Quarta-feira, 18 de Fevereiro de 2009

O que não nos mata...

Ao longo destes 3 anos que já levo aqui à Janela, é natural que haja blogues mais citados do que outros, um facto natural quando se procura actualidade, opinião livre e diversa. Nesta matéria, João Gonçalves é um dos quase residentes, dado que escreve todos os dias, pensa bem, não tem medo das palavras e debruça-se quase sempre sobre temas da actualidade. No “Portugal dos Pequeninos”, João é um contra-corrente militante, um conservador, um céptico. Mas nunca um bajulador, jamais um pendura do croquete ou um profissional do tacho. Nada disso: um dos homens mais livres que encontro no mundo das ideias, e são tã poucos. Na maioria das vezes não estou de acordo com ele – mas isso não me impede de o destacar, porque esta Janela faz mesmo corrente de ar e tem espaço para todas as ideias.

Hoje, uma vez mais, foi no seu blog que encontrei o texto síntese que merece leitura integral, o olhar amargo – porém realista – do tempo que vivemos. Curiosamente, ele publica este texto no mesmo dia em que no blog Jugular Vasco M. Barreto escreve que “João Gonçalves é uma daquelas pessoas que vêem na antipatia uma prova de independência, talvez até uma virtude”. Vasco confunde antipatia com lucidez, e seguramente com desilusão. É uma confusão frequente, e que às vezes dá jeito – mas que fazer, se o mundo anda cinzento?

Apesar dessa classificação de “provavelmente o mais antipático dos blogues”, eu não deixo de pensar que estas palavras de João Gonçalves merecem o tempo que as vou demorar a ler:

“Parece que cada vez mais portugueses andam no psiquiatra e a comprimidos. Não admira. Num país onde não abunda a imaginação, em que vigora o mais rigoroso "amiguismo" e no qual a ambição cega não raras vezes substitui a inteligência e o esforço, dificilmente alguém se aguenta sem outra coisa qualquer. A sociedade actual nutre um profundo desprezo pelas emoções embora desenvolva "teses" e mais "teses" sobre a chamada "inteligência emotiva" que apresenta como um bem "democrático". Não se pode pedir às pessoas que sejam "racionais" quando, praticamente vinte e quatro horas por dia, vivem rodeadas de gente sem palavra e sem honra. Nunca a expressão "mundo cão" foi tão realista apesar de ofensiva para os nossos mais certos amigos. A fragilidade de tudo abana até o mais vigoroso optimista. Enfrentar a complexidade não diminui ninguém. Pelo contrário. Numa das poucas coisas interessantes que Hemingway escreveu, jaz aquela célebre frase: um homem pode ser destruído mas não pode ser derrotado. Esta anomia colectiva e pessoal em que vegetamos destrói-nos, de facto, mas não nos derrota. Para aqueles que a "vida material" abandonou, fica a certeza "nietzschiana: "o que não me mata torna-me mais forte."”.

Se este não é o post do mês, não sei que post será. Sem antipatia, com o olhar cortante da lucidez.

 

publicado por PRD às 01:06
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Estes textos são escritos para serem “falados”, ou “lidos”, pelo que não só têm algumas marca de oralidade (evidentemente, propositadas...) como é meu hábito improvisar um pouco “em cima deles” no momento em que gravo a rubrica. Também é relevante dizer que, dado tratar-se de uma “revista de blog’s” – e uma vez que os blog’s não se preocupam com a oralidade ou com a eventual citação lida dos seus textos -, tomo a liberdade de editar minimamente os textos que selecciono. Faço-o apenas para que, em rádio, não se perca a ideia do blogger pelo facto de escrever frases longas e muito entrecortadas. Da mesma forma, não reproduzo palavrões nem frases pessoalmente ofensivas, assim como evito acusações cuja possibilidade de prova é diminuta ou inexistente. Sendo uma humilde crónica de rádio, tinha ainda assim de ter alguns princípios. São estes. Quem tiver razão de queixa, não hesite!

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