Quinta-feira, 8 de Janeiro de 2009

Israel e a Palestina

A tentação é grande: reduzir o conflito no médio-oriente a uma espécie de bipolarização entre quem defende os palestinianos e os israelitas. É absurdo e mesquinho, mas é um pouco assim que o debate corre no mundo dos blogues.

Talvez por isso, e num primeiro olhar sobre o conflito, trago apenas dois posts sobre o tema. O primeiro é assinado por Rui Bebiano no blog Terceira Noite e começa brilhantemente: ”A guerra não é um grande momento para subtilezas e elegâncias, salvo para quem, numa posição de segurança, dela se queira servir como de um tabuleiro de xadrez. Quando a vida e a morte se confrontam, quando o medo e a impiedade se olham de frente, é impossível pensar com ponderação e falar serenamente. (...) Nesses momentos a linha que separa coragem e cobardia, júbilo e lamento, controlo e descontrolo, torna-se invisível, e qualquer um, em poucos segundos, passa de cordeiro a lobo”.

Situado e enquadrado, Rui Bebiano diz o essencial que vale a pena ser dito: “Observamos por todo o lado manifestações cegas, claras deturpações e mesmo mentiras (...). E reconhecemos posições que, de tão marcadas pela «ira da guerra», se mostram inúteis, contraditórias e perigosas. Não parece que devamos ir para a rua gritar indiscriminadamente «a favor do Hamas» ou «contra Israel», sendo apenas «pelos palestinianos» e «contra os judeus». Nem escolher obrigatoriamente a posição contrária, de aplauso de tudo aquilo que o governo israelita resolva fazer, incluindo o bombardeamento metódico de populações civis com as quais os «heróicos combatentes» do Hamas resolveram misturar-se. No levantamento de uma forte corrente da opinião pública internacional, partilhando a convicção de que a paz é possível – a paz, não apenas mais um cessar-fogo – e pressionando os governos para que tomem iniciativas sérias nesse sentido, residirá mais tarde ou mais cedo uma boa parte da solução”.

O segundo texto que vale a pena ler na integra, e aqui não cabe todo, é assinado por Carlos Guimarães Pinto no blog O Insurgente. Ele passou a última semana na Jordânia, pais maioritariamente palestiniano. Mais do que um post, é uma pequena reportagem onde se sublinha a desinformação reinante e se desmontam alguns dados adquiridos: “Nas conversas com a população local cheguei à mesma conclusão que em conversas anteriores com palestinianos. A maioria considera que a solução ideal seria o desaparecimento do estado de Israel, embora quase todos considerem que estariam dispostos a aceitar a co-existência. Não surpreendentemente, quanto mais nova e mais iletrada a pessoa com quem se fala, maior a probabilidade de este ter uma posição extremista. Os mais velhos, os que melhor falavam inglês e a única mulher Palestiniana com quem falei tendem a ter posições mais moderadas”. (...) “Outro facto que para mim acabou por ser mais surpreendente é a percepção que a população tem do que está a acontecer em Gaza. Quem não tivesse acesso a orgãos de informação, e falasse apenas com a população local ficaria a pensar que o exército Israelita está a alvejar prioritariamente crianças. O papel das crianças na propaganda da causa Palestiniana ficaria ainda mais evidente nas manifestações a favor da causa Palestiniana que tive a oportunidade de presenciar”. E remata Carlos Guimarães Pinto: “Do que vi e ouvi, fiquei convencido que ainda há muito caminho para percorrer para convencer a população da necessidade de uma co-existência pacífica. Este ataque a Gaza (...) está a servir os intentos do Hamas em unir a população Palestiniana em seu redor.”

Em ambos os casos, pela serenidade da análise de Rui Bebiano ou pelo sentido de observação de Guimarães Pinto, estamos perante textos esclarecedores, relevantes, e que passam para lá da espuma dos dias. E numa guerra que mata todos os dias, numa guerra que envergonha a humanidade, seja qualquer for a nossa opinião, pensar antes de falar é ainda o melhor remédio. Dentro e fora do mundo dos blogues.

publicado por PRD às 23:23
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Estes textos são escritos para serem “falados”, ou “lidos”, pelo que não só têm algumas marca de oralidade (evidentemente, propositadas...) como é meu hábito improvisar um pouco “em cima deles” no momento em que gravo a rubrica. Também é relevante dizer que, dado tratar-se de uma “revista de blog’s” – e uma vez que os blog’s não se preocupam com a oralidade ou com a eventual citação lida dos seus textos -, tomo a liberdade de editar minimamente os textos que selecciono. Faço-o apenas para que, em rádio, não se perca a ideia do blogger pelo facto de escrever frases longas e muito entrecortadas. Da mesma forma, não reproduzo palavrões nem frases pessoalmente ofensivas, assim como evito acusações cuja possibilidade de prova é diminuta ou inexistente. Sendo uma humilde crónica de rádio, tinha ainda assim de ter alguns princípios. São estes. Quem tiver razão de queixa, não hesite!

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