Sexta-feira, 15 de Fevereiro de 2008

Blog da Semana: Corta-Fitas

Já poderia e se calhar deveria ter sido meu blog da semana. Mas é mais justo que o seja agora, porque está a comemorar dois anos e terá chegado, enfim, à maturidade no formato que adoptou, na forma como cresceu e se desenvolveu.
Falo-vos do “Corta-Fitas”, um dos blogues que mais cito nesta Janela, por razões óbvias: com um corpo de colaboradores de mais de uma dúzia de pessoas, todas jornalistas ou repórteres de imagem, é um dos espaços que garante maior cobertura da actualidade. E, isso é de notar, maior diversidade, da esquerda à direita. É um blog bem disposto, de bem com a vida, apesar dos ódios de estimação e das paixões dos seus colaboradores.

Falo à vontade pois ali há gente com quem consigo estar sempre em desacordo, ou quase, como Francisco Almeida Leite, e pessoas que facilmente reúnem consenso, como o Pedro Correia. Não distingo ninguém: o Corta-fitas vai de cima a baixo, juntando no mesmo ecrã a Cristina Ferreira de Almeida e o João Villalobos, o Luís Naves e o Duarte Calvão, o Fernando Sobral e a Maria Inês Almeida, entre outros. Gerações diferentes, percursos divergentes, mas algo em comum: gosto em escrever, gosto em manifestar opinião, gosto em partilhar conhecimento e ideias. Na maioria dos casos, sentido de humor também...

Não tendo um projecto politico, tem um valor especial na minha avaliação do universo blogoesférico. Porque aqui reside apenas, e só, o gosto em estar e fazer e intervir. Sem mais militâncias.

“Inaugurações, implosões, panegíricos e vitupérios” – lá está ainda o rol das promessas do primeiro dia. Passaram dois anos, o blog é hoje adulto, tem rubricas fixas – eu não perco Palavras que Odeio, e menos ainda os Domingos de João Távora -, tem a personalidade de uma revista e a atenção de um jornal.

É naturalmente um trabalho jornalístico – mas sincero, puro, e acima de tudo feito com paixão e dedicação. É o meu blog da semana.

Fica em 

Já poderia e se calhar deveria ter sido meu blog da semana. Mas é mais justo que o seja agora, porque está a comemorar dois anose terá chegado, enfim, à maturidade no formato que adoptou, na forma como cresceu e se desenvolveu.

Falo-vos do “Corta-Fitas”, um dos blogues que mais cito nesta Janela, por razões óbvias: com um corpo de colaboradores de mais de uma dúzia de pessoas, todas jornalistas ou repórteres de imagem, é um dos espaços que garante maior cobertura da actualidade. E, isso é de notar, maior diversidade, da esquerda à direita. É um blog bem disposto, de bem com a vida, apesar dos ódios de estimação e das paixões dos seus colaboradores.

Falo à vontade pois ali há gente com quem consigo estar sempre em desacordo, ou quase, como Francisco Almeida Leite, e pessoas que facilmente reúnem consenso, como o Pedro Correia. Não distingo ninguém: o Corta-fitas vai de cima a baixo, juntando no mesmo ecrã a Cristina Ferreira de Almeida e o João Villalobos, o Luís Naves e o Duarte Calvão, o Fernando Sobral e a Maria Inês Almeida, entre outros. Gerações diferentes, percursos divergentes, mas algo em comum: gosto em escrever, gosto em manifestar opinião, gosto em partilhar conhecimento e ideias. Na maioria dos casos, sentido de humor também...

Não tendo um projecto politico, tem um valor especial na minha avaliação do universo blogoesférico. Porque aqui reside apenas, e só, o gosto em estar e fazer e intervir. Sem mais militâncias.

“Inaugurações, implosões, panegíricos e vitupérios” – lá está ainda o rol das promessas do primeiro dia. Passaram dois anos, o blog é hoje adulto, tem rubricas fixas – eu não perco Palavras que Odeio, e menos ainda os Domingos de João Távora -, tem a personalidade de uma revista e a atenção de um jornal.

É naturalmente um trabalho jornalístico – mas sincero, puro, e acima de tudo feito com paixão e dedicação. É o meu blog da semana.

Fica em http://corta-fitas.blogspot.com corta-fitas.blogspot.com. E está de parabéns pela entrada no 3º ano de vida...

. E está de parabéns pela entrada no 3º ano de vida...

publicado por PRD às 19:01
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Quinta-feira, 14 de Fevereiro de 2008

Em Timor...

A situação em Timor não entusiasma Portugal como noutros tempos, os tempos dos panos brancos e das velas acesas. Ainda assim, mexe com os nosso valores e sentimentos, e por isso estes dias têm sido de apreensão. Mas também de reflexão.
José António Barreiros, no blog Revolta das Palavras, escreve: “No dia dos atentados, às primeiras horas não havia policiamento, os «internacionais» pairavam expectantes. Nota-se que não há Estado quando a segurança falha; mas o Estado já falhou quando se criaram as condições para que a segurança não seja possível”.
No Corta-fitas, Pedro Correia afirma que estes atentados “não são actos isolados: são as mais recentes manobras para pôr fim a uma certa visão de Timor como membro do espaço lusófono. Não entender isto é não entender nada. (...) A hora não é de falar - é de agir, nomeadamente com o reforço dos efectivos policiais que nos foram já solicitados.”
Rui Costa Pinto, no blog Mais Actual concorda e escreve: “O apoio é desejado pelos portugueses. José Sócrates esteve bem na declaração oficial após os atentados. Apesar de ainda não se saber exactamente o que se passou, uma coisa é certa: a força da ONU falhou”.
Sobre apoios, nomeadamente o reforço da presença portuguesa, com algum pragmatismo, pergunta Medeiros Ferreira no Bichos Carpinteiros: “No estado actual da compressão de despesas em Portugal é conveniente explicar muito bem quem pagará um reforço das forças da GNR em Timor. Se não for no quadro da ONU será vantajoso perceber a natureza do mandato dessas forças antes de as enviar”.
Perguntas é também o que deixa Nancy B no blog Geração rasca.  Eis duas delas:
”- Qual a razão do comando das forças internacionais pertencer à Austrália?
- Que tipo de ligações existem entre os membros das Falintil e os grandes grupos económicos interessados na exploração do petróleo em Timor?”.
Perguntas que ficam bem ao lado deste post curto de Rodrigo Moita de Deus no 31 da Armada:
“Em Timor continua a balbúrdia. Enfiados nos quartéis para evitar balas perdidas, os australianos fazem a figura que os portugueses fizeram no princípio da década de setenta. Talvez os indonésios se lembrem de enviar outra "força de manutenção da paz".

Humor negro que dá que pensar.
Paulo Gorjão acrescenta este ponto conspirativo e desconfiado no blog Cachimbo de Magritte: “começou o jogo do gato e rato com o intuito de encontrar um bode expiatório para o sucedido. Como de costume, os timorenses apontam o dedo para o exterior. Não é por nada, mas eu começava por olhar para o interior para se perceber como é que aqui se chegou”.
Liliana Fernandes, no blog Gosto e Contragosto, prefere lembrar o que muitas vezes esquecemos:
“Timor-Leste é quase virgem no que diz respeito aos sistemas judicial e policial e, por isso, quando existe algo para resolver, a primeira coisa a ser premida é o gatilho de uma qualquer arma”.
Remato com Ângela Carrascalão, no blog Timor Lorosae Nação, que escreve apenas:

“Não acredito que haja um timorense que se preze que esteja interessado em subir ao Poder espezinhando, esmagando, matando outro timorense...”
Da desconfiança à ingenuidade, da conspiração ao crédito, há de tudo, como se vê. Só não há um território em paz lá para os lados de Timor.

publicado por PRD às 22:59
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Quarta-feira, 13 de Fevereiro de 2008

Palavras soltas

Hoje sem tema definido, recolho na blogoesfera ideias engraçadas, frases notáveis, bons pensamentos. Ainda sobre Obama e os eleições americanas, uma divertida analogia de Paulo Pinto Mascarenhas no blog da revista Atlântico: “Barack Obama é o Manuel Alegre das primárias norte-americanas. Contesta tudo e todos no seu partido mas ainda acaba em número dois”.
Ana de Amsterdam, no blog com o mesmo nome, deixa esta ideia forte que tem a ver também com Obama, e depois de ressalvar que ela própria tem sangue de várias raças: “Escolher um presidente por ser negro é pior do que rejeitá-lo pela sua cor”.

Discute-se a América – e quando se discute a América, fala-se de capitalismo. Maradona, no blog A Causa Foi Modificada:

“Curioso é o facto de o capitalismo ser uma ideia tão difícil de vender no mercado livre das ideias. Não fosse o azar com o comunismo, e o socialismo selvagem ainda seria o titular indiscutível”.

E logo Hélder, n’O Insurgente, lhe responde:

“Num mercado livre os produtos vendem-se e compram-se em dinheiro. Ora, um Ferrari é muito mais difícil de vender que um Ford Fiesta (...). No mercado das ideias o preço mede-se em realidade. É óbvio que o capitalismo tem que ser mais difícil de vender que o Fiesta socialista. A realidade é cara”.
Regresso aqui ao rectângulo e ao tema da semana. Sob o titulo “Pescadinha de rabo na boca” pergunta Victor Abreu no blog Jantar das Quartas: “Como é que a classe política pode "combater" a corrupção, se é a classe política o grande foco dessa mesma corrupção?”
E agora outra pergunta: ”O que é que lucra um homem chegar ao pico de uma montanha se, depois, não consegue descer?”. É Fernando Sobral quem deixa a questão no seu blog O Pulo do Gato. E escreve: “O recentemente falecido Sir Edmund Hillary, sobre o assunto, dizia (...): “Eu, pessoalmente, inclino-me a pensar que é bastante importante o poder descer do cimo”. Subir ao pico (do poder, da arrogância, do dever cumprido) pode ter sido o sonho de José Sócrates quando foi eleito. Saber descer à realidade parece ser, neste momento, o seu choque frontal com o clamor da sociedade”.
Este confronto com a realidade devolve-me a Pedro Mexia e ao seu excelente blog Estado Civil. Encontro esta ideia notável: “Somos frágeis e fátuos e insignificantes. O amor às vezes reduz essa insignificância ou cria a ilusão de que significamos alguma coisa. Outras vezes é o mesmo amor que nos reduz à nossa insignificância. E de cada vez que aprendemos isto, aprendemos isto pela primeira vez”.
Desdramatizo agora o final com o humor de Waldorf do Blog dos Marretas. Ao saber que o Dakar 2009 se vai realizar entre a Argentina e o Chile, aí veio ele desfazer o tema: “Outra boa ideia era fazer o Grande Prémio do Mónaco em Havana ou o Torneio de Roland Garros em Vila Velha da Rabona”. Fechar a sorrir é essencial nos dias que correm...

publicado por PRD às 23:39
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Terça-feira, 12 de Fevereiro de 2008

Corrupção ou justiça ou ambas?

É isso, ambas as coisas em debate esta semana em Portugal, ou não tivesse arrancado o julgamento do Apito Dourado e não houvesse todos os dias noticias, suspeitas, investigações, processos. Tudo fica mais tarde em águas de bacalhau, mas enquanto fica e não fica, sempre se conversa.
Pacheco Pereira, por exemplo, estava chocado ontem no seu Blog Abrupto:

“Será que ouvi bem, escreveu ele, o PGR dizer, a propósito do "Apito Dourado", que a mera existência do processo, seja qual for o resultado, é já "positiva" e já "teve resultados"? Isto é completamente absurdo sob todos os pontos de vista e péssimo para o ambiente que já se vive em Portugal. Primeiro, porque podemos passar a ter processos desencadeados com intenção exemplar, funcionando para culpabilizar alguém junto da opinião pública, mesmo sem decisão judicial de culpa (...). Depois, porque é absurdo pensar que, se processos sobre processos chegam a tribunal e ficam pelo caminho, ou é porque as pessoas foram injustamente acusadas, ou porque a instrução foi deficiente e negligente (...). O que parece é que o PGR não tem confiança na solidez da instrução do "Apito Dourado" ou não acredita na justiça...”

No Corta-Fitas , que blog que comemorou 2 anos de sucesso de um espaço aberto a um conjunto vasto de pessoas com ideias diferentes, Cristina Ferreira de Almeida escreve uma reflexão que vale a pena observar:

“Vinha eu a pensar se existe ou não corrupção em Portugal, se recusamos admiti-lo por a palavra ser especialmente feia ou se existe apenas troca de favores - e, nesse caso, que nome deveremos dar a isso - quando reparo numa paragem de autocarro no centro de Lisboa. Com aquela arrogância que parece usar-se ,consta de uma larga abóbada. Em baixo, meia dúzia de tampos de cadeira colocados numa barra de metal modernaça. Estão cerimoniosamente espaçados entre si, mas tão altos que as velhinhas que esperam o autocarro balançam as pernas como meninos na escola. Fiquei estática, a ver um velho baixote fazer equilibrismo nas muletas para tentar chegar ao assento. Isto para dizer: será que ninguém recebeu nada por aquilo? E pelos placards de colorido berrante que ladeiam as auto-estradas? E pelas calhas metálicas para escoar as chuvas que algumas ruas têm e que fazem saltar o empedrado, além de não estarem colocadas no sentido das descidas (...); ninguém ganhou nada com estas anormalidades e outras que a vista alcança? É tudo só mau gosto e incompetência?”

Cristina nota o que importa: é que ela, a corrupção, pode estar, e estará, de baixo a cima, de norte a sul – e quando assim acontece, geralmente quem está por baixo sofre e quem está por cima consegue passar pelos pingos da chuva sem se molhar.

Tem razão, assim, João Gonçalves, no blog Portugal dos Pequeninos, quando escreve: “A Justiça - o modo como ela é concedida ou negada, na forma e na substância - "mede" um regime”. Nessa medida, a ver pelo debate de ontem no “Prós e contras”, ele acha que vivemos numa “democracia anã”.

Corrupção e justiça – duas palavras com sabor amargo em Portugal. Sem duvida.

publicado por PRD às 18:58
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Segunda-feira, 11 de Fevereiro de 2008

Alegre se fez triste?

O Bloco de esquerda não marca a agenda, o PCP não marca a agenda, o PSD não marca a agenda, o PP às vezes marca a agenda politica. Mas quem está mesmo na vanguarda é o clássico Manuel Alegre, que voltou, isso sim, a marcar a agenda com declarações que deixaram o PS aos gritos. Blogoesfera fora, opiniões que recolho...
José Teófilo Duarte, no Blog Operatório, acha que Alegre “continua a pôr-se em bicos de pés, insistindo em existir politicamente”. Teófilo concorda com António Guerreiro, que escreveu no Expresso:  “bem pode Manuel Alegre invocar o mar, convocar tempestades, e evocar ondas, que nem a mais leve brisa por aqui passa".
Bruno Alves, no blog O Insurgente, nota que “o aspecto mais triste” desta aparição permanente é a “realidade que a oposição de Alegre põe a nu: ele é a oposição. (...) Manuel Alegre é, pura e simplesmente, o rosto da única alternativa a Sócrates que é oferecida aos portugueses. Todo o país é rosa: o governo é do PS, e a oposição também. À sua volta, está a irrelevância, o vazio ou o silêncio”.
Paulo Pinto Mascarenhas, no blog da revista Atlântico, revira o texto ao contrário e vê outra paisagem. Escreve ele: “As voltas e reviravoltas de Alegre convêm em primeiro lugar a José Sócrates. Por um lado, Alegre e o seu movimento têm a capacidade de evitar o potencial crescimento do Bloco de Esquerda (...). Por outro lado, porque o PS poderá assim ter o seu candidato genuinamente socialista nas próximas presidenciais, não se vendo obrigado à humilhação de engolir Cavaco Silva”.
Um olhar inteligente e perspicaz, sem duvida.
Luís Carvalho, no blog Instante Fatal, não vai por aí e acha mesmo que Alegre quer deixar o PS do poder bem triste:
“A três anos das presidenciais e a dois das legislativas, a voz de Alegre é já o canto e as armas para tirar a Sócrates o que ele tem a mais: a arrogância e a maioria”.
Pelo caminho, Paulo Gorjão, no Cachimbo de Magritte , lembra que “José Sócrates gosta tanto de pluralidade interna e de discussão como eu gosto de ir ao dentista”. Não gostará portanto de saber que pessoas como Miguel Silva, no blog Bios-Politikos , defendem que “Faz falta ao sistema político-partidário uma força de esquerda com a implantação eleitoral do PS. (...) Deixem o PSD voltar a encontrar uma referência séria para líder, com um discurso ideologicamente coerente e sério, para ver o pandemónio em que se vai transformar o Largo do Rato”.
De outro lugar, Joaquim, no blog Portugal Contemporâneo, observa que Portugal pertence à Europa e não pode, por isso, ser socialista como Alegre gostaria: “As politicas (...) de que Alegre fala não estão apenas fragilizadas por serem do passado. O governo de Portugal não tem autonomia para as pôr em prática”.
Talvez por isso o anónimo que assina o blog Jumento olha a semana como um tempo dos “vencidos” e escreve: “Manuel Alegre organiza uma procissão de vencidos, desiludidos e desempregados políticos em nome de uma esquerda cheia de sonhos por realizar”.
Tantas opiniões para um só homem. Era o que eu dizia no começo: Manuel Alegre é o homem que marca a agenda da oposição ao governo. Ao que chegou a politica em Portugal...


publicado por PRD às 19:09
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Sexta-feira, 8 de Fevereiro de 2008

Blog da semana: Teatro Anatómico

A blogoesfera é palco de muitas revelações – uma delas ocorre sempre que alguém que conhecemos por determinada obra, decide abrir um blog mais confessional. Aí ficamos a saber mais sobre essa pessoa, e há até um lado vagamente coscuvilheiro que de nós se apodera – vamos cuscar os gostos, as manias, as paixões, os ódios...
Quem aprecie por exemplo a escrita do jornalista e escritor Manuel Jorge Marmelo pode conhecer os seus outros lados no blog Teatro Anatómico, que é o quarto onde desabafa sobre politica, futebol, sociedade, cultura. O autor de livros como “As mulheres deviam vir com livro de instruções” ou “O amor é para os parvos”, premiado em 2004 com o Grande Prémio do Conto Camilo Castelo Branco, pelo livro O Silêncio de um homem só, alimenta o seu blog quase diariamente com apontamentos, ideias, pequenas crónicas.
Recupero um post notável que Marmelo deixou no final do ano passado. Dizia assim:

“Sinto-me tentado a dizer que, tal como Álvaro de Campos, também eu “pertenço a um género de portugueses que depois de estar a Índia descoberta ficaram sem trabalho”. Mas seria mentira. Descoberta a Índia e o Brasil (...), a penincilina e a divisão dos átomos, eu continuo a ter um emprego e a ter trabalho: o trabalho que dá ser português num tempo em que ser português não tem interesse absolutamente nenhum”.
São bocados de um escritor que não encontramos nos livros, bocados de um jornalista que não aparecem nos jornais. Blogues também servem para isso – por isso escolhi, como bom exemplo, o Teatro Anatómico como meu blog da semana. Fica em http://teatro-anatomico.blogspot.com.

No começo do blog o autor explica-se e lá está:
«“Um homem é um rio?”, pergunta Julinho, personagem de uma das “Velhas Histórias” do mais-velho Luandino Vieira. A resposta à questão é não. E sim. Um homem não é um rio. Basta olhar e ver: o homem é “um animal, um bicho estúpido”. Mas, tal como um rio, um homem é também uma escorrência vital que faz pouco sentido sem outro rio de destino ao qual se junte, sem outras águas às quais misturar as suas até ao ponto de fazer um rio enorme, um lago, um mar. (...) Escrever estas linhas, ainda que desnecessário e algo torpe, é já uma forma de voltar a misturar as águas depois de desistir e de ter julgado que seria capaz de ficar confinado às estreitas margens dos rios tristes».

publicado por PRD às 18:32
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Quinta-feira, 7 de Fevereiro de 2008

Júdice versus Marinho

É um dos fait-divers da semanas mas tem dado que falar. João Gonçalves, no Portugal dos Pequeninos, conta-o:
“O dr. José Miguel Júdice, a mais recente aquisição moralista do PS, apelidou Marinho Pinto de populista e comparou-o a Chávez e a Mussolini. Mais. Acusou-o de querer ser um candidato de esquerda, a Belém, contra Cavaco”.
Eu pensaria que João Gonçalves se tinha passado, pronto, muito sol na moleirinha. Mas não: vi na SIC Noticias e era verdade.
“A cabeça de Júdice de há muito que já não é o que era, diz então João Gonçalves, apesar de, como a de todos os narcisistas, continuar a estar demasiado apaixonada por si mesma. Júdice imputa a Marinho o que porventura lhe vai na alma. Júdice gostaria de ser candidato presidencial do PS, agora ou depois. Um homem com esta ambição não precisava passar pelo vexame de ser sócio de um restaurante de luxo que só paga quinhentos euros de renda e que chega a vender vinhos a mais de dois mil. A "grandeza" supostamente não devia ser mesquinha”.
Ora bem, é Júdice em duas frentes: o que ele diz de Marinho Pinto, e o estranho caso do restaurante de luxo que paga 500 euros de renda mensal. Deixemos a renda, centremo-nos na guerra judicial. Escreve Vital Moreira no blog Causa Nossa:
“Penso que o bastonário da Ordem dos Advogados não ganha nada nos excessos verbais em que por vezes incorre nem tampouco na criação de uma fronda de grupos agravados contra si (...). Mas parece-me evidente que nada disso justifica a brutalidade verbal dos ataques "ad hominem" do antigo bastonário José Miguel Júdice, por maior que seja o contencioso pessoal entre ambos”.

Estamos no domínio do pedido sincero de algum bom senso. É no mesmo sentido que escreve Cristina Ferreira de Almeida no Corta-fitas:
“José Miguel Júdice tem um problema qualquer. Primeiro pensei que (...) tinha um problema específico com o anterior bastonário dos advogados, Rogério Alves. Afinal, tem também um problema com o actual bastonário. É respeitável também; já a forma como o enuncia não. Alguém devia dizer a José Miguel Júdice que ele já não é bastonário dos advogados. Pessoas que eu estimo e que estimam José Miguel Júdice dizem-me que ele pretende ser um mártir. Mas de quê? Ninguém me sabe explicar”. E com humor remata Cristina: “Enquanto não se percebe, sugiro à SIC que o tire de A Regra do Jogo e o passe para a Tertúlia Côr de Rosa”.
Pedro Marques Lopes, no 31 da Armada, é mais seco e escreve direitinho: “Segundo José Miguel Júdice, um populista gordo e forte vai concorrer contra Cavaco nas Presidenciais. Aos constantes insultos, Marinho Pinto vai respondendo com um imperturbável silêncio. Júdice anda a dar um tristíssimo espectáculo”.
O passeio que dei pela blogoesfera, incluindo blogues como o bicho-carpinteiro ou o blog operatório, deram todos o mesmo sinal: José Miguel Júdice, por mais que seja um respeitável barão da nossa vida politica, está numa guerra exagerada com o bastonário. E tudo o que é demais, já se sabe no que dá...

publicado por PRD às 19:01
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Quarta-feira, 6 de Fevereiro de 2008

Obama para todos

Terá sido uma noite longa para quem decidiu seguir a super-terça-feira nos Estados Unidos da América: democratas e republicanos elegeram 40% dos delegados às suas convenções. Mas os resultados são os que se conhecem, isto é, do lado democrata tudo ainda em aberto, do lado republicano ganha força John McCainn.
Nestas ocasiões não dispenso consultas regulares ao blog Margens de Erro, de Pedro Magalhães, que junta uma análise sensata com um profundo conhecimento sobre comportamentos eleitorais. Escreveu hoje:
“Se se confirmar (estudos e sondagens), o resumo da noite é que nem Hillary assegura a nomeação definitivamente nem Obama consegue transformar o "momentum" dos últimos dias numa viragem da campanha a seu favor. Teve várias vitórias que seriam impensáveis há algumas semanas, mas não conseguiu roubar os troféus decisivos a Clinton, que se sai melhor (...) nos maiores estados. Num certo sentido, as altíssimas expectativas criadas em torno de Obama nos últimos dias jogam um pouco contra si quando se tratar de dar o spin à noite de hoje”.
Pedro Magalhães tem razão. Quando se fala de Obama, a blogoesfera, pelo menos a portuguesa, entusiasma-se.
Pedro Norton, no blog Geração de 60, chegou mesmo a escrever: “Barack Obama (...) é um dos fenómenos mais fascinantes que apareceu no universo político nos últimos 20 ou 30 anos. (...) Tem conseguido resgatar, para a discussão e para os debates políticos, enormes franjas da população (...) que dela pareciam irremediavelmente afastadas. (...) Em certo sentido, Barack Obama já ganhou”.
Pacheco Pereira, no Abrupto, desfaz esta ideia: “Obama, comparado com Hillary Clinton ou com John McCain, tem pouco lá dentro. Nem saber, nem experiência, nem consistência. Pode vir a ganhar tudo isto, mas para já não tem. Mais um produto da fábrica de plástico, jovem, simpático, bom ar, bom falador, muito teatro de convicções, e politicamente correcto na cor, nem muito preto, nem muito branco”.
Os leitores de Pacheco reagiram: Bruno Sequeira disse “O Senador Obama (....) possui um discurso que cativa, (...) porque está em sintonia com os seus eleitores”. Já José Pedro Machado acha “Barack Obama (...) o candidato menos conveniente à Europa e ao Mundo em geral pois as suas posições são muito mais isolacionistas do que, pasme-se, as do McCain”.
As eleições americanas inspiram e motivam a blogoesfera, que as debate vivamente.

Vale a pena seguir aqui esta longa guerra que Nuno Mota Pinto, no blog Mar Salgado, calcule que não termine antes da Primavera no Texas. Escreve ele:
“Obama será mais elegível se se impuser a ideia de que as eleições serão disputadas ao centro e pela atracção de novos eleitores e independentes e Hillary caso as eleições se ganhem pela mobilização dos fiéis. De qualquer forma, os democratas mobilizaram mais do dobro de votantes do que os republicanos, o que dá bem conta do entusiasmo e mobilização da esquerda americana”. Apesar de, como diz Bruno Alves no Desesperada Esperança, a campanha democrata se resumir “a uma discussão racista e sexista (qual a melhor raça para ganhar? Qual o melhor género para ganhar?)”, ela é, ainda assim o tema central. O folhetim continua dentro de momentos...

publicado por PRD às 23:19
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Terça-feira, 5 de Fevereiro de 2008

Máscaras de Carnaval

Bom, se o dia é de Carnaval, aproveitemos a maré e brinquemos às máscaras, aos disfarces, às palhaçadas. Falemos, então, de futebol...
Podemos começar por Bolhão Pato, um pseudónimo no blog “Mãos ao ar” que, com graça, arrisca um post intitulado: “Ctrl + Alt + Delete”. E explica:

“Reiniciar a temporada, por favor.

Pelo menos, e isso que eu faço quando estou a jogar CM2 e perco em Belém. Não se pode cair mais fundo do que isto”

O mesmo blogger tinha feito, dias antes, uma analise ao Sporting-Porto que titulou “Ganhar à Benfica”. E onde escrevia:”Eu fiz como o comentador Rui Santos: entre atribuir um pedaço de mérito à exibição do Sporting, (...) e entregar toda a responsabilidade pelo resultado à fortuna, ao acaso ou à virgem, preferi a virgem. Sempre faz companhia. Experimentei assim, pela primeira vez em tantos anos de sofrimento, a sensação de ganhar à Benfica. Confesso que é muito agradável”.
No sempre bem informado  “Blog da bola”, outro pseudónimo que assina “bate-bolas” escreve sobre o estado geral da liga:
“O que está a acontecer é que o Porto já se apercebeu que pode falhar à vontade porque na jornada seguinte os seus mais directos adversários copiam o desaire e desta forma mantém sempre a mesma vantagem. Falem do Camacho, de Luís Filipe Vieira e da política de contratações. Falem de Filipe Soares Franco, dos seus recuos e avanços e da falta de dinheiro para contratações (...) Que é feito da garra leonina que fez com que Dias da Cunha se demitisse, assim como Peseiro? Que soluções têm o Benfica e o Sporting se não se sente o peso da oposição nos dois clubes da segunda circular? Se se deve culpar Paulo Bento das más exibições ou quem assumiu a responsabilidade das aquisições? O mesmo retrato encaixa no Benfica. Será Camacho o grande responsável pelo que está a acontecer?”
Perguntas sem resposta, ou com resposta para quem sabe. Fecho a volta com Manuel Jorge Marmelo no blog Teatro Anatómico. São generalidades, mas boas para o remate da crónica:
“Haverá obviamente quem não goste de futebol (...). Trata-se de quem se limita, como se dizia num anúncio com alguns anos, a negar uma ciência que não conhece. (...) Sendo absolutamente misterioso o modus operandi dos deuses do futebol, não é menos certo que estas divindades, ao menos, são pródigas na exibição das manifestações da sua existência. Basta-nos, aos crentes, estar no sofá, diante da televisão, para que, jogo após jogo, os milagres sucedam e os mais improváveis heróis acabem coroados com a efémera glória que um jogo de futebol concede”.
Melhor imagem deste mundo de vitórias e derrotas seria difícil. Amanhã acordamos para outro carnaval...

publicado por PRD às 22:22
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Segunda-feira, 4 de Fevereiro de 2008

Equilibrio e senso

Numa revista de actualidade, neste caso aplicada à blogoesfera, procuro diferentes opiniões e pontos de vista. Nos últimos dias, por causa da investigação do jornal Público a respeito de José Sócrates, extremaram-se posições e ideias, e uma vez mais se caiu no exagero sem fundamento. Li dezenas de blogues que se dedicaram ao tema. Dezenas de opiniões. Sócrates foi condenado e ilibado, o jornal Público foi deus e o diabo.
Houve no entanto um blogger, por acaso, ou se calhar nem por acaso, jornalista, que traduziu da forma mais equilibrada um olhar que se pode dizer ao mesmo tempo inteligente e pensado sobre o tema. Por isso, decidi centrar o observatório nele. Em Francisco José Viegas no blog Origem das Espécies. A saber:
Diz Viegas: “Não partilho a ideia da superioridade moral do jornalismo, e considero que José António Cerejo é um bom jornalista (...). Entrevistei Cerejo no longínquo «Falatório» (...), no dia a seguir à demissão de António Vitorino provocada pelo seu artigo no Público. (...) Foi já no estúdio que decidi alterar o guião; em vez de começar pelas perguntas da ordem (...), disse «boa noite, José António Cerejo, tem os seus impostos em dia?» Lembro-me da resposta de Cerejo, resumida: «Mas eu não sou um político.» Era um facto. Mas era bom saber-se se um jornalista que investiga um suposto deslize fiscal de um político deve estar, ou não, sujeito ao mesmo escrutínio. (...) Penso que os jornalistas devem fazer as suas declarações de interesses e devemos conhecê-las para não desconfiarmos (...) do que escrevem. (...)”

Mais à frente, diz Francisco:
“(...) A ideia de que o Público imprimiu estes artigos sobre José Sócrates movido pelo interesse da Sonae em derrubar o primeiro-ministro parece-me zunzum (...). Devemos desconfiar, sim; devemos sempre desconfiar. Mas convinha esclarecer o assunto, ou não?”.

Ponto no texto de Viegas: o rigor e a informação. Escreve ele:

”primeira parte: do ponto de vista do rigor da informação, a primeira peça de Cerejo (...) é inatacável; são factos; segunda parte: tem interesse público o conhecimento desses factos? Essa é outra matéria. (...) Fazer juízos de ordem moral é fácil, mas não é apenas isso que está em causa (...). Uma coisa é desconfiar das afirmações dos políticos; outra é desconfiar de todas as perguntas aos políticos. Há uns anos, num dos seus textos, Agustina Bessa-Luís falava do novo exemplar de homem político; que seria o homem comum. Infelizmente, referia-se a Santana Lopes. Viu-se”.
Do ponto de vista dos factos, Viegas escreve: “não é crime, já se sabe, fazer aquilo que Sócrates fez, se o fez; mas não é nada ético. (...) É um beco sem saída: se o fez, é mau; se elaborou os estudos e os projectos daquelas casas, é ainda pior. No primeiro caso, é mau politicamente. No segundo caso, é mau em geral”.
O que distingue este texto de Francisco José Viegas dos demais (e convêm notar que o resumi fortemente)? Uma noção fundada de equilíbrio. Sendo um jornalista, uma pessoa que conhece os meandros do meio e do poder, ele sabe como se constrói e destrói. Por isso, o seu texto no blog é, a um tempo, opinião e informação, porque para lá do que ele pensa, nos deixa um rasto de raciocínio para a nossa livre conclusão. Para se perceber o que penso, deve ler-se na integra. Aqui, ficam apenas sinais.

A blogosefera, pelo seu altíssimo teor de liberdade, não se compadece com equilíbrios – mas também não fica mal sublinhá-los, quando eles existem.

publicado por PRD às 23:48
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Estes textos são escritos para serem “falados”, ou “lidos”, pelo que não só têm algumas marca de oralidade (evidentemente, propositadas...) como é meu hábito improvisar um pouco “em cima deles” no momento em que gravo a rubrica. Também é relevante dizer que, dado tratar-se de uma “revista de blog’s” – e uma vez que os blog’s não se preocupam com a oralidade ou com a eventual citação lida dos seus textos -, tomo a liberdade de editar minimamente os textos que selecciono. Faço-o apenas para que, em rádio, não se perca a ideia do blogger pelo facto de escrever frases longas e muito entrecortadas. Da mesma forma, não reproduzo palavrões nem frases pessoalmente ofensivas, assim como evito acusações cuja possibilidade de prova é diminuta ou inexistente. Sendo uma humilde crónica de rádio, tinha ainda assim de ter alguns princípios. São estes. Quem tiver razão de queixa, não hesite!

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