Terça-feira, 31 de Março de 2009

Palpitar

Se eu tivesse de escolher o verbo preferido do mundo dos blogues, nem duvidava: era palpitar. Mandar palpites sobre quem manda palpites é o activo dos blogues, e tem tanto mais graça e sentido quanto mais assertivo se consegue ser. Exemplo 1, João Gonçalves palpitando sobre palpites diversos: “O dr. Portas pretende que a justiça vá até "ao fundo" no "caso Freeport". Jerónimo quer que a verdade "seja apurada". A dra. Manuela fala em "sucessão" de factos que torna "premente" o esclarecimento do tema. E Louçã também deve ter dito qualquer coisa. Isto significa que, à medida que o ano eleitoral avança, o "caso Freeport" também avança pelo ano eleitoral adentro na proporção inversa à velocidade com que avança na justiça. Não me parece avisado. O que a oposição deve fazer é julgar politicamente o governo e o seu chefe. (...) Se no "caso Freeport" Sócrates é inocente até prova em contrário, já no seu desempenho como primeiro-ministro há muito que o deixou de ser. Ao centralizar na sua extraordinária pessoa o partido, o governo e a propaganda, Sócrates aceitou beber o cálice até ao fim. É isso que a oposição lhe tem de exigir perante um país mais devastado, mais deprimido e mais pobre do que há quatro anos. Quem bebe pelo gargalo compra a garrafa”.

Exemplo 2, encontro em Henrique Raposo no novo Clube das Republicas Mortas, exactamente no mesmo registo de João Gonçalves: “Toda a gente tem soluções estapafúrdias para o país. O BE quer sair da NATO. O PCP quer sair do mundo, à moda de Salazar. O pai do SNS quer impor um imposto, mais um, só para o SNS (...). Eu também quero brincar a este jogo. Para começar, acho que devemos vender Portugal aos EUA. Portugal passaria a ser assim o 51.º Estado da União; a nossa capital passaria a ser a Base das Lajes. Depois, poderíamos vender a Madeira aos refugiados palestinianos. (...) Podemos fazer uns trocos vendendo o Alentejo e o Algarve a Bin Laden. E, já agora, antes de vender isto tudo, poderíamos contratar os Taliban para remodelar Lisboa. Tal como destruíram aqueles budas gigantes, os Taliban poderiam destruir o Cristo-Rei, a coisa mais feia deste hemisfério”.

Repare-se como o registo é o mesmo: palpitar sobre palpites, humor e ironia, algum cinismo também, textos curtos e ideias fortes. É este o segredo para se existir no mundo ruidoso da blogoesfera. Mais um exemplo, este muito dirigido, de Helena Matos no Blasfémias: “O ex-bastonário da Ordem dos Advogados perora na TVI sobre investigações e provas. (...) Há anos que esta loucura dura: uns clones do dr. Rogério Alves criaram um enredo legal que apenas serve as suas contas bancárias e dá um substancial jeito a quem tem poder e meios para os contratar.  A clivagem entre os portugueses e a sua justiça é total. No fim disto somos tratados como parvos porque não percebemos a subtileza da coisa”.

Os tempos estão bons para o exercício e vão melhorar: em ano de eleições não vão faltar palpites sobre palpites sobre palpites. E a Janela sempre aberta...

publicado por PRD às 01:37
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Segunda-feira, 30 de Março de 2009

A bola quadrada

O fim-de-semana foi marcado pelo futebol e pela exibição triste da Selecção Nacional. Aproveito para, com esse tema, dar também algumas noticias que vêm do mundo dos blogues.

Por exemplo, chego ao Geração de 60, e leio Pedro Marta Santos: “Em cinco meses, um português (Queiroz) destruiu o que um brasileiro (Scolari) demorou cinco anos a construir. Há muitos antecedentes: Pedro Álvares Cabral foi o primeiro”.

Sorrio, claro, mas depois fico satisfeito com a noticia do próprio blog: à sua lista já extensa de excelentes autores juntam-se agora João Pereira Coutinho e Miguel Esteves Cardoso. Dois pesos pesados que vão obviamente marcar ainda mais um blog obrigatório há já muito tempo.

Ainda neste mundo, noto que a imprensa já percebeu que não vence o imparável movimento, vai daí junta-se a ele. Uma da últimas publicações a chegar à Net foi a revista Sábado, mas quando chegou, marcou pontos: há crónicas em vídeo e em som, mas também há blogues exclusivos da Sábado. São dois, um de esquerda, com Vasco Barreto, José Mário Silva e Ana Leonardo, entre outros – e um de direita, com João Gonçalves, João Miranda, Rui Castro. Foi este último quem escreveu sobre o jogo de Portugal: “Como seria de prever, a selecção empatou com a Suécia e Gil vai mesmo defrontar Nadal. Nas primeiras páginas dos desportivos só dá selecção. É o nosso fado: ao invés de exultarmos com os nossos (poucos) feitos, chafurdamos nos defeitos”.

João Lopes, no blog Sound & Vision, também olhou as primeiras páginas dos desportivos, que ele considera altamente conservadores, e escreveu: “Assistimos (...) à manifestação plena do valor descartável que é atribuído aos ídolos que essa mesma imprensa se esforça por promover. Subitamente, Cristiano Ronaldo, o "melhor do mundo" (...), é reduzido à condição patética de símbolo de todos os males do futebol português. (...) Enfim, não deixa de ser curioso que os protagonistas que, de facto, tomam decisões e gerem os destinos do futebol português — desde os governantes da área desportiva até ao presidente da Federação Portuguesa de Futebol — estejam sempre ausentes destes funerais de coisa nenhuma...”

João Lopes é também colaborador do Diário de Noticias, que estreou uma nova página na Internet. Mais animada, mais mexida, mas pouco ligada ao mundo dos blogues. Ainda que esteja justamente no DN um dos mais dinâmicos bloggers nacionais, Pedro Correia, que escreveu sobre o jogo, com ironia, claro: “Voltámos à fase das contas (...). Não precisamos de um seleccionador: precisamos antes de um bom contabilista”.

É aliás por causa do Pedro Correia que encontro o blog do jornalista Joaquim Queiroz, com um nome divertido, Essa de Queiroz, essa com dois esses..., e com ele fecho esta volta entre novidades da rede e comentários à Selecção: “Há quatro jogos que temos ambiente de velório (...). Este futebol português está mesmo a necessitar duma vassourada. A começar por S. Bento, por um Secretário de Estado só interessado em sorrisos e nada disponível para chamar toda esta gentinha à razão. Vamos, na verdade, a caminho do regresso à bola quadrada...”.

E com a bola quadrada me fico, que a janela já está em corrente de ar...

 

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Sexta-feira, 27 de Março de 2009

Blog da Semana: Clube das Republicas Mortas

Abriu portas esta semana com um post de 80 caracteres, quase parecia um twitter. E tinha este titulo: “A FIFA de Belém”. E dizia: “Se o PS formar governo com o BE, a FIFA tem de tomar providências”. Assinado por Henrique Raposo, era o pontapé de saída para o novo blog Clube das Republicas Mortas, design elegante e discreto, e Raposo bem acompanhado por Rui Ramos. Juntam-se dois homens da História e da Ciência Politica num blog que obviamente vai ser seguido por quem se interessa por estes temas.

 

colunista do Expresso. Investigador, foi editor da Atlântico, colaborou com o Independente, Público, Diário de Notícias e Nova Cidadania. Licenciado em História.

A chegada em dueto ao mundo dos blogues, esta semana, foi saudado à esquerda e à direita e de alguma forma marca uma tentativa de redinamizar a blogoesfera, que desde a cisão do 5 dias não vê grande animação.

Logo na abertura, um tema para debate: “O Provedor deve ser nomeado pelo Presidente”. Henrique Raposo escreve: “uma ideia que coloquei em cima da mesa há cerca de um mês, numa crónica do "Expresso": o Provedor - a par de outros cargos de fiscalização do poder - deve ser nomeado pelo Presidente da República. Só assim este cargo terá dignidade institucional. (...) Muita gente anda a dizer que este cargo não interessa. Este tipo de comentário revela duas coisas. Primeira: a nossa elite política tem uma cultura política "tropical". Segunda: no actual statu quo, este cargo não interessa, porque os partidos - PS e PSD - fizeram questão de anular o dito cargo. Se a nomeação partir do PR, a conversa muda de figura”.

O novo blog está em clubedasrepublicasmortas.blogs.sapo.pt/. É a minha escolha da semana. E não estou sozinho.

No Delito de Opinião, Ana Margarida Craveiro escreve: “O Henrique Raposo regressa, Rui Ramos passa a blogger regular. As expectativas não podiam ser mais elevadas”. João Gonçalves elogia também o Novo Clube, e parece haver razões para pensar que o debate político vai ganhar fôlego com este Clube das Republicas Mortas. É então o meu destaque, um sinal ao mundo dos blogues para que, num ano eleitoral tão forte, gahe estas dinâmicas próprias para novos espaços e outras ideias...

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Quinta-feira, 26 de Março de 2009

Maus ambientes...

A semana vai a meio e José Nunes, nosso colega aqui da Antena 1 e autor do blog Linha Avançada, tem razão: “Tá tudo em Brasa!”: “O ambiente no futebol português está de cortar à faca. Há de tudo como na farmácia, é tudo mau. (...)
Ameaças de morte, suspeições, acusações, demissões, aldrabões, confusões… (...) Todo este barulho é desproporcionado em relação ao que se passou, que foi grave, sim senhor. Mas toda esta caldeirada que se está a levantar tem outros interesses, desde a queda da Direcção da Liga à luta pela Liga dos Campeões. Ninguém está de asas brancas na coisa, não há anjinhos na história”. E José Nunes remata com graça: “Por isso, carneiro amigo, andamos todos ao mesmo. Quando é a nosso favor, silêncio que se vai cantar o fado. Quando é contra nós, canta-se o fado na mesma mas é mais: ai mouraria…”

No blog Quarta Republica, Pinho Cardão entra pelo caminho da teoria. E bem: “O futebol é um jogo, não é um processo químico onde entram oxigénio e hidrogénio e sai água, ou entra eucalipto e sai papel. É um jogo onde entra habilidade e técnica, táctica e estratégia, mas também sorte e azar, a sorte e o azar dos atletas e dos treinadores e a sorte e o azar dos árbitros. Embora incorpore elementos científicos, o futebol não é ciência, nem razão, mas é sobretudo emoção. Ninguém vibra, nem ao de leve, com a lâmina de papel que sai da celulose, mas muitos se emocionam com o golo que o atleta cria e faz nascer. O futebol tornou-se indústria e arte, arte e espectáculo, espectáculo e diversão, diversão e drama, alegria, mas também tragédia”.

E por isso acaba por voltar à arbitragem: “Os erros dos árbitros desculpam a impreparação dos dirigentes, as deficiências dos treinadores, a menor qualidade dos futebolistas. No momento das derrotas são os árbitros os únicos culpados. No dia seguinte, é o treinador que é despedido e as equipas remodeladas”.

Sem querer, Pinho Cardão vai ao encontro de António Boronha: “estamos todos (...)  a assistir a mais uma enorme encenação tendente a branquear a incompetência de quem tem a responsabilidade de dirigir socorrendo-se, como 'detergente' para a máquina de lavar, dos culpados do costume”.

Árbitros são culpados do costume, como guarda-redes ou treinadores. Já se sabe, sempre foi assim, sempre assim será.

E fecho com Besugo, no Dieta de Rochemback, muito filosófico, mas com o recadinho completo: “Parece-me às vezes que tendemos todos a ser demasiado severos perante certos e determinados acontecimentos, sobretudo quando estamos assentados em cadeiras um bocadinho altas”. Com a sua ironia e humor habituais, diz: “Não sei. Parece-me que os analistas se cansam sempre menos que os analisados e se divertem mais.

Não sou analista. Vou descansar. Isto não é sobre bola, mas podia ser. Mesmo não sendo, penso que pode ficar aqui”.

Prometo que não há mais futebol nesta Janela esta semana – mas também confesso que há muito tempo não via debate tão intenso no mundo dos blogues...

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Quarta-feira, 25 de Março de 2009

Olhares

Confesso, já não aguento mais conversa sobre o futebol português, a arbitragem, o Benfica e o Sporting. Mas a verdade é que o mundo dos blogues não se cala, Por reacção, fujo do futebol e procuro o desporto no balneário. Neste caso, no balneário da piscina, com Cristina Ferreira de Almeida no Delito de Opinião. Conta ela, com muita graça:

“De manhã cedo, assim que largam as crianças na escola, chegam as gordas. Vêm já de fato de treino e com o episódio da Oprah ainda na cabeça. "Tu podes ser o que tu quiseres. Basta querer", repetem, baixinho, a boiar na água morna, agarradas a um tubo de eferovite colorido e de olhos postos na professora esguia que esbraceja em seco. À hora de almoço cedem a vez às executivas. O balneário enche-se de mulheres em dieta permanente, de calças masculinas e sapatos de meio salto. (...) A meio da tarde chegam as donas das lojas e as profissionais liberais. Bronzeadas, carregadas de pulseiras e brincos, com fatos de treino brasileiros, fazem grande algazarra. (...)  É no lusco-fusco que aparecem as fatais. Vestidas de preto, de meias de rede e saltos agulha, puxam intrigantes malas de viagem de onde retiram peças de lingerie de renda negra. Antes de sairem do balneário, sempre maquilhadas,  verificam o telemóvel, mandam o último sms com um sorriso misterioso. Mas para onde é que elas vão?”.

O texto foi aqui condensado, mas é um outro olhar sobre a realidade que se encontra na blogoesfera. Como este, de Jorge Fiel do blog Lavandaria:

“Nós, portugueses, temos tatuadas no nosso carácter algumas idiossincrasias que nos perdem – fazendo com que continuemos a divergir da União Europeia e a ser alegremente ultrapassados pelos países do alargamento. Uma dessas coisas é considerar chique chegar atrasado.

A conferência de imprensa do presidente da Câmara está marcada para as 15 horas? Se aparecer antes das 15h30 ficará para todo o sempre conhecido como o jornalista precoce (...).  A vernissage de uma exposição está marcada para as 19h00? Se ousar chegar antes das 19h45 ficará para todo o sempre classificado como o bimbo desocupado – e arrisca-se seriamente a chegar antes dos organizadores.

O jantar está marcado para as 20h30? Se se atrever a chegar antes das 21h30 ficará para todo o sempre com a fama de ser o convidado esfomeado. (...) Tenho para mim que este país não vai para a frente enquanto chegar atrasado for considerado chique e as Paulas Bobones indicarem nos seus manuais de etiqueta e boas maneiras o atraso mínimo com que se deve chegar a eventos sociais”.

Assim, de uma penada, dois olhares, duas crónicas de sociedade que se podem encontrar a meio de uma semana onde só o futebol motiva os bloggers. Foram dois dias dedicado ao tema, hoje tinha de sair. Ainda passei no blog de José Saramagpo – mas como agora decidiu publicá-lo diariamente num jornal, perdeu parte da sua graça natural. Sigamos e fechemos esta verdadeira fuga para a frente olhando o escritor de outra forma, no blog do Arcebispo de Cantuária: “Algo me diz que o vencedor das eleições deste ano vai ser Saramago. Os políticos andam a ler o Ensaio sobre a Cegueira e nós o Ensaio sobre e Lucidez”.

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Terça-feira, 24 de Março de 2009

O estado do futebol

Eu bem dizia ontem que a polémica da Taça da Liga ia estender-se – e estendeu-se mesmo ao comprido, chegando ao Prós e Contras e a um debate mais amplo sobre o estado do futebol em Portugal.

Só que o debate é sempre desvirtuado pela própria clubite. A esse respeito, encontrei um post de RFF no Hipocrisias Indígenas que de alguma forma resume esta paixão desenfreada: “O Futebol Português - com excepção de alguns fogachos que nos levam por vezes a pensar o contrário - é medíocre. A Arbitragem Portuguesa é abaixo de medíocre. E é um atentado ao bom senso de um cidadão cumpridor das suas obrigações.... O Benfica é o maior clube português e por isso é protegido. Em Portugal assume-se sempre o que é mais cómodo e o futebol não foge à regra. Os jogadores, a equipa técnica e os adeptos do Benfica, como é óbvio, não têm qualquer culpa disso. O Sporting não tem Lideres e, também por isso, é constantemente desrespeitado. E o que tem tudo isto de problemático? Nada! Se eu não gostasse de futebol e não fosse do Sporting...”

Lá está: a paixão acima da razão. Hoje mantenho-me no desporto, mas procuro variar. Por exemplo, Mourinho e o seu doutoramento honoris causa transmitido em directo pela SIC Noticias: “Give me a break”, exclama Nuno Dias da Silva no Civilização do Espectáculo: “Depois da chegada ao aeroporto que interrompeu uma entrevista com Santana Lopes, a cerimónia na Faculdade de Motricidade Humana «paralisou» o resto da emissão do canal de Carnaxide. Está visto que quanto pior, pior”.

Quando se fala de desporto, e de futebol, a tentação maior é pôr em causa seriedade e evocar de imediato os apitos dourados desta vida. Mesmo quando se diz bem, diz-se por oposição ao óbvio. Leio Rui Paulo Figueiredo no Câmara de Comuns: “Gostei especialmente da declaração de Paulo Bento em que ele dizia que era feito de outra massa. Queria dizer que era honesto e que pautava a sua vida por esses valores. Que assinava um papel em que podia ficar estabelecido que não seria campeão mas que se mantinha com esses valores. E que ficava feliz assim! (...) Bem sei que o que fica bem em Portugal é, muitas vezes, a chico espertice, o inventar desculpas, o entrar tarde e sair cedo do trabalho, o não ligar à palavra dada, o não ter em conta a competência e o trabalho efectuado, o incumprimento de prazos, a falta a compromissos, o festejar a desonestidade, o enganar o próximo, a ironia a disfarçar como estamos contentes com as desonestidades, entre outras atitudes. Viu-se e vê-se em muitos sitios. É a cultura de que muitos são feitos! (...) Ainda bem que há quem não tenha essa atitude. Ainda bem que o Paulo Bento disse o que disse”.

Tentei fugir ao óbvio, mas é difícil: nestas matérias, o coração dá cabo da razão. Ainda assim, talvez JCS tenha razão, no blog Lóbi, quando junta futebol e Provedoria de Justiça: “Não me quero intrometer nas brigas do bloco central, mas Lucílio Baptista parece-me um bom nome para Provedor de Justiça”

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Segunda-feira, 23 de Março de 2009

O apito encarnado

Nasceu no mundo dos blogues a nova expressão: “apito encarnado”. A origem, claro, está na arbitragem de Lucílio baptista na final da taça da Liga, que deu a vitória ao Benfica na sequência de um penálti erradamente marcado. Logo no dia, pessoas como André Azevedo Alves, no Insurgente, vieram falar de uma final com “três derrotados”: “Aconteceu neste sábado no Estádio do Algarve. É claro que houve uma equipa a vencer, o Benfica, no “sorteio” das grandes penalidades, mas isso reforçou apenas a injustiça de um penálti mal assinalado contra o Sporting que levou o encontro para este desfecho”. A ideia de injustiça foi sendo o prato do dia da blogoesfera na tarde de ontem. Até que, no Jornal da Noite da SIC, veio o próprio árbitro reconhecer o seu erro e pedir desculpa. Uma atitude humilde, séria, profissional, de quem se vê na contingência de decidir no momento. No blog Direito de opinião, António de Almeida fala então de “minimização de danos” e escreve: “A um ano do final da carreira, o árbitro resolve não se refugiar como é hábito nas tradicionais desculpas, procurando saír com uma boa imagem pública, afinal errar é humano. Por seu lado Paulo Bento reiterou as críticas à arbitragem, afirmando não ter receio de ser castigado por dizer a verdade” E Soares Franco, diz, “vem colocar mais lenha na fogueira ao afirmar não ter gostado das declarações de Lucílio Baptista, por este não ter expressamente pedido desculpa ao Sporting. (...) Nada de novo no futebol português, teremos história para toda a semana”.

Receio que António de Almeida tenha razão. João Tordo, que no Corta-Fitas tinha recordado, e bem, os abusos do Sporting ao longo de todo o jogo, mesmo antes do penálti, surpreende-se: “Acabei de ouvir o Lucílio Batista na televisão, em directo, dizer que "não se apercebeu" da gravidade da situação com o Pedro Silva e, por isso, não o incluiu no relatório. Não se apercebeu de que o homem quase o mandou ao chão, duas vezes? E de que atirou a medalha ao ar, como se fosse uma criança mimada? E agora está o Lucílio a pedir desculpas, todo borradinho. Isto é que é uma vergonha”.

Até João Gonçalves largou por momento a politica e veio ao mundo da bola: “Um árbitro de um jogo de bola em que se disputava uma taça confessou publicamente, numa televisão, que se enganou quando marcou uma "grande penalidade". Se bem entendi, esse erro determinou que a referida taça ficasse na posse da equipa que beneficiou daquela marcação. Em direito, chama-se a isto um vício na formação do acto. Repetem o jogo ou partem a taça ao meio? O futebol é um lugar estranho”.

Tão estranho que Animal, no blog dos Marretas, se interroga sobre o árbitro:

“quem é esse gajo? o novo provedor de justiça? o candidato do psd ao parlamento europeu? saiu-lhe o euromilhões? nunca ouvi falar de tal criatura e agora não há blogue que não fale dele?”

Pois é: se o futebol é o desporto favorito da converseta nacional, com um caso destes, para mais envolvido Benfica e Sporting, temos tinta para uma semana inteira. Sobre isso, nem uma duvida.

 

publicado por PRD às 01:29
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Sexta-feira, 20 de Março de 2009

Blog da Semana: Portugal a Pé

Tudo começou em Fevereiro de 2008, ou seja, há pouco mais de um ano: Nuno Ferreira, jornalista com créditos firmados no Público e no Expresso, decidiu empreender uma aventura pelo menos original: atravessar Portugal a pé. Começou em Sagres, e acabará algures a norte. E no começo foi assim:

“Estava verdadeiramente nervoso naquele primeiro dia. Decidira começar a atravessar o país por Sagres para obter um tempo mais ameno e, claro, pela simbologia também. Não tinha feito qualquer preparação física e carregara demasiado a mochila, que devia pesar então, uns 15 quilos. Sagres recebeu-me soalheira, apenas alguns surfistas, uns homens a jogar pétanque na praça, auto-caravanas junto ao mar, alguns turistas beberricando vinho branco”.

O começo, então. Nuno Ferreira começou por publicar na revista do Expresso o diário dessa longa viagem. Mas rapidamente percebeu que havia mais mundo para lá do papel impresso – e então veio o blog, onde esta longa caminhada ganha cores em imagens excelentes e vídeos, além dos textos publicados no jornal e os inéditos que vão aparecendo aqui e ali. De resto, neste momento nem publica já no jornal, só no blog, e muitas vezes.

O projecto é, já se vê, uma aventura permanente, com a sua dose de improviso e a componente essencial de jornalismo. Um exemplo ao acaso, este:

“Acabara de passar pela placa de Alcafache quando me começou a remoer no cérebro a memória da maior tragédia ferroviária de que há memória em Portugal. Tudo aconteceu ali a 11 de Setembro de 1985. O Sud-Express, uns 200 metros, 10 ou 12 carruagens, directo a Paris com cerca de 300 passageiros a bordo embateu de frente com um comboio regional com destino a Coimbra, ambos a 90 quilómetros à hora. O resto foi um horror, as imagens lancinantes que me lembro de ver pela televisão, os mais de cem mortos. Larguei a estrada movimentada entre Mangualde e Nelas e por ali fiquei, entre receptáculos de plástico para velas há muito ardidas, flores que murcharam e um painel muito bonito que me transportou de novo às imagens da época, carruagens emaranhadas numa encenação de horror, um homem a gritar "Perdi a minha mulher!", o então primeiro-ministro acabado de chegar de helicóptero”.

A acompanhar o texto, a fotografia que ilustra, no fundo uma nota num desvio da caminhada.

Neste momento Nuno Ferreira anda por Ovar, quem vir o blog vai encontrar o mapa de Portugal e os caminhos entretanto percorridos, e pode depois acompanhar os caminhos que se seguem.

Uma excelente ideia que podem encontrar em “portugalape.blogspot.com”. Um projecto que tem tanto de jornalístico quanto de romântico, e sem duvida uma daquelas ideias que parece ter mesmo mesmo a cara de blog. E lá está ele, e dentro dele o caminho mais longo de Nuno Ferreira. É a minha escolha desta semana, com votos de... boa viagem.

 
 

publicado por PRD às 01:27
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Quinta-feira, 19 de Março de 2009

Preservativamente

Papa Bento XVI anda por terras de África e espalha a palavra de Deus – e dentro da palavra vem polémica, aliás já antiga, sobre a forma como a Igreja Católica encara o problema da SIDA. E especialmente o uso do preservativo. Fácil entrar em debate no mundo dos blogues, comecemos com Sofia Loureiro dos Santo no Defender o Quadrado: “Não se pede ao Papa nem à Igreja que neguem os seus valores ou que desistam dos seus conselhos. Mas não se pode tolerar o engano objectivo e premeditado das populações. A fé não pode ser desculpa para a exploração da ignorância alheia”. Ana Matos Pires, no Jugular, vai um passo à frente: “Mais grave que negar a importância do uso do preservativo no combate à disseminação do HIV é Bento XVI afirmar que "pelo contrário, isso só irá complicar a situação". Isto é de uma irresponsabilidade sem nome, ultrapassa tudo o que é razoável”. No Blasfémias, Carlos Abreu Amorim procura nas palavras de Bento XVI a solução do problema e escreve: “Muito bem! Está encontrado o remédio para atenuar os efeitos da doença que mata milhões em todo o mundo. Ao pé disto, realmente, um preservativo tem enormes problemas de eficácia no contágio da epidemia…”

E por fim, Emídio Fernando no Correio Preto considera que bento XVI foi “de uma tremenda irresponsabilidade”. Faz este analogismo fortíssimo: “É como se um idiota passeasse alegremente por um campo de minas”. Miguel Marujo, no Cibertulia, prefere olhar para “Longe do Vaticano” e regressa à terra: “Felizmente em África os missionários que estão no terreno borrifam-se para o que pensa Bento XVI sobre a matéria e trabalham a sério contra a sida... também distribuindo preservativos”.

Entrando no domínio mais puro das palavras do Papa, Filipe Nunes Vicente, no Mar Salgado, escreve: “Ratzinger tem razão quando diz que o preservativo não resolve o problema da SIDA. (...) Resta o argumento do mal menor: o preservativo não resolve, alivia. É verdade, mas é outra conversa: a abstinência também não resolve, alivia”.

Do outro lado da barreira encontro Valupi no Aspirina B. Escreve: “Sempre que o Papa faz uma declaração sobre o preservativo, sendo coerente com a doutrina da Igreja, tem de repetir esta evidência: os católicos obedecem a uma concepção da sexualidade que a liga à monogamia, à fidelidade, à abstinência, à castidade, ao matrimónio, ao amor ao próximo, à misericórdia, à compaixão, à fé, ao amor a Deus, à ética, à responsabilidade máxima, à consciência”. Vai daí, os comentadores criticam e o tema ganha estatuto de debate público. Valupi desenvolve o seu raciocínio para chegar a este ponto: “a igreja tem esta característica curiosa: é uma comunidade, verdadeiramente. O Papa é apenas mais um no rebanho, aquele cuja missão implica um especial sacrifício, pois está inevitavelmente sujeito aos sujeitos que enfiam a sua inteligência dentro do preservativo, tornando estéril o diálogo”.

O diálogo não me pareceu estéril, e deixei aqui ideias diferentes e olhares diversos sobre o tema. Prova provada de que nada, mesmo nada, fica em aberto e por discutir quando se fala de blogues.

publicado por PRD às 01:26
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Quarta-feira, 18 de Março de 2009

O contentor da discórdia

Há uma escola, um contentor, ciganos – e logo a seguir, polémica. Fala-se de racismo – mas logo chega a responsável, directora-regional de educação do Norte, Margarida Moreira, e até fala em discriminação positiva. Como eu, muitos bloguers se lembraram deste nome e de polémicas passadas. Tomás Vasques não resiste e escreve: “Não sei quem fala verdade, mas a D. Dren – aquela senhora que mal sabe escrever – só arranja encrencas. Mal sai de uma, entra logo noutra. É preciso ter faro”. No 31 da Armada, o dia começa também com ela: “A Senhora Directora (..) conseguiu explicar que manter crianças ciganas separadas em contentores é uma forma de discriminação positiva. Hoje, como noutros tempos, é preciso prevenir o bem estar das minorias evitando que se sintam intimidadas com a presença das maiorias. Isto foi hoje, às oito da manhã. É meio dia e a senhora

continua em funções”. A meio da tarde era já Afonso Azevedo Neves quem notava, “são 17:30, A tal Margarida Moreira ainda está em funções?”.

Daí para a frente, são opiniões: “Estou perfeitamente estupefacto com o facto de no meu país ser possível colocar crianças de uma etnia afastadas das outras crianças e colocadas num contentor”, escreve Luís Menezes Leitão no blog Lei e Ordem: “Só por humor negro se pode chamar a isto "um caso intermédio de integração”. (...)

Alguém deveria explicar aos apoiantes desta solução o que sente uma criança numa escola, quando vê os seus colegas colocados num edifício normal, e ela própria ser levada para dentro de um contentor, apenas por causa da etnia que tem. Mas pelos vistos a capacidade de indignação é algo que começa a escassear nos  tempos que correm”.

A ver pelo mundo dos blogues, indignação não falta e um bom exemplo é o post de João Luís Pinto no Insurgente: “Só podemos mesmo pasmar e interrogarmo-nos: se o contentor fosse um luxuoso lounge e se as criancinhas fossem todas brancas, numa população escolar toda cigana, também seria “discriminação positiva”? Ou era “negativa”?

A autorização dos pais basta para sustentar a segregação, mas a sua decisão já não é valida para escolher a maneira como o seu filho é educado?

Tudo isto tresanda a hipocrisia, e testemunha o desnorte generalizado das mais variadas instâncias políticas, aos mais diversos níveis”.

No blog Pressa de Chegar, Jorge argumenta com o falso moralismo e sou tentado a concordar com ele: “Este assunto não é uma causa anti-socialista, não é uma questão de esquerda, não é uma cabala. É puro e simples chico-espertismo na resolução de uma situação incómoda. Daquelas que ninguém quer aturar. E é por isso que é discriminação pura. Aliás, tudo estaria na paz do senhor se ninguém tivesse dado com a língua nos dentes”. Faz sentido, neste quadro, o que escreve Daniel Santos no blog 2711: “não sei se o caso é de racismo ou não, mas que algo está podre e precisa de ser mudado, é uma certeza”.

Parece evidente que muitas coisas estão podres no nosso mundo social – e que em ano de eleições tudo, literalmente tudo, será aproveitado. Este é apenas um caso – muitos por aí virão no mesmo caminho.

publicado por PRD às 01:25
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PRD

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Estes textos são escritos para serem “falados”, ou “lidos”, pelo que não só têm algumas marca de oralidade (evidentemente, propositadas...) como é meu hábito improvisar um pouco “em cima deles” no momento em que gravo a rubrica. Também é relevante dizer que, dado tratar-se de uma “revista de blog’s” – e uma vez que os blog’s não se preocupam com a oralidade ou com a eventual citação lida dos seus textos -, tomo a liberdade de editar minimamente os textos que selecciono. Faço-o apenas para que, em rádio, não se perca a ideia do blogger pelo facto de escrever frases longas e muito entrecortadas. Da mesma forma, não reproduzo palavrões nem frases pessoalmente ofensivas, assim como evito acusações cuja possibilidade de prova é diminuta ou inexistente. Sendo uma humilde crónica de rádio, tinha ainda assim de ter alguns princípios. São estes. Quem tiver razão de queixa, não hesite!

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