Segunda-feira, 12 de Janeiro de 2009

O frio na TV

O frio – eis o que abre noticiários e domina as atenções. O país a bater o dente e alguma paralisação nos cérebros de quem tem de noticiar o assunto. Nuno Duarte, no blog Risco Contínuo, não estranha: “Depois do congelamento salarial, do arrefecimento da economia, do gelo nas relações internacionais e do Inverno da acção social será assim tanto de estranhar este frio?”.

Na verdade, no jogo de palavras, o frio e a crise juntam-se na mesma esquina. Penim Redondo, no blog Dote Come, vê as noticias na TV  indignado: o Telejornal diz que a Protecção Civil recomenda “que, em caso de frio, se vista várias peças de roupa em vez de só uma. Eu pergunto-me: que ideia terá esta gente acerca do povo? Consideram-nos a todos tão imbecis que nos aconselham o instintivo e o óbvio?”.

A este propósito, o experiente transmontano Francisco José Viegas, no Origem das Espécies, surpreende-se com a imagem que temos do nosso próprio clima: “Não sei quem meteu na cabeça das novas gerações a ideia de que somos um país de clima moderado. Não somos. Portugal é destemperado. Só isso explica a parvoíce e a histeria dos jovens jornalistas que se exaltam com temperaturas negativas como se fosse o fim do mundo”.

Noutro post, Viegas ironiza ainda com a cobertura televisiva do tema: “Aparece uma repórter embrulhada em roupa importada do Canadá, de microfone estendido, procurando reacções ao frio em Bragança, Vinhais, Montalegre, Terras de Bouro ou Manteigas. Encontra um grupo de cidadãos locais a quem aponta o microfone: «Então, está frio?» Os cidadãos locais entreolham-se: «Está, de facto, está frio... Em Agosto não está assim...» Ela: «Mas está mesmo frio, não está?» Os cidadãos locais, voltando-se de novo para a repórter: «Sim, sim, é capaz de nevar, é...» (...) E o cidadão local ajeita um pouco o casaco sobre a camisa de flanela: «Bom, no ano passado nevou por esta altura.» Ela: «Nevou? Brrrr... E então como é que fazem?» O cidadão local: «Agasalhamo-nos. Acendemos a lareira mais cedo e tal, um bagacito, e esperamos que passe. (...) Em Janeiro não vamos para a rua em tronco nu, pelo menos de manhãzinha.»

Realmente, muitas vezes estas reportagens sobre o tempo são, enfim, mais do mesmo, ou o mesmo de nada. Pedro Correia, no “Delito de Opinião”, conta outro momento: «"Os portugueses tremem de frio", conclui, categórica, a repórter da SIC no lançamento de uma peça em que fala com um "senhor António", comerciante. Este garante que "os homens não gostam de collants porque cola muito ao corpo e faz comichão". Não sei se os homens a que o senhor António, comerciante, faz referência são "os portugueses", como a repórter qualifica os habitantes cá do rectângulo, esquecendo os das ilhas. Mas fiquei a saber que os ucranianos, angolanos, cabo-verdianos e brasileiros residentes em Portugal não "tremem de frio". Boa notícia para eles: assim não precisam de collants».

É o que dá quando as noticias são não-noticias, ou noticias sem nada dentro. A não ser, é claro, muito frio, gelo e neve...

publicado por PRD às 23:25
link do post | comentar
2 comentários:
De Luis Melo a 13 de Janeiro de 2009 às 15:19
A afirmação no Risco Contínuo "Depois do congelamento salarial, do arrefecimento da economia, do gelo nas relações internacionais e do Inverno da acção social será assim tanto de estranhar este frio?" é hilariante... hehehe... muito bom.


De A Mesa Redonda a 20 de Janeiro de 2009 às 09:45
A Mesa Redonda já comentou a candidatura ao Mundial de 2018!

Veja isso e muito mais seguindo por aqui:

http://amesaredonda.blogspot.com/2009/01/mundial-2018.html


Comentar post

PRD

Pesquisar blog

 
Estes textos são escritos para serem “falados”, ou “lidos”, pelo que não só têm algumas marca de oralidade (evidentemente, propositadas...) como é meu hábito improvisar um pouco “em cima deles” no momento em que gravo a rubrica. Também é relevante dizer que, dado tratar-se de uma “revista de blog’s” – e uma vez que os blog’s não se preocupam com a oralidade ou com a eventual citação lida dos seus textos -, tomo a liberdade de editar minimamente os textos que selecciono. Faço-o apenas para que, em rádio, não se perca a ideia do blogger pelo facto de escrever frases longas e muito entrecortadas. Da mesma forma, não reproduzo palavrões nem frases pessoalmente ofensivas, assim como evito acusações cuja possibilidade de prova é diminuta ou inexistente. Sendo uma humilde crónica de rádio, tinha ainda assim de ter alguns princípios. São estes. Quem tiver razão de queixa, não hesite!

Textos recentes

...

Blog da Semana: As Penas ...

Outra vez o casamento ent...

Em dia

Lhasa de Sela

O ritual de Cavaco

2010

Blog do Ano 2009: O Alfai...

O ano 2009 - II

O ano 2009 - I

Arquivos

Outubro 2011

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

favorito

Leituras de sábado

Declaração de voto

Seis anos já cá cantam.

Na melhor revolução cai a...

Subscrever feeds