Quinta-feira, 3 de Abril de 2008

Divórcios

Há temas que, não sendo de actualidade imediata, acabam por saltitar pelos blogs ao longo dos dias, sem que constituam uma vaga de fundo, mas mantendo interesse e a chama acesa. É o caso do fim do divórcio litigioso, que tem motivado algumas opiniões que vale a pena registar. Bruno Sena Martins, no blog Avatares de um Desejo, acha que a medida é “da mais elementar lógica de livre arbítrio (...). Mas a festa continua, acha o Bruno. Com o fim do conflito nos tribunais, “há uma dimensão de retaliação que se vai transferir para a rua. A vingança do despeitado, que dantes se traduzia em termos processuais, vai voltar a animar o condomínio com as clássicas peixaradas. Mais barato e mais saudável”.
José Teófilo Duarte, no Blog Operatório, também concorda: “O divórcio, tal como o casamento, são acordos que devem ser tratados entre as partes envolvidas. A sua permissão em absoluta liberdade não dita um fim para a instituição que une duas pessoas. Antes consolida a possibilidade de perceber o seu funcionamento. Ninguém é feliz por decreto. Procura-se a felicidade experimentando: às vezes a gente engana-se; outras não. É a vida”.
Já o autor do Portugal dos Pequeninos, João Gonçalves, vê o tema de modo diferente:

“O casamento, escreve ele, não é um contrato vulgar como o de arrendamento nem um laboratório para testar vontades e brincar às casinhas. As pessoas não constituem direitos reais e têm, sobretudo, a liberdade de não casar. Entende-se por pessoas aqueles que (...) supostamente possuem valores e uma ética. Tal inclui a noção de culpa, a destrinça entre bem e mal. Banalizar estes conceitos, ou anulá-los pela força da lei, é, todavia, o caminho dos "tempos"”.
Francisco Nunes Vicente, no Mar Salgado, leu o Portugal dos Pequeninos e respondeu-lhe: “A culpa não acaba por decreto, fique descansado o meu caro João. Vai continuar a haver muita, para deleite (e proveito) dos psicólogos (...). Depois da assinatura da concordata (...), o divórcio disparou em Portugal. E a culpa não acabou, não senhor”.
Por fim encontro Adolfo Mesquita Nunes, no blog Arte da Fuga, com esta outra ideia: “Não é descabido (...) que as pessoas possam ter liberdade para definir os termos do contrato de casamento, nomeadamente através da inclusão de cláusulas que permitam e definam o divórcio unilateral. O que já me parece mais descabido é que sejam os deputados, que apesar de 200 e tal não são suficientes para apreender todas as realidades existentes, a definir de forma taxativa de que forma esses contratos devem ser celebrados. (...) Em vez de passarem horas a discutir a vida dos outros, os deputados deveriam limitar-se a abrir a conformação dos termos do contrato à vontade dos casais. E ponto final”.
Como se vê, este é um debate menos óbvio do que à partida parecia. As opiniões que aqui deixei são apenas a ponta visível de um iceberg social sobre o qual se tem falado pouco fora do âmbito da blogoesfera. Fica aí o sinal para quem o queira apanhar...

publicado por PRD às 18:44
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Estes textos são escritos para serem “falados”, ou “lidos”, pelo que não só têm algumas marca de oralidade (evidentemente, propositadas...) como é meu hábito improvisar um pouco “em cima deles” no momento em que gravo a rubrica. Também é relevante dizer que, dado tratar-se de uma “revista de blog’s” – e uma vez que os blog’s não se preocupam com a oralidade ou com a eventual citação lida dos seus textos -, tomo a liberdade de editar minimamente os textos que selecciono. Faço-o apenas para que, em rádio, não se perca a ideia do blogger pelo facto de escrever frases longas e muito entrecortadas. Da mesma forma, não reproduzo palavrões nem frases pessoalmente ofensivas, assim como evito acusações cuja possibilidade de prova é diminuta ou inexistente. Sendo uma humilde crónica de rádio, tinha ainda assim de ter alguns princípios. São estes. Quem tiver razão de queixa, não hesite!

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