Quarta-feira, 31 de Dezembro de 2008

Blog do ano 2008: Ouriquense

Ultimo dia do ano, dia certo para escolher o meu blog do ano. Não é o blog da semana, nem o do mês – é aquele que marcou o meu ano 2008, e não necessária nem essencialmente por ser actual, diário, em cima do acontecimento.

Nada disso: a minha escolha resulta da soma de critérios que decidi aplicar este ano. Escolhi um blog anónimo – para contrariar a ideia dos blogs anónimos cobardes e mentirosos. Este é anónimo e sério. Escolhi um blog só de texto – para voltar à origem e tudo fazer sentido. Escolhi um blog onde a língua portuguesa, a imaginação, e a criatividade mandam e orientam tudo o resto.

Escolhi, então, como blog do ano da Janela Indiscreta da Antena 1, o blog “Ouriquense”. Podem encontrá-lo em ouriquense.blogs.sapo.pt/.  Um blog que começou assim, em Julho passado: “Entrei no cacilheiro de bicicleta e fiz a travessia do rio ainda de madrugada, sem olhar sequer uma vez para Lisboa. Quem voltou a não apreciar esta minha dimensão teatral foi o meu irmão, a quem pedi que me levasse os pertences de carro. Pedalei até Alcácer do Sal, onde cheguei já de noite. Aí pernoitei, fazendo-me à estrada ao raiar do dia. Consegui chegar  à vila ao fim da tarde, isto é, ontem. O meu irmão já lá não estava, mas deixou-me os pertences na casa que aluguei, incluindo o computador e a ligação wireless. Eremita ma non troppo.”.

Este eremita, falso ou verdadeiro, não me interessa, olha o mundo a partir de Ourique desde esse dia de Julho. É de lá que vê Portugal, o mundo, e a si próprio também. O Ouriquente pensa e sente assim: ”Por mais que viva, não sei se o meu tempo se estende até ao antigamente. Não me lembro de ver o largo como o centro do mundo. Pode ser que Ourique não seja como Santiago do Cacém. Não havia um centro, mas dois ou três. E hoje o centro social da vila fica mesmo à entrada - para quem prefere interpretar o facto como um sinal de boas vindas - ou à saída - interpretação que aponta para um desejo de emigrar sublimado. Mas se o largo nunca chegou a fazer de largo, antigamente a cozinha era mesmo o centro do mundo”. O Ouriquense “é da província e luta contra a hegemonia dos blogues de Lisboa, do Porto e também contra Vital Moreira, esse provinciano não assumido. Quanto ao número de visitas, o blogue falhou, mas o seu autor alimenta a convicção profunda de este ser o seu projecto mais maduro desde que se iniciou na blogosfera”. O Ouriquense, por fim, reconhece que “Falta a Ourique dimensão. Não me refiro à massa crítica para atrair os agentes culturais, mas a um conjunto de ruas grande o suficiente para funcionar como um labirinto e albergar uma diversidade de ofícios  - porteiros, prostitutas, polícias, paquetes e pornógrafos - que permitam a um homem perder-se e ter encontros fortuitos que o distraiam, como em After Hours”.

Ainda assim, e desconfiado de que o Ouriquense vive numa terra maior do que Ourique e tem horizontes mais largos do que os que dominam a terra alentejana, não tive duvidas em confirmar que aquele é o blog do ano. Por tudo – mas especialmente por esse quase nada que é o talento raro para criar, imaginar, e viver o que na verdade não se vive mas parece que se pode viver. Melhor é impossível. E venha então o tal do 2009...

publicado por PRD às 10:27
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2 comentários:
De vítor sá @ BIFE RadioShow a 31 de Dezembro de 2008 às 21:00
Caro Pedro,

auguro-lhe um 2009 sem Deflação de Felicidade
e cheio de Boas vibraSons na rádio e na blogosfera!...


;)


De Luis Melo a 1 de Janeiro de 2009 às 18:29
Não conhecia o blog... é muito bom... engraçado sem dúvida. Bom 2009 !


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Estes textos são escritos para serem “falados”, ou “lidos”, pelo que não só têm algumas marca de oralidade (evidentemente, propositadas...) como é meu hábito improvisar um pouco “em cima deles” no momento em que gravo a rubrica. Também é relevante dizer que, dado tratar-se de uma “revista de blog’s” – e uma vez que os blog’s não se preocupam com a oralidade ou com a eventual citação lida dos seus textos -, tomo a liberdade de editar minimamente os textos que selecciono. Faço-o apenas para que, em rádio, não se perca a ideia do blogger pelo facto de escrever frases longas e muito entrecortadas. Da mesma forma, não reproduzo palavrões nem frases pessoalmente ofensivas, assim como evito acusações cuja possibilidade de prova é diminuta ou inexistente. Sendo uma humilde crónica de rádio, tinha ainda assim de ter alguns princípios. São estes. Quem tiver razão de queixa, não hesite!

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