Quinta-feira, 12 de Março de 2009

Sobre a inveja

Tomemos, a propósito de um post, uma palavra como exemplo: inveja. A inveja. Leio sobre o tema um texto excelente de Marta Caires no blog Delito de Opinião:

“Há uns anos, quando a crise ainda não tinha tomado conta dos espíritos, José Gil escreveu um livro sobre o medo de existir, esse terror português que pede desculpas por respirar, por ter ideias, por andar e viver. O filósofo avançava razões para este atavismo histórico, recuava à ditadura, ao que a revolução não fez e, por último, à essência da sociedade. E, lá, por detrás dos debates, foruns e antenas abertas (...), o investigador detectava a raiz do mal na inveja que despreza o mérito, deprecia a criatividade e condena ao silêncio tudo o que possa florescer e ter sucesso. A inveja, ainda que feia, é humana, até os santos a sentem. Inveja por alguém mais bonito, pela abundância, pela alegria, mas aquilo que mina as relações sociais não é este imponderável, essa fraqueza de querer a felicidade dos outros. O impulso é como a espuma na areia, desfaz-se e não deixa rasto. A inveja - a que se instituiu entre os portugueses - é patológica, obssessiva. Corre sinuosa nas apreciações negativas, na troça de pequenos nadas”.

Sigo a pista da inveja pelo lado contrário – a inveja que muitas vezes sentimos das coisas boas que nos faltam. Leio então José Saramago, no seu blog, a propósito do 11 de Março espanhol: “Em Espanha, solidarizar-se é um verbo que todos os dias se conjuga simultaneamente nos seus três tempos: presente, passado e futuro. (...) O 11 de Março não foi só um dia de dor e de lágrimas, foi também o dia em que o espírito solidário do povo espanhol ascendeu ao sublime com uma dignidade que profundamente me tocou e que ainda hoje me emociona quando o recordo. O belo não é apenas uma categoria do estético, podemos encontrá-lo também na acção moral. Por isso direi que poucas vezes, em qualquer lugar do mundo, o rosto de um povo ferido pela tragédia terá tido tanta beleza”.

Eu invejo este sentido espanhol que tantas vezes nos falta – como invejo o texto que Daniel Oliveira publicou sábado passado no Expresso. Não cabia aqui na janela – mas hoje vi que estava reproduzido no blog Babel, e passou a fazer sentido citá-lo. Pelo menos, citá-lo quando escreve: “No Trivial Pursuit nacional não se tira prazer ou conhecimento da leitura. Ela é o Ferrari que se exibe na praça da aldeia. Portugal tornou-se melómano quando Santana Lopes inventou uma obra de Chopin e literato quando Cavaco confundiu Thomas Mann com Thomas Moore. Num país encadernado mas sem livros, com imensa cultura de lombada mas sem gosto, habitado por citadores de banalidades e de filósofos espanhóis, a cultura é um penacho. (...) Num país em que tudo o que conta é a aparência, já cansa ver como a cultura só é assunto quando serve para humilhar o vizinho do lado. Por cá, como se lê pouco, quem cita um livro é Professor Doutor”.

E também este texto passa pela inveja, e assim a palavra começa e acaba esta Janela Indiscreta. Há dias assim...

publicado por PRD às 19:12
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1 comentário:
De Anónimo a 29 de Julho de 2009 às 00:10
Ora andava eu à procura deste tema.

Não me parece que o texto acima tenha imbuída inveja, uma vez que analisa a mesma. Tirando a parte final a refilar. Talvez mais frustração e pessimismo, insegurança ou foco mal direccionado, do que inveja.

Não concordo que inveja haja mais em portugal do que noutro país. cada qual constrói o seu mundo, Em relação ao textos para humilhar, bom, passa-me ao lado, mas cabe a cada um ignorar.

Se leio algo de que não gosto, ignoro.


Em relação à inveja quotidiana, essa sim.

Nem sempre conseguimos responder à altura/à letra, e entre a inveja mais comum, em locais públicos e mesmo no trabalho, em lojas, etc.

Há coisas que podemos ignorar.

Mas nem sempre conseguimos responder ou passar ao lado disso depois de um dia de trabalho.

E, quando queremos responder e estamos cansados, ou simplesmente não podemos por saúde, aí sim é complicado.

Ninguém gosta de ser maltratado.

Alguns comentários são delirantes, arriscam mesmo até a que as pessoas percam o emprego com a falta de educação.

E, curiosamente, muitos é dito e demonstrado em sítios onde a inveja seria supostamente retida. Mas a inveja da beleza é muito comum, e torna-se mais forte do que o próprio profissionalismo ou educação.

Tão comum, que mesmo nos lugares mais insuspeitos, ligados à estética, amesmo em ambiente de trabalho as pessoas não se coíbem de ser intrometidas e mal educadas, venenosas.

Frustração?

Talvez.

Mas isso só não justifica.

Acredito que as pessoas não invejam apenas a beleza, mas também a força.

Não considero a beleza uma futilidade, mas as aparências, a procura da aparência que não corresponde à essencia e genuinidade, seja a nível de imagem ou intelectua,l sim.

Mais do que uma futilidade, é uma tristeza e um vazio.

E não deixa de ser curioso que a inveja seja pouco comentada ou falada.

É subreptícia e pouca gente gosta de falar dela.

Nem toda a gente (pode ou) consegue.



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Estes textos são escritos para serem “falados”, ou “lidos”, pelo que não só têm algumas marca de oralidade (evidentemente, propositadas...) como é meu hábito improvisar um pouco “em cima deles” no momento em que gravo a rubrica. Também é relevante dizer que, dado tratar-se de uma “revista de blog’s” – e uma vez que os blog’s não se preocupam com a oralidade ou com a eventual citação lida dos seus textos -, tomo a liberdade de editar minimamente os textos que selecciono. Faço-o apenas para que, em rádio, não se perca a ideia do blogger pelo facto de escrever frases longas e muito entrecortadas. Da mesma forma, não reproduzo palavrões nem frases pessoalmente ofensivas, assim como evito acusações cuja possibilidade de prova é diminuta ou inexistente. Sendo uma humilde crónica de rádio, tinha ainda assim de ter alguns princípios. São estes. Quem tiver razão de queixa, não hesite!

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