Terça-feira, 3 de Fevereiro de 2009

A economia da minha rua

A crise, a economia, os despedimentos, as falências – há um mundo triste e cinzento que cresce à nossa volta. O momento que vivemos tem obviamente reflexo no mundo dos blogues e às vezes ganha contornos notáveis. Repare-se neste curto post de Cristina Ferreira de Almeida no Delito de Opinião sob o titulo “A Economia na Minha Rua”:

“Primeiro foram-se embora os chineses. Partiram de repente, numa noite, deixando ocas as grandes lojas, antes cheias de tarecos coloridos. Depois foi-se embora o merceeiro, numa tarde o senhor Ildefonso despediu-se das velhas chorosas e partiu para a terra na carrinha Ford vermelha a deitar fumo pelo escape. A dependência do Deutsch Bank, que enchia a rua de orgulho com o seu toque cosmopolita, passou a estar de porta fechada (...). Por isso, quando se viu que uma nova loja abrira as cabeleireiras brasileiras pararam de esticar o cabelo umas às outras, as velhas enxugaram as lágrimas pelo senhor Ildefefonso e a rua toda foi espreitar a abertura da boutique dos angolanos. Espero que o facto de ao cabo de uma semana ninguém ter comprado uma capulana sequer não os faça desanimar, porque estou cansada de metáforas”.

Fiquei rendido à sensibilidade e saber com que se pode revelar o estado de um país. Estado que passa pelo sentimento, naturalmente. Que sentimento é esse que nos assalta e nos cerca? Medo, como escreve João Távora no Risco Contínuo? Vejamos: “Numa altura em que a crise económica desce (...) para a vida das pessoas (...), o medo, esse possante sentimento animal, ganha terreno no nosso quotidiano. Isso preocupa-me muito. O medo é uma afecção psicológica muito estranha, quase perversa: tanto nos salva da morte à beira do precipício como nos inibe de alguma redentora conquista. O medo é o principal inimigo da realização humana, e o maior adversário da liberdade individual. (...) O medo liquida a democracia. E se o medo potencia a inércia e a omissão, também acciona a violência irracional”.

Nem por acaso, no mesmo momento chegam notícias do Reino Unido que fala, como conta João Gonçalves, de “trabalhadores domésticos de umas refinarias” que “não querem portugueses e italianos a sonegar-lhes os postos de trabalho”. João lembra que “o derradeiro refúgio dos desesperados” pode ser, “por exemplo, o nacionalismo (...). Como em 1914 em Sarajevo. Como em 1932 na Alemanha”. À esquerda, João Galamba, no Jugular, acha que “Algum nacionalismo é inevitável. Resta tentar geri-lo e fazer o possível para que ele não degenere em extremismos manipulados pela extrema-direita”. Do lado liberal, o olhar é outro, como encontro em Luciano Amaral: “Depois de anos de uma cada vez maior integração económica, (...) vemos agora trabalhadores ingleses a manifestarem-se contra trabalhadores estrangeiros, trabalhadores gregos a atacarem trabalhadores búlgaros, o Presidente dos EUA a pedir que os americanos “comprem produtos americanos”, vários países a protegerem os produtos nacionais. Já foi assim no mundo dos anos 30 do século XX. Não era isto que queriam os que não gostavam da globalização?”

E assim estamos, entre a economia da minha rua, o medo e o desespero. Tudo ligado, tudo demasiado ligado...

publicado por PRD às 22:37
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Estes textos são escritos para serem “falados”, ou “lidos”, pelo que não só têm algumas marca de oralidade (evidentemente, propositadas...) como é meu hábito improvisar um pouco “em cima deles” no momento em que gravo a rubrica. Também é relevante dizer que, dado tratar-se de uma “revista de blog’s” – e uma vez que os blog’s não se preocupam com a oralidade ou com a eventual citação lida dos seus textos -, tomo a liberdade de editar minimamente os textos que selecciono. Faço-o apenas para que, em rádio, não se perca a ideia do blogger pelo facto de escrever frases longas e muito entrecortadas. Da mesma forma, não reproduzo palavrões nem frases pessoalmente ofensivas, assim como evito acusações cuja possibilidade de prova é diminuta ou inexistente. Sendo uma humilde crónica de rádio, tinha ainda assim de ter alguns princípios. São estes. Quem tiver razão de queixa, não hesite!

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