Quarta-feira, 11 de Fevereiro de 2009

O tempo do medo

De vez em quando aparecem umas palavras a dominar o discurso publico: medo parece ser a palavra actual. Depois do socialista Edmundo Pedro ter falado no «medo» que alguns militantes socialistas têm de «falar», veio ontem O general Ramalho Eanes falar na existência de um clima de medo crónico de criticar, para não sofrer as consequências da critica. João Gonçalves, no Portugal dos Pequeninos, interroga-se sobre se Eanes fará “também parte da campanha negra”, e nota que Eanes “é mais discreto e não tem lobbies”, o que explica que a sua comunicação no Instituto de Defesa Nacional tenha tido menos expressão pública do que a de outros ex-presidentes.Esta história do medo irritou Paulo Gorjão, no Vox Pop: “Se têm medo, falem? Nomeadamente para denunciar o clima de medo? O medo é tema recorrente quando existem maiorias absolutas? Avivem-me a memória, por favor, quando Aníbal Cavaco Silva era primeiro-ministro, também se denunciava o clima de medo?”

Tomás Vasques fala do medo de que falou Edmundo Pedro. E diz: “Andam por aí umas almas moralistas a derramar lágrimas de crocodilo, (...) a propósito da sua intervenção numa reunião de militantes do PS (...) a denunciar o «medo» que alguns militantes socialistas têm de «falar». Como se Edmundo Pedro necessitasse de defensores de última hora. Edmundo Pedro nunca conheceu o medo de enfrentar a ditadura, a polícia política, a prisão e o Tarrafal, desde os 15 anos. Por isso, não se devia sensibilizar tanto com duas ou três dezenas de apparatchiks, gente que se tem «medo» de «falar» para não perder o emprego ou as mordomias que são, provavelmente, adquiridas em função da «militância» política e não da competência, compre um cão.  Edmundo Pedro devia demonstrar desprezo por essa gente que diz ter «medo» em democracia, quando ele nunca teve medo em ditadura. Mais nada”.

Olhando o tema sobre outro prisma, Francisco José Viegas, no seu renovado blog Origem das Espécies, é pedagógico e o seu post parece-me exemplar sobre a matéria: “O medo, em democracia, combate-se falando alto e bom som, coisa que não se podia fazer durante a ditadura, com imprensa silenciada. Se é medo de «perder o emprego», talvez aconteça que o emprego tenha sido oferecido em troca de silêncio (...); se é medo de violência física, tipo «eles batem-me pela calada da noite» ou «dão-me um tiro no joelho», pois que se denuncie abertamente, publicamente, diante do Presidente, do PGR, da imprensa - com provas, papéis, documentos, ameaças visíveis e invisíveis. Quem está aí, entre gente crescida, que tenha medo? Medo de não ter subsídio ou dos chefes na repartição? Medo de Augusto Santos Silva? Que mariquinhas. O medo é um dos inimigos da democracia; deve combater-se com dignidade e voz à altura. Apregoar aos sete ventos que «estou cheio de medo» não é uma garantia do denunciante; é uma amostra de mariquice. Medo? Não me lixem. Se têm medo, falem”.

No caso de Eanes como no de Edmundo Pedro, a ideia aplica-se: se há medo, mais fale falar. Readaptado provérbio popular, quem canta seus medos espanta...

publicado por PRD às 22:51
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2 comentários:
De Luis Melo a 12 de Fevereiro de 2009 às 16:09
Ja desde o caso do médico em Vila Verde (o comentário jocoso), do professor Charrua no Porto, e de outros casos como este, se nota que o Governo é um pouco ditador.

E por isso é natural ouvir muita gente que trabalha para o estado, a dizer que "tem medo"... Mas isto surpreende assim tanta gente?

So quem não queria ver...


De Vitor Soares Maganinho a 14 de Fevereiro de 2009 às 00:16
http://matosinhosonline.blogspot.com/2009/02/socrates-na-boite.html


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Estes textos são escritos para serem “falados”, ou “lidos”, pelo que não só têm algumas marca de oralidade (evidentemente, propositadas...) como é meu hábito improvisar um pouco “em cima deles” no momento em que gravo a rubrica. Também é relevante dizer que, dado tratar-se de uma “revista de blog’s” – e uma vez que os blog’s não se preocupam com a oralidade ou com a eventual citação lida dos seus textos -, tomo a liberdade de editar minimamente os textos que selecciono. Faço-o apenas para que, em rádio, não se perca a ideia do blogger pelo facto de escrever frases longas e muito entrecortadas. Da mesma forma, não reproduzo palavrões nem frases pessoalmente ofensivas, assim como evito acusações cuja possibilidade de prova é diminuta ou inexistente. Sendo uma humilde crónica de rádio, tinha ainda assim de ter alguns princípios. São estes. Quem tiver razão de queixa, não hesite!

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