Quinta-feira, 31 de Dezembro de 2009

Blog do Ano 2009: O Alfaiate Lisboeta

Ultimo dia do ano, dia certo para revelar a minha escolha, absolutamente individual, do melhor blog de 2009. Critérios para esta escolha: criatividade, manutenção, dedicação, interesse e relevância. Propositadamente, não usei a palavra originalidade – porquê? Bom, porque o meu blog do ano não é de todo original, nem pretende. O seu autor partiu de um blog inglês, o Sartorialist, e pensou: por que não replicar esta ideia em Portugal? Aliás, está lá escrito: “A ideia não é original. Talvez já nem venha a tempo de ser inovadora. Mas (...) as boas ideias não se têm apenas mas também se aproveitam”.

E o anónimo autor aproveitou a criou o Alfaiate Lisboeta, em oalfaiatelisboeta.blogspot.com, em Janeiro de 2009. É o meu blog do ano

A escolha resulta justamente deste novo patamar a que a blogoesfera chegou: a da replicação de boas ideias, ou quase uma espécie de franchising não-oficial. A ideia do Alfaiate Lisboeta é simples: procurar gosto e bom gosto, originalidade e arrojo, ousadia e urbanidade, na moda que se encontra na rua. Street wear, sem mais. “Nunca vos apeteceu fotografar alguém? A mim já. Não acham que há pessoas que têm o dom de vestir bem ou a audácia de o fazer de forma diferente? Eu acho”.

Assim nasce um portfólio diário, um verdadeiro mural de moda, com fotografias simples, mas bem tiradas, nas ruas de Lisboa ou de qualquer cidade por onde o autor do blog ande, com gente anónima. O Alfaiate Lisboeta aborda os seus fotografados, tenta perceber quem são, comenta-os e comenta o que vestem. O Alfaiate mistura muitíssimo bem moda, roupa, e tendência, modernidade.

Diz ele às tantas, num post, que a culpa é da avó: “A sério. Não há sítio onde vá que não meta conversa com x, interpele y ou faça sugestões a z. Fui buscar-lhe essa tara [não se preocupem com a minha avó, vai adorar que fale nela na mesma medida que adora chamar a si a responsabilidade de metade dos meus traços de personalidade; e, em abono da verdade, cabe-lhe a ela boa parte da responsabilidade de, algures na minha base genética ou experiência, ter encontrado motivos para iniciar este blogue]”.

Confessa que é mais extrovertido no estrangeiro do que nas ruas de Lisboa, mas basta ler o blog para perceber que é um espontâneo em qualquer parte. Já este mês de Dezembro fotografou a própria irmã e escreveu um texto notável em que explica a escolha: “A canadiana que a avó lhe deu. Era essa a desculpa. Não fosse essa seria outra qualquer. Porque eu não preciso de desculpas para falar da minha irmã. Por algum motivo é a primeira vez que me emociono a escrever um post. Por algum motivo, antes mesmo de me sentar aqui, já sabia que isto ia acabar assim. Esta merda não se explica. Nem tem que se explicar. É mesmo assim. E juro-vos, eu já sabia”.

O Alfaiate Lisboeta faz mais pela moda do que muitas revistas e jornais, é sociologia pura, e é também política na abordagem de estilos, raças, linguagens. Não é uma ideia original, mas é a aplicação com talento e sabedoria da ideia original, sem pretensões e sem manias. Tudo junto, eis a minha escolha para 2009. Amanhã, começa 2010.

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Quarta-feira, 30 de Dezembro de 2009

O ano 2009 - II

Segunda edição da Janela Indiscreta que dedico a um olhar rasante, uma espécie de voo de pássaro sobre o ano 2009 no mundo dos blogues. Ontem falei basicamente de politica, num ano muito político em todos os sentidos, hoje alargo aos grandes momentos que vivemos. A blogoesfera, nessa medida, é um bom reflexo da sociedade – reage emocionalmente nos momentos que convocam essa reacção, discute quando há fracturas sociais, passa muitas vezes ao lado daquilo que efectivamente lhe escapa ou não compreende.

Tal como muitas vezes sucede quando entramos num café e ouvimos alguém dar palpites gratuitos sobre um tema que ouviu de passagem na rádio ou na televisão, também a blogoesfera se presta a essa reacção rápida, ás vezes desinformada ou pouco sustentada. Sente-se esse lado mais popular em temas como a justiça ou a saúde, que infelizmente estiveram em alta neste ano. É pouco frequente encontrar um post consistente e devidamente sustentado sobre casos como a Face Oculta ou as cegueiras em Santa Maria – nestas matérias, a maioria dos blogues opina sem pensar muito. Pede justiça. Pede que rolem cabeças. Exige punição exemplar e muitas demissões.

Já quando entramos em áreas mais especificas – estou a lembrar-me, em 2009, no fenómeno Obama e na mudança vivida nos Estados Unidos -, surgem os especialistas. Gente que sabe da matéria – muitas vezes, gente que explica o que os jornais não conseguem explicar. Em 2009, Obama, a Cimeira de Copenhaga, a morte de Michael Jackson e os diversos casos à volta de Berlusconi, foram debatidos, abordados e, cá vai a palavra do ano, esmiuçados nos blogues de forma quase sempre relevante.

Claro que estou a generalizar e tudo isto pode ser sempre rebatido com exemplos, mas estas são as notas que fui tomando ao longo de um ano de crónicas diárias aqui na Antena 1.

Não poderia, por fim, passar ao lado de um fenómeno que fui observando com atenção. Até 2009, havia dois programas de televisão geradores de debate na blogoesfera – programas que, enquanto estavam no ar ou logo a seguir, tinham meio mundo a comentar. Um, o óbvio dominical de Marcelo Rebelo de Sousa. O outro, o debate dirigido por Fátima Campos Ferreira à segunda-feira, na RTP-1, o Prós e Contras.

Para quem escreve diariamente sobre blogues, esta evidência é indiscutível. Porém, em 2009 essa hegemonia foi quebrada e vencida: chegou um programa que provocou muito mais posts, muito mais reacções. Obviamente, Gato Fedorento Esmiúça os Sufrágios. E tem tanta mais relevância esta observação quanto é certo que o Gato Fedorento começou por ser um blog...

Assim chego ao final destas duas crónicas em que olhei sumariamente o ano de 2009 na blogoesfera, amanhã, ultimo dia do ano, revelo a minha escolha individual para o melhor blog de 2009.

publicado por PRD às 02:10
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Terça-feira, 29 de Dezembro de 2009

O ano 2009 - I

Está na hora de começar a olhar o ano que passou, 2009, neste universo específico em que me movo diariamente e que passa pela Internet, mais especialmente pelos blogues.

Hoje e amanhã, vou tentar desenhar aqui o que foi o ano nesta plataforma. E é incontornável começar pela politica – 2009 foi um ano de eleições diversas, de combates duros na politica, de um PS vitima do desgaste governativo, de um PSD perdido e de liderança duvidosa. Como sempre, desde que nasceu o blog, o debate politico exacerba-se na rede. Os apoiantes tornam-se mais militantes, os críticos são ainda mais críticos – e os confrontos são, muitas vezes, de violência desmedida.

Blogues como o Câmara Corporativa, claramente colado ao Governo e ao PS, ou Arrastão, claramente próximo do Bloco de Esquerda, ou o 31 da Armada, á direita, protagonizam um 2009 de permanente troca de argumentos. A estes se juntam os blogues individuais de um Pacheco Pereira ou de um Santana Lopes, num ping pong permanente.

Este ano, com eleições legislativas e autárquicas, os próprios partidos tinham de ganhar protagonismo no mundo dos blogues – e lá vieram os sítios de apoio a cada um dos concorrentes, como vieram também os blogues presumivelmente independentes, colectivos, de apoio a uma força ou outra.

Entre as muitas criticas que recebo por esta Janela, destaca-se o facto de recorrentemente falar de alguns blogues. Como se só houvesse aqueles, ou os outros não interessassem. É óbvio que isso não sucede, mas é verdade que há alguns blogues com passe social aqui na casa - e se isso ocorre, deve-se ao protagonismo, à iniciativa, e à atitude desses blogues. Nessa medida, falar de 2009 e não falar do eterno e mais que repetido 31 da Armada seria uma injustiça – foi este blog, convêm não esquecer, que reabriu o debate sobre republica e monarquia substituindo a bandeira nacional pela bandeira monárquica na Câmara Municipal de Lisboa. E foi tb este blog que no dia 25 de Novembro colocou no Campo Pequeno uma estátua de 2 metros representando Jaime Neves em homenagem ao militar estrela dessa data de 1975... Não só comandou estas operações, como as trabalhou em vídeo e em posts que ajudaram a dar ainda mais visibilidade às acções.

À medida que os anos passam e os blogues crescem, amadurecem, e a própria plataforma ganha consistência a riqueza, até do ponto de vista dos recursos disponíveis, é evidente que a politica e os políticos acabam por lhe reconhecer mais relevância.

2009 mostrou isso mesmo – e por isso, simbolicamente, a imagem que me fica deste tempo na relação entre blogues e politica é de José Sócrates candidato a primeiro-ministro em campanha, aceitar uma tertúlia em Lisboa com bloggers de todas as origens. O homem que antes se tinha referido ao mundo dos blogues como uma espécie de seita mafiosa, ou o inferno em versão 2.0, acaba por dar o braço a torcer e reconhecer o meio como válido para fazer passar a sua mensagem. Políticos e blogues? Se não os podes vencer, junta-te a eles.

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Segunda-feira, 28 de Dezembro de 2009

Do futebol à Asae

Natal ultrapassado, cá vamos a caminho do fim do ano. E qual é o estado das coisas? No futebol, o primeiro round termina com o Braga em grande forma e o Benfica logo ali à beira: dou razão a Rodrigo Moita de Deus que nos jantares de Natal por onde andou se viu grego para conseguir conversar: “Está dificil falar de futebol com sportinguistas. Bem tenho tentado mas sem sucesso. “ah não tenho ido ao estádio”, “ah não tenho visto os jogos”, “ah e tal estou cheio de trabalho”. Como se a massa adepta tivesse passado à clandestinidade”.

Na vida do país, é o tempo, ou melhor, o mau tempo, quem mais ordena – e o que se viveu ali no centro oeste foi pesadelo para umas centenas de milhares. Como se não bastasse o rasto de destruição do ciclone e da chuva, a luz foi abaixo e tardou em voltar.

Qual a responsabilidade da EDP?”, pergunta no Insurgente

André Azevedo Alves: “Sendo certo que nenhum sistema deste género pode ser invulnerável face a condições extremas, fica a dúvida sobre a forma como países onde as condições climatéricas “normais” são bem mais agrestes do que as portuguesas conseguem (ou não) assegurar a continuidade do fornecimento do serviço e sobre a responsabilização das empresas de distribuição em caso de falhas prolongadas como aconteceu mais uma vez em Portugal”. Ficámos a saber que “em zonas rurais, a rede «está muito mais exposta» (...) pelo que «não é possível garantir que uma situação destas não se repita». Este risco já não surge nas «principais cidades» do país, onde a rede é subterrânea”.

A este propósito, também, Carlos Nunes Lopes publica uma foto de António Mexia, Presidente da EDP, com a legenda óbvia: alguém viu este homem nos últimos dias?

Lá de fora regressa a ameaça terrorista que iam fazendo explodir um avião com mais de 200 passageiros a bordo. Graças a um passageiro e uma hospedeira, o terrorista foi neutralizado. “Quando a segurança dos ares parecia estar mais pacificada, eis que em pleno dia de Natal novo sobressalto sucede nos Estados Unidos”, como escreve Nuno Dias da Silva no Civilização do Espectáculo. Ele sublinha o facto do terrorista estar “incluído numa lista de indíviduos suspeitos «de baixo nível» de ameaça. Mesmo assim, teve luz verde para avançar. O que parece certo é que o crivo da segurança aperta mais nuns países do que noutros. Mais tarde ou mais cedo, nova tragédia irá acontecer. Com ou sem a inspiração da Al-Qaeda”.

E fecho a ronda de volta à terrinha, no mesmo blog, para notar os quatro anos de vida da ASAE. Nuno tem razão quando diz que o organismo “já não tem a legião de detractores de outrora. Se calhar nem metade, porventura nem um terço. O epíteto de «polícia do gosto» já faz parte dos recortes dos jornais e da memória de alguns. Já poucos se lembram das campanhas anti-fumo e do encerramento de muitos restaurantes chineses”. Comecei no futebol, acabei na ASAE – o que liga as duas pontas desta crónica é essa relação amor-ódio que era comum às duas partes. Pelos vistos, da ASAE já ninguém fala. Do futebol, é só esperar por Janeiro...

 

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Sexta-feira, 25 de Dezembro de 2009

Blog da Semana: Religionline

Num dia como o de hoje, Natal pleno, era óbvia a escolha de um blog da semana. O olhar recaiu soibre “Religionline”, um blog que explora, diz-se logo em subtítulo, “O sentido da vida, a dimensão religiosa e a cultura”. E vem de longe este blog de Manuel Pinto. 26 de Setembro de 2002, em rigor, e lá se encontra o post inicial: “Inicio hoje este blog, no qual referirei aspectos, impressões, interrogações e notas sobre a experiência religiosa. Situo-me no quadro do cristianismo, procurando manter no horizonte o vasto e plural universo das experiências religiosas e do diálogo (…) entre elas. Mas consciente de que a busca de sentido extravasa em muito a dimensão religiosa-confessional. Um diálogo cultivado e exigente, sem preocupações proselitistas - eis o que procurarei manter (…). Desejo igualmente fazer deste blog um espaço colectivo, onde outros companheiros de jornada participem, quer como membros, quer como comentadores”.

Foi disso que se fez este “Religionline”, em religionline.blogspot.com, que entretanto ganhou dimensão, expressão, e nas ultimas semanas apostou no natal com um notável Calendário do Advento sempre acompanhado de poemas alusivos à quadra e à religião… Num dos últimos li, sobre “Os mitos de um maravilhoso nascimento”, citava o padre Joaquim Carreira das Neves,: “Jesus não nasceu a 25 de Dezembro, não foi dado à luz numa gruta, não havia burro ou vaca a assistir, os magos não eram reis nem eram três, não houve pastores a adorá-lo, não fugiu para o Egipto. As histórias de Natal estão cheias de pormenores que têm apenas uma intencionalidade teológica. Apenas? Não fossem essas histórias e onde estaria a dimensão do maravilhoso no Natal?” E segue-se um trecho de uma carta apostólica de João Paulo II: “No cristianismo, o ponto de partida está na encarnação do Verbo. Aqui, não é apenas o homem a procurar Deus, mas é Deus que vem em pessoa falar de si ao homem e mostrar-lhe o caminho por onde é possível atingi-lo.”
Poemas, encontro de Rui Cinatti a Torga, à escolha do freguês.

E explicações simples, como esta que esclarece um dos mitos do Natal: “O Natal é festejado a 25 de Dezembro porque era nessa ocasião que, em Roma, se festejava o dies natalis, o nascimento do Sol depois do solstício de Inverno. A adopção desse dia foi uma tentativa de cristianizar a festa pagã e no século IV já a festa era assinalada. Os dados indicados por Lucas no seu evangelho, apresentados como históricos, só aumentam a confusão em relação à data e ao ano do nascimento de Jesus, diz Charles Perrot (no livro Jesus e a História).”

Aproximação à realidade actual, também ali se encontra, por exemplo, numa citação de Anselmo Borges no DN: “No meio da vertigem das compras e das prendas, do consumismo, não sei quantas pessoas se lembrarão ainda de que a festa do Natal está referida ao nascimento de Jesus Cristo. (...) A partir desta experiência radical […], deriva toda a mensagem de Jesus, para quem o decisivo não era a religião, mas a humanidade”. E que melhor sinal ou mensagem posso hoje deixar do que esta?

 

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Quinta-feira, 24 de Dezembro de 2009

Véspera da Natal

Noite de Natal a aproximar-se, vagueio pelos blogues à procura da época, e de palavras relacionadas com a época. É claro que encontro. Por exemplo, Helena Matos, no Blasfémias, acha que estão reunidas as condições para a demissão do governo em face de dois argumentos somados: “a) as temperaturas negativas que se estão a abater sobre o país. O clima está a revelar-se um obstáculo ao esforço do Governo para promover o desenvolvimento. (...) e b) O menino Jesus e o Pai Natal à janela. Um país na senda do progresso e consequentemente da laicidade não pode ter estas duas almas penduradas das sacadas. É uma piroseira inqualificável e que não está prevista nos PDM. A isto acresce que o ministério da Administração Interna considera que se pode estar a difundir um falso sentimento de insegurança com aquele vulto do Pai Natal de saco às costas. Quanto ao Menino Jesus prevê-se a criação de uma comissão que irá ponderar o uso de imagens de uma criança semi-despida ainda por cima para fins publicitários. Não há governo estável num país cujos ministros viajam por ruas com meninos e velhos pendurados das janelas”. Humor e ironia de Helena Matos no seu melhor. No Hoje há conquilhas, leio Tomás Vasques que com suprema ironia, a propósito de casamentos entre pessoas do mesmo sexo, acha que esse debate nos desvia “de outras discussões importantes, como por exemplo (...): a Virgem Maria e José, o carpinteiro, deitaram-se nus na mesma cama ou não? A igreja de St. Matthew-in-the-City, em Auckland, na Nova Zelândia, a propósito do Natal, pretendeu suscitar a discussão, colocando nas ruas um cartaz em que os apresenta nus na mesma cama. Parece que os opositores ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, lá na Nova Zelândia, não gostaram do cartaz. Eles ainda acreditam que o sol gira à volta da terra…”

E por fim Renato Teixeira, no Cinco Dias, com uma longa carta ao Pai Natal “de um revolucionário pacifista”, como ele se intitula. Renato pede... “Este Natal quero que faça com que os senhores do mundo, do poder e do dinheiro, se entendam de uma vez por todas com os senhores do gueto, da impotência e da miséria. Quero que os da paz se entendam com os da guerra. Que os ateus se amiguem com os católicos. Que os dominantes beijem os dominados e os dominados se deleitem no colo dos beijinhos. Quero gostar de carne com peixe e de melancia com picante”. E mais á frente: “Já aos pobres peça-lhes que tenham paciência. Falta-lhes tanta paciência meu querido Pai Natal. Diga que anda a ver se fala com os ricos para que tudo se resolva. Ai… fico mesmo tão triste de saber que eles andam sempre assim zangados. Se estiverem com fome que roam as unhas, se estiverem a agonizar que pensem noutra coisa… Tudo menos aqueles desvarios e ideias criminosas”. Renato ironiza, mas sem querer pede o essencial num mundo em desvario: pede paz, mesmo que essa paz seja para ele podre e esteja a pedir revolução.

Por mim, prefiro a paz mesmo paz, sem qualquer espécie de podridão ou revolução. Peço-a hoje, peço-a todos os dias. E um Bom Natal, claro

 

publicado por PRD às 02:04
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Quarta-feira, 23 de Dezembro de 2009

PSD'09

Nem Cristo desce à terra nem o PSD almoça. E chegamos ao Natal com o Partido aos tombos, sem rumo e sem sentido. Pedro Marques Lopes, à espera da liderança de Passos Coelho, atira-se esta semana a Santana Lopes: “A proposta de Congresso extraordinário seria risível se não servisse para mostrar o grau de desespero e descontrole de quem ainda manda no PSD. Discutir o país e o partido? Então não nos foi vendido que o Instituto Sá Carneiro tinha feito um levantamento exaustivo dos problemas e que tinha elaborado várias propostas? Servirá este congresso para humilhar a direcção cessante, mostrando que afinal não fizeram rigorosamente nada e deixaram o partido num estado pré-comatoso? O que será que ainda falta discutir sobre o país e o partido? Tudo isto é demasiado patético para ser levado a sério”.

Tiago Moreira Ramalho também duvida das intenções de Santana: “Se o problema fosse de ideias, então uma reunião assim cheia de luz e brilho para que elas se discutissem seria extraordinária. O caso é que o problema do PSD não é, de todo, um problema de ideias. É um problema de pessoas”. Paulo Pinto Mascarenhas no ABC do PPM resume tudo a uma frase:

Dêem-lhe um congresso que ele põe o Passos no bolso”.

Ele é Santana Lopes, Passos é Passos Coelho.

No blog António Maria, António Cerveira Pinto faz uma análise mais vasta e profunda do momento politico no maior partido da oposição: “A turbulência nefasta que atravessa o PSD há anos é um dos fermentos que lentamente tem vindo a provocar a inevitável recomposição do panorama partidário nacional. Uma cisão Norte-Sul, ou entre sociais-democratas populistas e liberais, que pode estar prestes a ocorrer no seio do PPD-PSD, seria contudo decisiva para acelerar de uma vez por todas a clarificação necessária do actual sistema político-partidário. (…) As actuais dicotomias felizes entre a "esquerda" e a "direita" (…) poderão dar lugar a uma maior sofisticação, quer nas agendas políticas, quer nos debates públicos, quer sobretudo nas acções legislativa e governativa”.

Enquanto tal mudança não ocorre, Francisco Proença de Carvalho acha, no 31 da Armada, que “O actual PSD “cegou” politicamente! Asfixiou-se…Passou a agir em função de um caso particular, o da pessoa do 1.º Ministro. A partir daí a sua acção política tem-se movido em torno do ódio a esta pessoa e aos que a rodeiam”. E reclama mudança, claro: “a próxima liderança do PSD (seja ela qual for) tem sobre os seus ombros a enorme responsabilidade de inverter esta tendência. Primeiro que tudo terá que trazer o partido de volta aos seus eleitores e às suas expectativas. Se não o fizer, o partido continuará alegremente a sua caminhada rumo aos 20%. Seria triste e muito prejudicial para a democracia portuguesa…”.

Se o mundo dos blogues pode reflectir de alguma forma a realidade cá fora, então a ver por ali o PSD continua a definhar, perdido, partido e repartido, à espera de quem lhe pegue e o reconstrua. Já não vai ser em 2009.

 
 
 
 

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Terça-feira, 22 de Dezembro de 2009

O regresso dos tribunais plenários...

O Presidente do Supremo Tribunal de Justiça, Noronha de Nascimento, defendeu há dias a criação de um órgão com poderes disciplinares efectivos sobre os jornalistas, por causa das violações estatutárias. O Sindicato de Jornalistas já rejeitou tal ideia, mas pouco mais se falou sobre isso, como se fosse tema incómodo. Pedro Correia, no Delito de Opinião, acha “inacreditável que os órgãos de informação não tenham "editorializado de imediato sobre o assunto", na perspectiva crítica que a proposta do presidente do Supremo naturalmente deve suscitar a quem preza a liberdade de imprensa”, e por isso sublinha as palavras de Francisco José Viegas num programa de televisão: “É um absurdo." “Os tempos não estão propícios à crítica - é a conclusão a que se chega. Mesmo sem haver políticos a exercer tutela disciplinar sobre os jornalistas”, remata Pedro Correia, que é jornalista e obviamente defende a sua dama. Aliás, ele próprio já tinha escrito: “Felizmente o conselheiro Noronha do Nascimento ainda não é legislador: por enquanto só lhe compete aplicar a lei. Formulo votos para que continue a fazê-lo da melhor maneira, não obstante o tempo que os jornais, as rádios e as televisões "corporativistas" lhe vão roubando”.

No seu blog, Origem das Espécies, Francisco José Viegas insiste na relação entre silêncio e imprensa: “Salvo erro, ainda não vi gente em pranto, rasgando-se, aos saltos, por causa da intervenção do sr. presidente do Supremo Tribunal de Justiça, num dos ataques mais frontais à liberdade de imprensa. Que um trauliteiro o faça, munido dos instrumentos habituais, estamos habituados; que um presidente do Supremo Tribunal de Justiça peça um tribunal de excepção — digamos, um Tribunal Plenário — que integre a «estrutura política do Estado» (políticos nomeados pelo governo?, pelo Parlamento, pela vizinhança?) para julgar a imprensa e os jornalistas, é não apenas grave como estapafúrdio”.

Rui Crull Tabosa no 31 da Armada nota que “logo a seguir a tal atoarda (a de Noronha de Nascimento), o novo ministro da Justiça, Alberto Martins, sorrindo, se tenha apressado a considerá-la como uma ideia interessante, que merece ser ponderada…”. Sugere que se deixem de “jogadas” “e que, em vez de andar às arrecuas sobre o modo de como acabar com a liberdade de imprensa e calar o jornalismo livre, proponham a reintrodução dos tribunais plenários do anterior Regime”.

Exageros à parte, não foi feliz o Presidente do Supremo – mas é realmente estranho que a maioria dos jornais não tenha ligado a estas ideias e tenha sido no mundo dos blogues que o tema ganhou dimensão. Em época natalícia de paz e tranquilidade, deve ser essa a explicação. Digo eu, claro…

 
 

publicado por PRD às 02:02
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Segunda-feira, 21 de Dezembro de 2009

Uma cimeira falhada

Desilusão e falhanço são certamente as palavras mais usadas: um Acordo climático não vinculativo foi o máximo que a cimeira de Copenhaga conseguiu depois de

13 dias de negociações e uma maratona de 24 horas finais. O aquecimento global, a ser como dizem que é, continua a ameaçar o planeta e o futuro dos nossos filhos, mas aqueles pais que estiveram a debater na Finlândia nem com os próprios filhos se preocupam. O dinheiro vence tudo e isso acaba por se reflectir nos comentários que encontro na blogoesfera: Flopenhaga, chama-lhe com imaginação Vitor Pimenta no blog Mal Maior. António de Almeida acrescenta, no Direito de Opinião, que “Nem Obama redentor lhes valeu”: “Por muito que teimem em ver Obama como um redentor, escreveu, a Cimeira de Copenhaga falhou por não existirem condições para qualquer outro resultado. O aquecimento global é uma teoria que carece de confirmação, o climategate está aí para o provar, as energias renováveis são caras e pouco eficazes, ninguém estará disposto a adiar a recuperação económica do seu país ou atrasar o desenvolvimento em nome de incertezas”.

No blog Antropocoiso, Paulo Granjo destaca algo que é relevante e escolhe como “Aspecto mais positivo da cimeira: Pessoas normalíssimas da vida a conversarem sobre as alterações climáticas e o seu impacto, pelos cafés e restaurantes de Lisboa”. No entanto, ao mesmo tempo, “por lá um saco cheio de nada”.
“Fizeram uma cimeira, lá para os lados da Dinamarca, para discutirem, nem eles sabem bem o quê e para não chegarem a qualquer conclusão”, escreve Politikkus nio blog Logistica: “O resultado da conferência originou:quase nada. Tanto, o acordo quer redução de 80 por cento das emissões dos países ricos até 2050, como não têm acordo vinculativo. Mas deixaram uma bela pegada ecológica. Senão vejamos: durante 12 dias, foram 12 mil delegados a viajarem de avião, a andarem de carro, a comerem, a passear, e escreverem (…), o que deve originar cerca de 40 toneladas de dióxido de carbono para as nuvens”.

João Gonçalves acha “cómica” a “assembleia de Copenhaga - para não dizer trágica”, entre outras coisas por “os presentes não se darem conta do ridículo a que estão expostos. A coisa decorre como uma espécie de assembleia geral da nula ONU na qual, por resolução ou "acordo", a Terra fica mais fresquinha daqui a uns longos anos. Logo este diferimento interesseiro evidencia a tolice do propósito de "controlar" a Natureza. Se uma brecha se abrisse debaixo dos pés das eminências, motivada por um farto terramoto e os engolissse a todos, qual seria a "resolução" ou o "acordo" que os salvava?”.

Faltava-me olhar um dos muitos blogues que optaram pela duvida metódica e que acham o climagate uma chave para o engodo em que todos estamos a cair. E lá está André Azevedo Alves no Insurgente: “No contexto do eco-alarmismo que continua a dominar os media e a agenda política, o fracasso da Cimeira de Copenhaga (com mais um falhanço pessoal de Obama) (…) acaba por ser uma boa notícia”.

Não é seguramente uma boa notícia. Mas é a noticia do fim de semana.

publicado por PRD às 02:01
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Quinta-feira, 17 de Dezembro de 2009

Debate à esquerda

Hoje proponho um destaque diferente – em vez de um blog, dois blogues, em vez de uma ideia, uma debate.

A saber: já passaram alguns dias, fiz aliás uma crónica inteira sobre o assunto, mas a verdade é que a discussão continuou para lá dos factos. O caso da agressão a Berlusconi desencadeou um debate fortíssimo no mundo dos blogues – curiosamente, um debate mais à esquerda do que à direita. Como bem resumiu no Cinco Dias João Branco, passou-se rapidamente “da discussão do caso para um debate sobre a violência em termos genéricos”, ou sobre a legitimidade do seu uso. E é justamente esse debate que motiva os meus destaques da semana – para os blogues Cinco Dias e Arrastão, ambos à esquerda e próximos do Bloco de Esquerda, também do PC, mas afinal com olhares divergentes sobre este tema.

Tudo terá começado com um post de Renato Teixeira no Cinco Dias, recheado de vídeos da agressão ao primeiro-ministro italiano, sob uma única frase: “O que a democracia não resolve tem o povo que resolver!”

Ai Jesus que a outra esquerda tremeu. Daniel Oliveira não teve duvidas e chegou-se à frente: “a violência política transporta em si as sementes da opressão. Não se trata portanto de saber quando e porquê se usa a violência (...), mas de ter consciência disto mesmo: quando optamos pela violência política, mesmo que ela seja incontornável, estamos já a desistir um pouco”. E depois explicou-se: “se fazem muita questão, deixo aqui o meu limite. Na verdade não é meu. É do mais famoso de todos os pacifistas, Mahatma Gandhi: “Quando não se possa escolher senão entre cobardia e violência, aconselharei a violência”. Nuno Ramos de Almeida ficou a meio caminho: “Não gosto de ver bandidos decrépitos depois de levarem com uma “pedrada”. Sobretudo, tenho muitas dúvidas se determinados acontecimentos não têm como efeito a legitimação desses poderes mafiosos. (...) Dito isto, não confundo as coisas: Berlusconi está no poder porque a “esquerda responsável” o colocou nessa cadeira. (...) Para quê ser de esquerda, se ela faz a política da direita?” E já no final do texto deixa o desafio, no fundo, ao Bloco de Esquerda: “tenho a convicção que a primeira derrota da esquerda foi ter aceite a limitação daquilo que é pensável. (...) Mantenho-me fiel à esquerda irresponsável. (...) A minha responsabilidade é uma espécie de ética interna e fica-se por esta frase de um gajo com barbas: “sejamos realistas, exijamos o impossível”.

No 5 Dias, Zé Neves assina uma longa análise onde escreve, às tantas, que Daniel Oliveira “diz que é pacifista, mas ele sabe (?) que não é bem assim. A mim parece-me que o Daniel defende a monopolização estatal da violência. Monopolização que, diga-se (...) tem que ocorrer num quadro democrático, porque (...) o Daniel não é contra o recurso à violência para combater estados ditatoriais”.

E o debate continua e por isso merece este duplo destaque para o Arrastão em arrastão.weblog.com-ot, e o 5 Dias, em 5 dias.net.

O mais interessante, e que explica esta escolha, é quando a esquerda, ela própria, se divide assim, entre a mais antiga e radical, e a que já sonha com o poder e amansa os seus ímpetos. A primeira, bate em Berlusconi sem problema – a segunda, queria bater mas já não pode, porque perde votos se o fizer... Prefere então debater o tema, para não virar costas ao seu próprio passado. Um grande momento, sem duvida...

publicado por PRD às 01:59
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PRD

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Estes textos são escritos para serem “falados”, ou “lidos”, pelo que não só têm algumas marca de oralidade (evidentemente, propositadas...) como é meu hábito improvisar um pouco “em cima deles” no momento em que gravo a rubrica. Também é relevante dizer que, dado tratar-se de uma “revista de blog’s” – e uma vez que os blog’s não se preocupam com a oralidade ou com a eventual citação lida dos seus textos -, tomo a liberdade de editar minimamente os textos que selecciono. Faço-o apenas para que, em rádio, não se perca a ideia do blogger pelo facto de escrever frases longas e muito entrecortadas. Da mesma forma, não reproduzo palavrões nem frases pessoalmente ofensivas, assim como evito acusações cuja possibilidade de prova é diminuta ou inexistente. Sendo uma humilde crónica de rádio, tinha ainda assim de ter alguns princípios. São estes. Quem tiver razão de queixa, não hesite!

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