Quinta-feira, 26 de Fevereiro de 2009

O quadro e o polícia

Este é mesmo um país de moralidades, ou da falta delas, ou em rigor de falsas moralidades. Publicas, privadas, secretas ou escancaradas. Há dois dias que não se fala de outra coisa senão da apreensão pela PSP de Braga dos livros de arte onde figurava na capa uma reprodução de um quadro do pintor Gustave Courbet, que foi considerado pornográfico por um anónimo que o denunciou à polícia. Como é normal nestes quadros, a PSP deve dar seguimento à denuncia publica. O quadro, que figura num dos mais famosos Museus de Paris, mostra uma mulher nua, é verdade. Mas é arte, convenhamos... “Como é Carnaval, aparentemente ninguém leva a mal”, escreve Pedro Sales

no Arrastão: “No espaço de uma semana, ficámos a saber que os delegados do Ministério Público e os agentes da PSP têm poder para, em nome de uma suposta moral vigente, apreender livros e censurar uma sátira de Carnaval. Fica o registo”.

No mesmo blog, Daniel Oliveira reflecte sobre as explicações da policia. A polícia diz: “Tratou-se de uma medida cautelar para evitar uma alteração da ordem pública e o cometimento de outros crimes” já que se estava perante a “iminência de confrontos físicos” no recinto da feira, já que havia pais que “não gostaram da situação, começaram a ficar inquietados e pediram aos organizadores que retirassem os livros”. Daniel comenta: “O caro cidadão fica a saber que, quando não gostar de um livro que esteja à venda, dê sinais que vai começar a bofetada e a PSP trata do assunto”.

Com muita graça Cristina Ferreira de Almeida titula o seu pequeno post com um implacável “Fora de Moda”: “Os PSPs de Braga estão completamente out com as tendências da pornografia. Qualquer criança percebe que aquela densidade capilar só pode ser arte. Intemporal, só mesmo a obra de Coubert, incómoda a este ponto mais de 150 anos depois da criação”.

No 31 da Armada, Vasco Campilho ironiza mas acaba por dar do facto uma imagem totalmente diferente: “A apreensão, mais do que acto censório, é uma performance artística em si mesma. No seu implacável legalismo, o gesto policial re-actualizou a afirmação estética  de um quadro que nunca se quis  respeitosamente admirado, e muito menos banalizado em reproduções displicentemente espalhadas por bancas de livreiros. E isso, caro leitor, é serviço público”.

No blog Jugular, Ana Matos Pires limita-se a um “Uóte?, pergunto eu de queixo no chão” – e afinal parece ser esta a síntese do olhar do blogoesfera sobre o tema. No fim da jornada, pergunto eu: era de esperar outra maneira de agir por parte dos agentes da autoridade em Braga? Eu acho que não, mas como diz o senhor comentador, fora isso tudo bem...

Sofia Bragança de Bucholz, no seu blog “As Fadas tb se enganam no Caminho”, contata que “este país está, de facto, a tornar-se um lugar estranho e perigoso: primeiro, a censura do magalhães no Carnaval de Torres Vedras; agora, os livros com as imagens de Gustav Courbet. E, amanhã, o que será?”

Bom, na noticia que o jornal Publico deu online há mais de 100 ligações para posts de blogues – ou seja, o tema mexeu com muita gente, por isso se arrasta há 2 dias e parece não ter fim á vista...

publicado por PRD às 00:12
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PRD

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Estes textos são escritos para serem “falados”, ou “lidos”, pelo que não só têm algumas marca de oralidade (evidentemente, propositadas...) como é meu hábito improvisar um pouco “em cima deles” no momento em que gravo a rubrica. Também é relevante dizer que, dado tratar-se de uma “revista de blog’s” – e uma vez que os blog’s não se preocupam com a oralidade ou com a eventual citação lida dos seus textos -, tomo a liberdade de editar minimamente os textos que selecciono. Faço-o apenas para que, em rádio, não se perca a ideia do blogger pelo facto de escrever frases longas e muito entrecortadas. Da mesma forma, não reproduzo palavrões nem frases pessoalmente ofensivas, assim como evito acusações cuja possibilidade de prova é diminuta ou inexistente. Sendo uma humilde crónica de rádio, tinha ainda assim de ter alguns princípios. São estes. Quem tiver razão de queixa, não hesite!

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