Sexta-feira, 13 de Março de 2009

Blog da semana: Ephemera

Chamo-lhe blog porque me dá jeito e assim posso classificá-lo como blog da semana. Na verdade, é bem mais do que um simples blog – e tem assinatura reconhecida. Trata-se da mais recente iniciativa histórico-tecnológica de José Pacheco Pereira, chama-se EPHEMERA e esclarece na página de entrada que “tem como objectivo divulgar materiais da biblioteca e arquivo pessoais” do historiador e político, “em particular dos diferentes espólios, doações, ofertas e aquisições que deles fazem parte. Na medida do possível, do tempo e das circunstâncias, todos estes materiais estão acessíveis aos investigadores que deles necessitem para o seu estudo e trabalho, nos condicionalismos normais de uma biblioteca e arquivos privados. Dada a dimensão e qualidade de alguns dos materiais, (...) o meu objectivo, a prazo, é tornar disponível a todos este acervo”.

Ali está então em ephemerajpp.wordpress.com , e note-se que efémera se escreve com ph...

Além dos materiais diariamente digitalizados e organizados, às dezenas, às centenas, aos milhares, há histórias deliciosas como esta: “Devo uma biblioteca completa a um funeral e à lembrança de um dos homens que veio velar um morto e que negoceia em papel e sucata. Bateu-me à porta e disse-me que tinha comprado umas toneladas de papel, sob o formato de livros, e que talvez eu quisesse alguns. Ele preparava-se, conforme as regras da sua profissão, para rasgar as capas dos livros para separar o tipo de papel e maximizar a sua compra. Prometi que ia ver e fui logo a seguir.

Era um dia desta primavera sem chuva e o local onde estava armazenado o papel era no meio de um campo (...) Lá estavam os contentores completamente cheios de livros, à primeira vista apenas maltratados pela forma como foram carregados, mas escapados à perigosa destruição pela água por esta longa seca. Tirei um que estava em cima, uma das primeiras edições brasileiras de Jorge Amado, depois outro, uma novela portuguesa dos anos quarenta, e outro, um manual de instrução para os oficiais de cavalaria do século XIX. Comprei tudo de imediato, com a condição que ele não deitava fora um único papel, quer dos que estavam, quer dos que faltavam e que “jornais escuros” também faziam parte do acordo. Insisti, com uma velha suspeita habitual, que tudo era tudo, fosse o mais pequeno e amarfanhado resto de posologia de um medicamento. Se havia lixo, eu veria o que era lixo”

E assim foram para o arquivo de Pacheco Pereira mais 6 toneladas de papel. Repare-se como o historiador mostra sem qualquer espécie de embaraço a sua obsessão pelos papéis: ele quer todos, ele quer tudo. Ele é um homem de paixão. Ephemera é um serviço publico, um trabalho notável, algo que devia obviamente ser apoiado pelo estado. Não é – é de Pacheco Pereira e do seu amor pelo passado e pelo estudo. Admirável amor.

publicado por PRD às 19:12
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2 comentários:
De Luis Melo a 21 de Março de 2009 às 16:25
PRD, dizer bem de JPP na blogosfera... é quase sacrilégio :)

A julgar pelo que muitos têm dito sobre JPP nos últimos tempos.

E não o fazem pela sua valia ou competência, é só pelo simples facto de ele apoiar Ferreira Leite e afrontar José Sócrates...

O ephemera, tal como outros são excelentes contributos de JPP, é necessário reconhecê-lo. Bem haja.


De Tiago Moreira Ramalho a 25 de Março de 2009 às 23:00
Vi que já me citou algumas vezes (contei três) no programa. Queria apenas agradecer a distinção, que sabe sempre bem.

Uma opinião aqui deixada pode não se revestir de especial importância, mas ainda assim, gostaria de dizer que é bastante bom que haja um programa que chame a atenção para a blogosfera, que, apesar de dinâmica e bastante rica a meu ver, ainda não é alvo de especial atenção por parte do "exterior".

Cumprimentos


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PRD

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Estes textos são escritos para serem “falados”, ou “lidos”, pelo que não só têm algumas marca de oralidade (evidentemente, propositadas...) como é meu hábito improvisar um pouco “em cima deles” no momento em que gravo a rubrica. Também é relevante dizer que, dado tratar-se de uma “revista de blog’s” – e uma vez que os blog’s não se preocupam com a oralidade ou com a eventual citação lida dos seus textos -, tomo a liberdade de editar minimamente os textos que selecciono. Faço-o apenas para que, em rádio, não se perca a ideia do blogger pelo facto de escrever frases longas e muito entrecortadas. Da mesma forma, não reproduzo palavrões nem frases pessoalmente ofensivas, assim como evito acusações cuja possibilidade de prova é diminuta ou inexistente. Sendo uma humilde crónica de rádio, tinha ainda assim de ter alguns princípios. São estes. Quem tiver razão de queixa, não hesite!

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