Quarta-feira, 28 de Maio de 2008

"Programa" ou "Propaganda"

 

Aqui há dias, no jornal Expresso, Miguel Sousa Tavares contava a história de uma frase, sobre os professores, que ele jamais havia escrito ou dito mas tinha-se propagado e multiplicado pela Internet por causa de um blog. Uma forma de, uma vez mais, o jornalista meter todo o mundo dos blogues num saco muito feio.

Bom: o mundo dos blogues não é mais do que a reprodução, á escala de um computador, do nosso próprio mundo. Tem de tudo. Génio, talento, generosidade, maldade, inveja, amor, paixão, ódio, enfim...

Como tem tudo, tem também esses momentos menos felizes. Para que o Miguel não pense que é a única vitima desse fenómeno da má interpretação, do abuso ou mesmo de maldade, eis um caso desta semana passado com uma pessoa bem menos conhecida.

Falo de Luís Pedro Nunes, comentador do programa Eixo do Mal da SIC Noticias. Não sei onde começou a história, mas eu apanhei-a, se calhar já em andamento, no blog Mar Salgado e dizia assim, sob o irónico titulo “Um País sem Liberdade de Expressão”: “Luís Pedro Nunes, jornalista do Público, acaba de dizer o seguinte (no programa "Eixo do Mal" ): Quando as empresas portuguesas vão negociar ao estrangeiro, levam "um garoto de programa" que é o José Sócrates. É para correr no calçadão. Dizem assim: "Ó Zé, corre aí! " E ele corre.

Um dia depois, aterro no Blogexisto de João Pinto e Castro e leio o seguinte:

“Ontem, citei aqui uma declaração atribuída pelo Mar Salgado a Luís Pedro Nunes. Hoje, o próprio corrigiu as afirmações que lhe foram imputadas num mail que me enviou: (...) Disse "garoto propaganda" e não de "programa", como foi escrito
Parece-me que faz toda a diferença, não? A ter sido assim (...) é claro que faz toda a diferença, pelo que lamento ter reproduzido palavras que afinal não terão sido ditas”.

Bom, no blog Mar Salgado já lá estava um comentário que chamava a Luís Pedro Nunes “jornaleiro de programa”. Ao mesmo tempo, vou lendo noutros blogues a mesma expressão que o jornalista, na verdade, não disse. O mesmo sucedeu com Daniel Oliveira, que no seu Arrastão disse: “Eu sei que há aí muita gente a confundir programa com propaganda, mas são coisas diferentes. E com esta pequena alteração a frase ganhou todo um outro significado. Essa malícia, essa malícia”...

Sejamos claros: nesta amplificação que o mundo dos blogues sempre inspira, uma frase citada pode repentinamente tornar-se um monstro. Como dizia no começo, Miguel Sousa Tavares queixou-se disso mesmo, até porque já sofreu na pele outros momentos no passado. Agora, uma expressão – garoto de propaganda – passa a garoto de programa, e com essa mudança tudo muda.

Deixo a história, deixo também o recado: como no mundo real, como na conversa de vizinhas ou na noticia de jornal, convém alimentar a mesma ideia: não acreditar em tudo o que nos dizem. Ou, como me ensinou um dos muitos bons chefes que tive no jornalismo: “a notícia de uma morte deve sempre ser confirmada pelo assassino e pela vitima. Se a vitima não puder confirmar, a noticia está correcta...”

publicado por PRD às 18:45
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1 comentário:
De Cristina a 3 de Junho de 2008 às 18:04
"Quem conta um conto, acrescenta-lhe um ponto!" é o velhinho ditado, sempre correcto!

Cumprimentos


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PRD

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Estes textos são escritos para serem “falados”, ou “lidos”, pelo que não só têm algumas marca de oralidade (evidentemente, propositadas...) como é meu hábito improvisar um pouco “em cima deles” no momento em que gravo a rubrica. Também é relevante dizer que, dado tratar-se de uma “revista de blog’s” – e uma vez que os blog’s não se preocupam com a oralidade ou com a eventual citação lida dos seus textos -, tomo a liberdade de editar minimamente os textos que selecciono. Faço-o apenas para que, em rádio, não se perca a ideia do blogger pelo facto de escrever frases longas e muito entrecortadas. Da mesma forma, não reproduzo palavrões nem frases pessoalmente ofensivas, assim como evito acusações cuja possibilidade de prova é diminuta ou inexistente. Sendo uma humilde crónica de rádio, tinha ainda assim de ter alguns princípios. São estes. Quem tiver razão de queixa, não hesite!

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