justiça da Federação de Futebol deixaram a inevitável nuvem negra sobre a verdadeira cor do Apito que faz falta ouvir-se.

Ora bem, no mundo dos blogues encontrei dois textos longos, e nalguns pontos técnicos, que vale a pena ler, assinados por Carlos Abreu Amorim no blog Blasfémias (que está em blasfémias.net). O autor é do Porto, o que levou alguns dos mais de 150 comentadores que passaram pelo blog a dizer que as suas teses eram viciadas.

Ainda assim, tem razão quando escreve: “A “justiça” desportiva sempre foi muito má: as “traseiras do direito” como lhe chamou Sousa Tavares num momento inspirado. Agora está tudo a ultrapassar os limites do desrazoável que já era. Um dos membros do C’j’ integra outro órgão da Federação pontapeando os mais elementares princípios da organização das pessoas colectivas. Os jornais noticiam quem foi indicado ou está afecto ao clube ‘X’ ou ‘Y’ e, consequentemente, qual o veredicto que já estava ‘cozinhado’”. E mais à frente: “Independentemente do desfecho que este caso concreto vier a ter, já é demais! (...) Só vejo uma solução: a criação de um verdadeiro Tribunal do Desporto que funcionará a tempo inteiro e de forma profissionalizada cujos membros serão recrutados de modo higienicamente autónomo de todas as entidades que superintendem à actividade desportiva (...). O desporto deverá passar a ser um factor de prestígio do direito em vez daquilo que se tornou: a imagem do seu abandalhamento. E isso só se fará quando os órgãos de jurisdição desportiva tenham entrada pela porta da frente em vez de rastejarem pela dos fundos”.

Sublinho do texto do Blasfémias justamente o que me parece unânime independentemente da clubite, e o que me parece ser uma ideia a desenvolver, a de um verdadeiro tribunal de Desporto.

No que a este tema diz respeito, noto ainda um facto bizarro, porém demonstrativo dos perigos de confiar cegamente na Internet ou de a usar como fonte fidedigna sem confirmar a informação.

A história é esta: querendo fazer um perfil de todos os membros do Conselho de Justiça, o jornal Record publicou ontem uma biografia de um deles, Francisco Mendes da Silva, identificando-o como co-autor do blog 31 da Armada, e utilizando todos os dados que sobre ele constam no blog. Ora, lê-se por lá, “O Francisco (...) Mendes da Silva do "31 da Armada" é filho do Francisco (...) Mendes da Silva do Conselho de Justiça (...), com quem teve a providencial sorte de aprender a sua profissão e através de quem, pelo exemplo, pode todos os dias intuir qual a maneira correcta de estar na vida”. Em vez de conferir a informação obtida na net, o jornal não apenas deu como certo que um e o outro eram o mesmo como publicou uma biografia do filho quando queria fazer o perfil do pai.

Deste modo, e para fechar como abri, nas traseiras do direito também se encontram de vez em quando outras traseiras. E mais este episódio serve o mesmo princípio: a Internet é uma excelente ferramenta de trabalho, mas não mais do que isso. Quem não percebe isto, não percebe nada...

publicado por PRD às 19:28
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Sexta-feira, 4 de Julho de 2008

Blog da semana: Ciberescritas

 

Já aqui destaquei blogues ligados aos livros e às leituras, com diversos formatos, fórmulas, estilos. Mas há sempre mais um para descobrir – por exemplo, um blog que complementa uma coluna de jornal, ou mesmo o trabalho de um jornalista, neste caso de uma jornalista: Isabel Coutinho assina, desde 1996, no Público, a a coluna Ciberescritas sobre o futuro dos livros, a presença de escritores na Internet e a relação entre as novas tecnologias e a literatura. Nessa medida ela tem sido uma observadora atenta e privilegiada do fenómeno dos blogues, bem como da transição do texto em papel para o mundo virtual. Os e-books, livros que estão na rede e se lêem no computador ou se imprimem em casa, são apenas a face visível de um universo mais vasto onde blogues, sites, pequenos negócios e editoras de livros se misturam e confundem e procuram um caminho.

O futuro continua a ser uma incógnita, mas sem duvida que passa também por blogues como este Ciberescritas, que nasce do papel impresso, é actualizado independentemente do Público, e para o próprio jornal remete, por exemplo, com o resumo semanal do conteúdo do excelente suplemento Ypsilon.

Mas também lá se encontram visitas ao baú da memória e pode então saber-se que foi em Março de 1996 que se publicaram as primeiras Ciberescritas. Conta Isabel Coutinho: “A crónica foi-me pedida pelo meu editor na altura, Torcato Sepúlveda.  Ele já tinha o nome da dita coluna, eu só teria que inventar o conteúdo. O nome, contou-me na altura, tinha-lhe sido sugerido por Francisco José Viegas,  director da revista Ler. Ficaram CIBER-ESCRITAS para sempre. A primeira crónica era dedicada ao escritor norte-americano Stephen King e às suas andanças precoces na Internet. Alguns anos depois, em 2000, Stephen King voltou a dar que falar por ter colocado na Internet partes de um romance em formato electrónico. Podia ser descarregado a partir de qualquer lugar do mundo”. E pronto: 12 anos depois, a coluna ganha blog e com isso ganha vida, vídeo, imagem e mais dinâmica do que semanal publicação de um texto no jornal.

Isabel Coutinho é uma jornalista do Público, o seu blog está alojado na plataforma do jornal, mas é um espaço pessoal, próprio, que vive acima e abaixo da referência que o marca. Fica em www.ciberescritas.com, e é a minha escolha da semana.

publicado por PRD às 00:59
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Quinta-feira, 3 de Julho de 2008

"Massacre ao Pôr do Sol"...

 

Foram dois dias seguidos: na terça, Manuela Ferreira Leite na TVI; ontem, José Sócrates na RTP. As ondas de choque propagam-se – e resumindo, diria que o mundo dos blogues chumbou a nova líder do PSD por falta de ideias e projecto. Pedro Marques Lopes resume bem no blog Atlantico: “A falta de discurso da Dra Manuela Ferreira Leite não faz parte de nenhuma estratégia. A verdade é que a Presidente do PSD sabe que se tivesse de dizer o quer que seja sobre a ideia que tem para o país percebíamos logo que nada de substancial a distingue do Eng. Sócrates”. No fim vem rematar: “É preciso alternar para que tudo fique na mesma”. Adolfo Mesquita Nunes, na Arte da Fuga, acha-a “Incapaz de se descolar do seu próprio passado”, e Bruno  Sena Martins no Avatares de um Desejo reduz tudo a uma palavra: “fraquinha”. Houve ainda o caso da discriminação aos homossexuais, mas deixo o tema para outro dia, pois desconfio que ainda vai dar muito que falar.

Ontem foi a vez de Sócrates vir explicar-se à RTP e João Pinto e Castro no 5 Dias nem hesitou, chamou-lhe “Massacre ao Pôr do Sol” e escreveu: “Comparar José Sócrates com Manuela Ferreira Leite é como comparar o Continente com a Feira do Relógio”. Medeiros Ferreira também acha que o primeiro-ministro “esteve bem na pantalha que tão bem conhece, sobretudo perante o vazio de propostas das oposições”. De acordo aliás com Sofia Loureiro dos Santos no Defender o Quadrado. “Safou-se bastante bem. Está em campanha eleitoral, explicou os problemas da crise internacional, soube introduzir as alterações e as benesses que vai distribuir agora. Foi contido, incisivo, pragmático e pragmático”. Bom, tão pragmático que permitiu a Diogo Morais, no blog Câmara de Comuns, ver o futuro: “com Manuela Ferreira Leite e o seu elenco, José Sócrates não vai alterar minimamente a sua linha de rumo de governação”, tanto mais que, escreve ele, a arrogância de que é acusado pela oposição é afinal pura "determinação".

Do lado de quem não gostou da entrevista, destaco Carlos Botelho no Cachimbo de Magritte: “O homem que não entra em "calculismos" e que não perde tempo com "politiquices" deu-se ao trabalho de levar (...) um papel garatujado com as "propostas" do PCP, para as ridicularizar em directo”. Dá razão, portanto, à líder do PSD, quando disse “que este Governo se preocupa mais em fazer oposição à oposição do que em governar”. Laurinda Alves, no blog com o seu nome, sentiu o “desconforto de muitas coisas ditas e omitidas ao longo de uma hora de conversa”. Entre vários exemplos, este: “Sócrates diz que não é calculista e não pensa nas eleições do próximo ano. O Pai Natal existe porque Sócrates acredita, claro”. Laurinda nota ainda algo que encontro noutros comentários em diversos blogs: “Houve uma palavrinha sabiamente evitada ao longo da entrevista. Ninguém proferiu a palavra "desemprego" e se formos a ver bem (...), esta é a palavra-chave do futuro próximo”.

Os blogues são mais de mil, mais de cem mil sei lá quantos são, mas vistas umas dezenas daqueles que diariamente dão o corpo ao manifesto, parece-me que neste caso temos uma vitória de Sócrates sobre Ferreira Leite. Um a zero, diria...

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Pesquisar blog

 
Estes textos são escritos para serem “falados”, ou “lidos”, pelo que não só têm algumas marca de oralidade (evidentemente, propositadas...) como é meu hábito improvisar um pouco “em cima deles” no momento em que gravo a rubrica. Também é relevante dizer que, dado tratar-se de uma “revista de blog’s” – e uma vez que os blog’s não se preocupam com a oralidade ou com a eventual citação lida dos seus textos -, tomo a liberdade de editar minimamente os textos que selecciono. Faço-o apenas para que, em rádio, não se perca a ideia do blogger pelo facto de escrever frases longas e muito entrecortadas. Da mesma forma, não reproduzo palavrões nem frases pessoalmente ofensivas, assim como evito acusações cuja possibilidade de prova é diminuta ou inexistente. Sendo uma humilde crónica de rádio, tinha ainda assim de ter alguns princípios. São estes. Quem tiver razão de queixa, não hesite!

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