Quinta-feira, 10 de Abril de 2008

O acordo sem acordo

Sendo a blogoesfera uma plataforma onde o texto, a palavra escrita, ainda tem um valor superior, primário, relevante, não surpreende o amplo debate que o acordo ortográfico está a suscitar.
Começo por notar que os autores do Booktailors, o blog de edição que se encontra em http://blogtailors.blogspot.com, fazem um acompanhamento muito atento e interessado do tema, e foi lá que encontrei a frase que define tudo: “Nunca um acordo foi tão contrário ao seu nome”.
Assim é, como constata também, no Geração de 60, Gonçalo Pistacchini Moita: “É lamentável, de facto, que num prazo de um século não tenhamos sido capazes de propor-nos uma estratégia ancorada na nossa história e na nossa língua, a qual fosse capaz de dar sentido a este, ou outro, acordo ortográfico. Porque o acordo ortográfico me parece bom na vigência de um país. E é isso que nos falta: a vigência de um país”. Deixa depois uma série de perguntas sem resposta e uma ultima que dá que pensar: “Será que ainda queremos Portugal?”.
JCS, no blog Lóbi, concorda com o que aí vem: “está bem apanhado”, escreve ele e explica: “Não tenho receio de começar a escrever português com sotaque do Brasil. Uniformizar a comunicação de duzentos milhões é o melhor que pode acontecer à Língua Portuguesa. Por outro lado, como sou adepto da economia de letras, também neste caso acho que o Acordo Ortográfico faz uma razoável limpeza. Só gostava que se tivesse libertado o apóstrofo, esse último grito na eficiência da linguagem escrita”.
Paulo Pinto Mascarenhas, no Atlântico, é pragmático na análise: “teremos de ser realistas - e não cumprir o acordo talvez seja morder a nossa Língua”. No mesmo blog, Ana Margarida Craveiro acha o acordo inútil porque “não resolve problemas antigos, e ainda consegue acrescentar novos” E diz: “Gosto da riqueza desta língua, que em nada impede a leitura. Gosto das diferenças, que espelham o nosso crescimento paralelo, as nossas histórias, as nossas culturas”.
Outro olhar, o de João Miranda no Blasfémias: “O Acordo Ortográfico tem como primeira consequência a criação de uma nova norma ortográfica. Tínhamos duas normas, a brasileira e a portuguesa. Agora passamos a ter três: a brasileira, a portuguesa e a do acordo ortográfico. (...) Tínhamos duas comunidades lingüísticas que se entendiam perfeitamente.

Vamos ter três. A função da terceira é confundir o que estava claríssimo”.
Por fim, um homem cuja escrita não deixa duvidas sobre a autoridade com que manifesta opinião. Por isso me calo e deixo falar Pedro Mexia, blog Estado Civil. Declara: “Não sou adepto deste Acordo Ortográfico”. E argumenta: “Aquilo que francamente me desagrada é o critério fonético. Se isto é um acordo ortográfico, que apenas modifica a língua escrita, não me parece sensato que a ortografia siga sempre o critério do português falado. (...) A língua falada é a que utilizamos todos os dias, (...) Mas a língua, enquanto legado, vive nos textos, e acima de tudo na grande literatura. (...) É o português escrito que dá identidade à língua portuguesa. Alterar o modo como escrevemos a partir do modo como falamos é uma ideia muito discutível”.

publicado por PRD às 03:45
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3 comentários:
De Bic Laranja a 12 de Abril de 2008 às 14:14
Pois!...


De Paulo Freixinho a 22 de Abril de 2008 às 01:03
Como autor de Palavras Cruzadas, vejo o acordo como uma "oportunidade".
Como português, não gosto do acordo. Há quem diga que irá ajudar a combater o analfabetismo em África e no Brasil?!...

Há dias, ouvi uma jornalista brasileira dizer que a Globalização tem destas coisas e que Portugal tinha os livros muito caros...

Como quem diz: "senhores editores... estão feitos!"

Eu falei em "oportunidade", mas com o andar da carruagem, estou mesmo a ver que os jornais começam mas é a publicar Palavras Cruzadas de autores brasileiros...

Cumprimentos,
Paulo Freixinho


De rakiel a 23 de Abril de 2008 às 16:30
Um comentário apenas para reiterar as palavras de Pedro Mexia do blog Estado Civil... Faço minhas as suas palavras... e em bom Português!
Convido-os a ler o que penso do assunto no meu cantinho...


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Estes textos são escritos para serem “falados”, ou “lidos”, pelo que não só têm algumas marca de oralidade (evidentemente, propositadas...) como é meu hábito improvisar um pouco “em cima deles” no momento em que gravo a rubrica. Também é relevante dizer que, dado tratar-se de uma “revista de blog’s” – e uma vez que os blog’s não se preocupam com a oralidade ou com a eventual citação lida dos seus textos -, tomo a liberdade de editar minimamente os textos que selecciono. Faço-o apenas para que, em rádio, não se perca a ideia do blogger pelo facto de escrever frases longas e muito entrecortadas. Da mesma forma, não reproduzo palavrões nem frases pessoalmente ofensivas, assim como evito acusações cuja possibilidade de prova é diminuta ou inexistente. Sendo uma humilde crónica de rádio, tinha ainda assim de ter alguns princípios. São estes. Quem tiver razão de queixa, não hesite!

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