Sexta-feira, 27 de Fevereiro de 2009

Blog da Semana: Contraprova

Voltamos à mesa, isto é, voltamos à gastronomia. E, na minha escolha da semana, vamos direitinhos ao encontro de Lourenço Viegas, “ geólogo e crí­tico gastronómico”, como se assina no blog “Contraprova”, que não é mais do que a soma das suas colaborações semanais na revista Time Out. Ora, os textos de Lourenço Viegas são do melhor que se pode encontrar na nossa imprensa quando se fala de restaurantes – e haver um blog que os junte, é um bocadinho do paraíso na terra.

A frase chave do blog é “Dizer mal para comer bem”.

E comprovando tal facto, encontro uma espécie de livro de estilo numa crónica já antiga:

“Desconfie de empregados que não conhecem a carta. Desconfie de buffets. Desconfie de menus temáticos. Desconfie se não lhe mostrarem a ementa. (...) Desconfie dos críticos deslumbráveis. Desconfie dos canalizadores electricistas que tanto escrevem de vinhos como de comida. Desconfie de cozinheiros saltitões. Desconfie se for mal tratado. Desconfie de restaurantes que o enganam nas contas. Desconfie de recomendações de amigos que não se lembram o que é que comeram no restaurante que recomendam. Desconfie de saladas excelentes. Desconfie. O dinheiro é seu. A tripa é sua. O tempo é seu. Não coma o que os outros lhe querem enfiar pela goela abaixo. Desconfie”.

Depois, a arte de comer fora: “Comer fora é um desporto da boca e do espírito. Há ganhar, há perder. Ir a um restaurante é poder pontuar. Treine-se em casa. Aguce os sentidos”.

Finalmente, o risco: “Sem preconceitos. Não ligue a modas. Explore Lisboa, sem rede. Dê uma chance ao acaso (...). Experimente restaurantes de etnias variadas. Pergunte ao ucraniano da Tv Cabo onde é que ele almoça ao Domingo”.

E, é claro, o verbo confiar: “Confie no seu instinto. Confie em dicas de homens gordos”.

Eu não sei se Lourenço Viegas é gordo ou magro, mas confesso que me rendo aos seus conceitos e ideias, mesmo que muitas vezes não concorde com as suas escolhas. E deixo apenas este aperitivo sobre o seu estilo:

“Tinha um amigo que fazia o seguinte número: telefonava a perguntar "não te está a apetecer ir comer um bife à Bénard?". Era normalmente no Inverno e raramente recuso propostas. Quando lá chegávamos, eu pedia um bife e ele dizia que não queria nada, só uma água das pedras, por favor, mas que me fazia companhia. Ele gostava de ir à Bénard. Não de almoçar na Bénard. Era um sábio. Lisboa tem quatro estações: a chuva, o frio, o quente e a fresca. E para cada uma destas estações apetece um restaurante diferente. Apesar de muita chuva (...), Lisboa tem poucos restaurantes de chuva. Restaurantes que protegem da chuva, mas cujo conforto depende de esta continuar a cair lá fora”. A Benard é obviamente um destes casos. Vale a pena o prazer de continuar a ler Lourenço Viegas – coisa que pode fazer em contra-prova.blogspot.com, minha escolha desta semana e uma forma de dizer que Março pode começar assim: um jantar fora de casa seguindo os palpites deste gastrónomo da Contraprova, agora que se acaba a chuva e vem aí a fresca...

publicado por PRD às 00:14
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Quinta-feira, 26 de Fevereiro de 2009

O quadro e o polícia

Este é mesmo um país de moralidades, ou da falta delas, ou em rigor de falsas moralidades. Publicas, privadas, secretas ou escancaradas. Há dois dias que não se fala de outra coisa senão da apreensão pela PSP de Braga dos livros de arte onde figurava na capa uma reprodução de um quadro do pintor Gustave Courbet, que foi considerado pornográfico por um anónimo que o denunciou à polícia. Como é normal nestes quadros, a PSP deve dar seguimento à denuncia publica. O quadro, que figura num dos mais famosos Museus de Paris, mostra uma mulher nua, é verdade. Mas é arte, convenhamos... “Como é Carnaval, aparentemente ninguém leva a mal”, escreve Pedro Sales

no Arrastão: “No espaço de uma semana, ficámos a saber que os delegados do Ministério Público e os agentes da PSP têm poder para, em nome de uma suposta moral vigente, apreender livros e censurar uma sátira de Carnaval. Fica o registo”.

No mesmo blog, Daniel Oliveira reflecte sobre as explicações da policia. A polícia diz: “Tratou-se de uma medida cautelar para evitar uma alteração da ordem pública e o cometimento de outros crimes” já que se estava perante a “iminência de confrontos físicos” no recinto da feira, já que havia pais que “não gostaram da situação, começaram a ficar inquietados e pediram aos organizadores que retirassem os livros”. Daniel comenta: “O caro cidadão fica a saber que, quando não gostar de um livro que esteja à venda, dê sinais que vai começar a bofetada e a PSP trata do assunto”.

Com muita graça Cristina Ferreira de Almeida titula o seu pequeno post com um implacável “Fora de Moda”: “Os PSPs de Braga estão completamente out com as tendências da pornografia. Qualquer criança percebe que aquela densidade capilar só pode ser arte. Intemporal, só mesmo a obra de Coubert, incómoda a este ponto mais de 150 anos depois da criação”.

No 31 da Armada, Vasco Campilho ironiza mas acaba por dar do facto uma imagem totalmente diferente: “A apreensão, mais do que acto censório, é uma performance artística em si mesma. No seu implacável legalismo, o gesto policial re-actualizou a afirmação estética  de um quadro que nunca se quis  respeitosamente admirado, e muito menos banalizado em reproduções displicentemente espalhadas por bancas de livreiros. E isso, caro leitor, é serviço público”.

No blog Jugular, Ana Matos Pires limita-se a um “Uóte?, pergunto eu de queixo no chão” – e afinal parece ser esta a síntese do olhar do blogoesfera sobre o tema. No fim da jornada, pergunto eu: era de esperar outra maneira de agir por parte dos agentes da autoridade em Braga? Eu acho que não, mas como diz o senhor comentador, fora isso tudo bem...

Sofia Bragança de Bucholz, no seu blog “As Fadas tb se enganam no Caminho”, contata que “este país está, de facto, a tornar-se um lugar estranho e perigoso: primeiro, a censura do magalhães no Carnaval de Torres Vedras; agora, os livros com as imagens de Gustav Courbet. E, amanhã, o que será?”

Bom, na noticia que o jornal Publico deu online há mais de 100 ligações para posts de blogues – ou seja, o tema mexeu com muita gente, por isso se arrasta há 2 dias e parece não ter fim á vista...

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Quarta-feira, 25 de Fevereiro de 2009

Pérolas

Pérolas, momentos, delírios – são consequências de um feriado que chega também ao mundo dos blogues. Vale a pena, no entanto, recuperar dois posts que marcam a diferença – como é o caso daquele que Nuno Miguel Guedes escreve no Sinusite Crónica sobre o Carnaval. Depois de confessar o seu ódio ao evento, diz: “não compreendo a efeméride e isso irrita-me. Os meus amigos mais lidos e carnavalescos recordam-me a origem da coisa, o adeus aos prazeres terrenos antes do início da penitência da Quaresma. Ora eu não sou nada insensível aos prazeres terrenos: mas ver isso traduzido por roliças moças da Mealhada ou matrafonas de Torres Vedras é coisa que me ultrapassa. (...) Como último recurso os mais viajados descrevem o esplendor do Carnaval do Rio, a loucura orgástica de Salvador da Bahia, as mulheres lindíssimas e alegremente acessíveis que pululam nesses lugares. Erro deles. Sou um tipo antiquado, que acredita nos velhos rituais da sedução: uma mulher bem vestida, um bom vinho, um restaurante simpático, uma conversa estimulante. E assim de repente não estou a ver como poderia fazer isso mesmo com a mais deslumbrante das mulheres se ela estivesse vestida apenas com plumas a sair do traseiro. Chamem-me romântico”.

Digo-vos: a crónica de Nuno é notável e termina assim: “Até o provérbio «A vida são dois dias, o Carnaval são três» me parece ter sido escrito por Camus, como epígrafe para O Homem Revoltado e denunciador do ser humano abandonado a si mesmo, sem divindade que lhe valha. E é pensando na palidez da condição humana que me sento enquanto vejo uma mulher lindíssima a sorrir para mim, plumas saindo-lhe do traseiro”.

Noutro registo, noutro sentido, excelente também o longo post, muito bem ilustrado, de Pedro Correia no blog Delito de Opinião. Na ressaca dos Óscares, o jornalista revisita a Lisboa cinéfila de outros tempos com fotografias de época: “Percorro ruas e avenidas de Lisboa e vou-me lembrando dos cinemas que existiam ainda não há muitos anos espalhados pela cidade. Quase todos desapareceram já, devorados pelos novos hábitos de consumo, que nos mandam recolher a casa e olharmos a vida e os filmes pelo quadradinho da televisão”. Com este ponto de partida, recupera o Berna, o Satélite, o Monumental, o Apolo 70. Mas também o Império, o Camões, o Caleidoscópio, o Estúdio, o Terminal. Enfim, a lista é interminável e de todas as salas sai memória, saem filmes, e muitas daquelas associações são as mesmas que eu faço, que o ouvinte lisboeta faz, quando se lembra dos nomes daqueles cinemas. Remata Pedro Correia: “Lisboa é uma cidade que preserva mal a sua memória. E que parece ter deixado de gostar de cinema. Agora o que está a dar são as pipocas”.

Assim, entre um Carnaval indesejado e o passado que se revisita, uma união de facto entre dois textos a um tempo conservadores, porém muitíssimo bem escritos e cuja leitura constitui um prazer num momento de pausa para todos. Uma pausa também para a polémica, o debate fracturante, a actualidade politica. Hoje volta tudo à normalidade – e amanhã cá estarei para abrir essa Janela...

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Terça-feira, 24 de Fevereiro de 2009

Máscaras & anonimatos

Parece de propósito, mas não é: volto hoje a João Gonçalves e ao Portugal dos Pequeninos. Porquê? Bom, porque em dia de máscaras e mascarados, achei que passava por li o debate que podia animar o dia. E a história é a mesma de sempre: quem dá a cara e quem se mascára no mundo dos blogues, quem se esconde na máscara do anonimato ou quem dá o peito às balas.

Aqui há dias, João Gonçalves, sempre contra-corrente, decidiu elogiar o Jornal Nacional apresentado por Manuela Moura Guedes, que em geral é detestado pela blogoesfera. Escreveu ele: “Até mais ver, trata-se do único telejornal das televisões generalistas sem qualquer tipo de temor reverencial pelo regime. Dói, não dói?”.

Como de costume, os comentários começaram a chegar. Um tal Manuel da Mata escreveu: “Manuela Moura Guedes é muito corajosa. Belmiro de Azevedo idem. Américo Amorim também. Do que é que a senhora havia de ter medo? O medo é coisa de pobrezinhos e de pessoas com empregos precários”.

Outro anónimo escreveu: “Quem a ouve é que deve ter "medo"...
Aquela "coisa" é assustadora! Não há regime em Portugal que sustente uma "camafeu" daqueles”. E depois passa a insultar também o autor do blog, e o blog, que acusa de “discriminatório” e a quem chama “Blog dos Pequeninos”.

Ora bem: no anonimato é fácil dizer tudo, dar a cara é que carece de coragem. E foi isso mesmo que fez Manuela Moura Guedes. Escreveu um comentário no blog, sem medos; à sua maneira: “Não pude deixar passar em branco a quantidade de idiotice, sim, e ressabiamento manifestados dessa forma tão gloriosa que é o... anonimato!!! Isso sim, é coragem! Acham essas criaturas que fazer jornalismo, actualmente, em Portugal, não cedendo a pressões, contando os factos como são, investigando, dando noticias que abalam o "Poder", (...) acham essas criaturas sem nome, que tudo isto é fácil? (...) É certo que voltei, sim. Camafeu assustador, admito, para aqueles que não encaram a verdade, mas mesmo assim, mesmo para esses (...) a dar a cara, como sempre dei, por aquilo em que acredito. Pela liberdade de expressão, por um jornalismo livre, independente de qualquer tipo de Poder. Vivo do meu ordenado e não mais, e como todos os portugueses que ainda têm a sorte de terem trabalho com o mínimo de segurança, tenho um contrato. Não percebo a cretinice de me compararem aos dois homens mais ricos de Portugal”. E remata em tom de desafio: “Vá lá, criaturas, encham o peito, respirem fundo e, ao menos, quando queiram falar de alguém ...não se escondam como ratos...dêem o vosso nome.”

O comentário ganha mais tarde estatuto de post integral com esta apreciação de João Gonçalves: “As pessoas que respeito (poucas, autênticas e que não escondem os seus medos, inseguranças ou reverências sob a capa cobarde do anonimato) têm sempre lugar aqui”. Manuela Moura Guedes teve lugar no blog e caiu para mim como sopa no mel: em dia de máscaras, um manifesto contra quem se mascara, se esconde, se traveste e vive cobardemente no anonimato. No mundo dos blogues é o que há mais – todo o ano, não apenas no Carnaval...

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Segunda-feira, 23 de Fevereiro de 2009

A noite das estatuetas douradas

Noite, ou melhor, madrugada de Óscares, apesar do Carnaval ainda houve quem se dedicasse ao tema na blogoesfera. O blog Delito de Opinião, por exemplo, foi seguindo a cerimónia ao minutos, e abrindo caixas de comentários para cada prémio. Aliás foi lá que li a mais curta frase com a qual concordo a respeito do filme vencedor da noite, “Quem quer ser Bilionário”. A frase é de Carlos Barbosa Oliveira e diz assim:”Foi um murr0 no estômago e há murros que eu gosto de apanhar”.

O melhor filme, no entanto, não é de todo unânime. No 31 da Armada, Sofia Bragança Buchholz acha que Bilionário “é fraco. Retirem-lhe o "exotismo" do cenário e a beleza [física] das personagens – dos miúdos e da actriz principal – e fica um conjunto batido de clichés: o bem que vence o mal, o pobre que fica rico, o triunfo do amor impossível. Enfim, uma chachada”. No blog Complexidade e contradição, Lourenço escreve que “Slumdog Millionaire é um dos filmes mais esvaziados de humanidade a que já tive o privilégio de assistir”, e a mão-cheia de prémios desta noite “não é só um erro (graças a Deus a história da Academia é uma história de erros): é a substituição de uma ideia de cinema por outra que não só lhe é oposta como abertamente hostil”. Mais brando, Miguel Marujo no Cibertulia reconhece que o premiado “é bom, mas não a obra-prima que se canta por aí e que os Óscares pintaram. Mas é feito à medida das estatuetas”.

Filipe Miranda Ferreira no Câmara de Comuns vê no filme “o mundo pós-europeu a surgir, agora também na sétima arte”: “Um produção relativamente barata para os padrões de Hollywood, uma realizador maverick, um elenco completamente desconhecido e uma história passada numa Índia, até agora quase sempre ignorada”. E avisa para nos habituarmos a estas novas realidades.

Nesta avalanche critica sobre “Quem quer ser Bilionário” e os seus oito Óscares, Daniel Oliveira não é excepção, no blog Arrastão, e depois de lhe chamar “Uma fotonovela de amor mal amanhada” e “um retrato da India digno de um guia turístico de bolso”, destaca a estatueta entregue a Sean Penn pelo filme “Milk”: “mostrou, mais uma vez, que tem aquela capacidade extraordinária, como tão bem explicou Robert De Niro quando o apresentou (...), de desaparecer nas suas personagens”. Provavelmente, esse foi o caminho da vitória que acabou por deixar de fora outros candidatos. No blog Chá preto, por exemplo, Paulo Colaço confessa-se dividido: “Por um lado, percebo a vitória de Sean Penn mas gostaria de ver ganhar Mickey Rourke”.

Noite de Óscares é sempre assim: o confronto das nossas escolhas com as escolhas da academia, uma espécie de concurso de egos, em todo o caso uma celebração do cinema, essa invenção mágica onde tudo, realmente tudo é possível.

 

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Sexta-feira, 20 de Fevereiro de 2009

Blog da Semana: Há Vida em Markl

A última vez que consultei o ranking dos blogues nacionais, estava em 8º lugar nos mais vistos, com uma média diária de 8500 visitas. É um fenómeno de sucesso e de audiência que pode explicar-se pela conjugação de múltiplos factores, que passam pela televisão, pela rádio, por uma auto-promoção muito eficaz ao longo de anos e anos, primeiro na rádio, depois nas plataformas de internet.

É assim que chega hoje ao patamar superior de sucesso Nuno Markl e o seu blog, Há vida em Markl, que é blog mas tb é site, e net tv e sei lá mais o quê.

Escolho-o blog da semana porque ele representa um outro patamar, ou outra forma de encarar este universo: é quando um blog se assume como espelho do seu autor, assumidamente dedicado aos admiradores. Ou seja: mais do que um diário pessoal, um espaço de opinião ou uma ideia de comunicação, aqui trata-se de alimentar milhares de fãs de um artista cuja postura é fazer de conta que é um homem comum...

Nuno Markl é um homem normal, quer passar despercebido a fazer humor e a cultivar ideias modernas. Mas no blog ele passa a personagem dele próprio e leva com ele a namorada. Leio: “O Só Visto da RTP acompanhou o dia que eu e a Ana passámos no jornal Metro, a dirigir a edição especial de Dia dos Namorados. O dia histórico em que eu disse adeus à minha barba, por amor. A reportagem ficou magnífica”.

Noutro dia, Markl vê finalmente o resultado da adaptação que fez de um filme de animação e escreve: “As reacções foram muito boas. Foi óptimo perceber que o Rui Brazuna, da Premiere, (...) e o João Miguel Tavares, da Time-Out, (...) gostaram não só do filme em si (...) mas também da tradução e adaptação...”. Que é de Nuno Markl.

Dois dias antes anuncia a tal edição do jornal que vai dirigir por um dia com a namorada e avisa: “Vamos (...) passar o dia na redacção do Metro a criar aquilo que pretendemos que seja a menos lamechas celebração do São Valentim que já se publicou. Poderão acompanhar a coisa nas reportagens que a PFTV fará ao longo do dia e, como é evidente, através de um ou outro twit que me ocorra enviar durante a odisseia. Na sexta-feira poderão ler o resultado final, que é quando sai o jornal propriamente dito. Posto isto, vou à vidinha”.

Nuno Markl é um reconhecido e excelente profissional da comunicação em Portugal. Mas é também o dono de um ego gigantesco disfarçado por aquela imagem simpática do tipo comum. A mistura dos dois dá este blog interessante que mostra uma outra forma de manter interacção com quem segue as vidas públicas e, ao mesmo tempo, manter acesa a chama que alimenta os admiradores. Um artista pop, em resumo, que podem encontrar em havidaemmarkl.blogs.sapo.pt/. Fica eleito não o meu blog, mas o meu ego-blog da semana...

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Quinta-feira, 19 de Fevereiro de 2009

Também há boas notícias...

Cá vai desabafo: a direita tem acusado o PS (e especialmente José Sócrates) de ter trazido de novo ao debate público o casamento entre homossexuais com a clara intenção de desviar atenções sobre a crise, o estado da nação, e com isso capitalizar votos para as eleições. Mas quem se dê ao trabalho de andar de blog em blog à procura de denominadores comuns que determinem a actualidade, vê o quê?

Vê que aparentemente o PS conseguiu o que queria e a direita é pouco inteligente e caiu na esparrela: só se fala de homossexuais, casamentos, direitos e leis. Para ajudar à festa, veio D. José Saraiva Martins dizer que há sexualidades normais e outras anormais. Ficou tudo aos gritos e Cristina Ferreira de Almeida, geralmente contida, veio logo ao Delito de Opinião escrever e arrasar: “Julgo que o facto de se achar que a homossexualidade "não é normal" não implica que se conclua que um homossexual não tem capacidade para "providenciar a formação das crianças". Veja-se o caso dos padres: ninguém pode achar "normal" que um ser humano adulto e livre faça votos de celibato e abstinência. "Normal" não é de certezinha. E, no entanto, entregamos com gosto a educação dos nossos filhos a essas pessoas. Fazemos mal?”.

Um assumido social-democrata, Pedro Marques Lopes, também vem a terreiro no blog Sinusite Crónica: “Eu, por exemplo, também não acho normal que um cidadão maior e vacinado não tenha vida sexual ou que acredite que três pastores tenham conversado com uma enviada de Deus, (...) mas não tenho outro remédio que não seja viver com pessoas que não tenham o mesmo conceito de normalidade que eu. Mais, até as respeito e convivo com elas. Não lhes nego o direito de defender e dizer anormalidades”.

Como se vê, parece que o PS tem razão desta vez e que este debate é relevante e vale a pena fazê-lo. Vai continuar, estou certo disso. Aqui na Janela Indiscreta vou estando atento, e deixo sinais. Mas hoje apetece-me fechar o dia a dar uma boa noticia: pela primeira vez, que eu saiba, de um blog nasce uma editora de livros. Já aqui os destaquei quando nasceram, chamam-se Booktailors, assumem-se especialistas em edição literária, e alimentam diariamente um blog altamente especializado, o Blogtailors. Esta semana anunciam: “A Booktailors (...) lançará, no final deste mês, a obra "A Edição de Livros e a Gestão Estratégica", de José Afonso Furtado. Esta obra inaugura assim a colecção delineada e apresentada desde o início da Booktailors, que pretende construir uma biblioteca fundamental para todos os profissionais, investigadores e interessados no sector da edição”.

O livro do antigo Presidente do Instituto Português do Livro e da Leitura, e membro da Comissão de Honra do Plano Nacional de Leitura, é portanto o primeiro de uma nova marca – e quem o compre através do blog tem desconto e portes gratuitos.

Um passo mais na versatilidade e utilidade da plataforma. Afinal, uma boa noticia que aqui deixo num tempo basicamente marcado por más notícias.

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Quarta-feira, 18 de Fevereiro de 2009

O que não nos mata...

Ao longo destes 3 anos que já levo aqui à Janela, é natural que haja blogues mais citados do que outros, um facto natural quando se procura actualidade, opinião livre e diversa. Nesta matéria, João Gonçalves é um dos quase residentes, dado que escreve todos os dias, pensa bem, não tem medo das palavras e debruça-se quase sempre sobre temas da actualidade. No “Portugal dos Pequeninos”, João é um contra-corrente militante, um conservador, um céptico. Mas nunca um bajulador, jamais um pendura do croquete ou um profissional do tacho. Nada disso: um dos homens mais livres que encontro no mundo das ideias, e são tã poucos. Na maioria das vezes não estou de acordo com ele – mas isso não me impede de o destacar, porque esta Janela faz mesmo corrente de ar e tem espaço para todas as ideias.

Hoje, uma vez mais, foi no seu blog que encontrei o texto síntese que merece leitura integral, o olhar amargo – porém realista – do tempo que vivemos. Curiosamente, ele publica este texto no mesmo dia em que no blog Jugular Vasco M. Barreto escreve que “João Gonçalves é uma daquelas pessoas que vêem na antipatia uma prova de independência, talvez até uma virtude”. Vasco confunde antipatia com lucidez, e seguramente com desilusão. É uma confusão frequente, e que às vezes dá jeito – mas que fazer, se o mundo anda cinzento?

Apesar dessa classificação de “provavelmente o mais antipático dos blogues”, eu não deixo de pensar que estas palavras de João Gonçalves merecem o tempo que as vou demorar a ler:

“Parece que cada vez mais portugueses andam no psiquiatra e a comprimidos. Não admira. Num país onde não abunda a imaginação, em que vigora o mais rigoroso "amiguismo" e no qual a ambição cega não raras vezes substitui a inteligência e o esforço, dificilmente alguém se aguenta sem outra coisa qualquer. A sociedade actual nutre um profundo desprezo pelas emoções embora desenvolva "teses" e mais "teses" sobre a chamada "inteligência emotiva" que apresenta como um bem "democrático". Não se pode pedir às pessoas que sejam "racionais" quando, praticamente vinte e quatro horas por dia, vivem rodeadas de gente sem palavra e sem honra. Nunca a expressão "mundo cão" foi tão realista apesar de ofensiva para os nossos mais certos amigos. A fragilidade de tudo abana até o mais vigoroso optimista. Enfrentar a complexidade não diminui ninguém. Pelo contrário. Numa das poucas coisas interessantes que Hemingway escreveu, jaz aquela célebre frase: um homem pode ser destruído mas não pode ser derrotado. Esta anomia colectiva e pessoal em que vegetamos destrói-nos, de facto, mas não nos derrota. Para aqueles que a "vida material" abandonou, fica a certeza "nietzschiana: "o que não me mata torna-me mais forte."”.

Se este não é o post do mês, não sei que post será. Sem antipatia, com o olhar cortante da lucidez.

 

publicado por PRD às 01:06
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Terça-feira, 17 de Fevereiro de 2009

De volta aos Prós e Contras

Regresso à RTP e ao Prós e Contras, que ontem debateu o casamento entre homossexuais e, por causa disso, alargou o debate ao mundo dos blogues. Já calculava que João Gonçalves se metesse com Miguel Vale de Almeida. Afinal, há 8 dias, Vale de Almeida deixou esta pergunta no blog Jugular: “Como é que um ser humano normal se sujeita a ir ao programa de Fátima Campos Ferreira?”.

E agora ali estava a dizer de sua justiça e a engolir as palavras que disse...

Bom, João Carvalho, no blog Delito de Opinião, mostra-se chocado com a utilização da expressão «sexo oposto»: “Oponho-me terminantemente a este conceito e aproveito para declarar definitiva e solenemente (...) que, na parte que me toca, não pertenço ao sexo oposto. Bem pelo contrário, sempre me senti tão próximo quanto me tem sido permitido...”.

Mais a sério, no blog Geração de 80, Francisco Rodrigues dos Santos pergunta: “Será que o Estado se "mete na cama dos portugueses" ao procurar legislar sobre a matéria dos casamentos entre pessoas do mesmo sexo? Falamos de liberdade, igualdade e fraternidade?
Perverter um conceito para atingir a dignidade não me parece um caminho válido...”. No Cachimbo de Magritte, Maria João Marques sente-se enganada: “Eu achava que o Prós & Contras de hoje era sobre o casamento - civil - entre pessoas do mesmo sexo. Afinal é também sobre a posição da Igreja sobre a homossexualidade!

Na verdade, o debate andou muito tempo à volta da Igreja e da sociedade civil. Francisco Teixeira, no blog Insubmisso, não aceita esta divisão nem as outras que os participantes no programa foram sugerindo: “Sou contra os casamentos entre pessoas do mesmo sexo. Não acho que o casamento seja para procriação (...), não acho que se trate de uma questão constitucional, tão pouco de uma questão civilizacional”. E remata o seu post com esta ideia: “É tão nobre o respeito na igualdade quanto o é na diferença. Mesmo quando estamos a falar da possibilidade dos homossexuais terem acesso a algo que foi concebido, apenas, para heterossexuais: o casamento”. Em desacordo, no blog Adufe, Rui Cerdeira Branco sintetiza a sua posição: “objectivamente, negar o acesso ao casamento a um par de homens ou de mulheres que resolvam partilhar afectos e assumir responsabilidades (...) seria praticar discriminação com base na orientação sexual (...). A protecção, segurança e enquadramento social inerentes ao casamento, parecem-me suficientemente flexíveis para poderem mediar eficazmente tanto casais heterossexuais com prováveis filhos, quanto outras formas de família. Porquê limita-lo a isso tendo por base exclusivamente o sexo dos contratantes?”

Mesmo assim, sou tentado, no fim, apesar de liberal e defensor do casamento entre todos os sexos e mais um que se invente, dizia, sou tentado a dar razão a Carlos Abreu Amorim no Blasfémias: “este debate demonstrou que já tarda o tempo de reciclar as razões e aprender a alinhar logicamente os argumentos por parte de uma certa direita que pega sempre nos temas de forma errada mesmo quando está na posição certa”.

O debate sobre o casamento entre homossexuais voltou, vai ser tema eleitoral, e hoje ela apenas se entreabriu: vem aí fogo a sério...

publicado por PRD às 01:04
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Segunda-feira, 16 de Fevereiro de 2009

Tudo ligado

É preciso começar a ronda por algum lado, comecemos pelo fim-de-semana que foi dos namorados. Miguel Marujo, no blog Cibertulia, deixa esta duvida no ar: “Não se percebe que insistamos num santo obscuro para festejar namoros quando temos um santo casamenteiro há 800 anos”. Tem razão, mas o mundo global do comércio explica isso.

Menos fácil de explicar é esta outra duvida, longe de namoros e mais dada a arrufos, que Rui Pedro Nascimento levanta no blog Loja das ideias. Fala-se muito da comunicação social e do governo, de complots, de campanhas, mas ele não consegue distinguir em que patamar estamos: ”1. PS e Governo controlam a comunicação social; 2. Complot na comunicação social para derrubar (...) o Governo”.

Se ouvirmos José Sócrates, a hipótese 2 ganha corpo; se lermos Pacheco Pereira, é claramente a hipótese 1 que está em cima da mesa. Apesar de tudo, no mundo dos blogues a liberdade é valor acrescentado, por isso se pode ler uma opinião como a de Gabriel Silva no Blasfémias, sob o titulo “Do Sovietismo democrático”: “Quatro, dos cinco partidos parlamentares, tiveram no último ano os seus líderes eleitos em listas únicas, sem oposição e por votações unanimistas. O que diz bem da sua «democracia» e pluralismo interno”. Ou ainda Afonso Azevedo Neves no 31 da Armada com uma pergunta que eu próprio já me coloquei: “Que tipo de perguntas se podem fazer ao Primeiro-Ministro sem que ele se irrite?”.

A propósito de irritação: ler blogues também dá direito a canudo em matéria de psicologia – e era cada vez mais frequente encontrar blogues irritados, deprimidos, com o tempo, o Inverno e o cinzento que nunca mais saiam de cima de nós. Este fim-de-semana tudo mudou e li seguramente uns 20 posts sobre o regresso do bom tempo. Destaco este bocadinho do “Blonde with a PHD”: “Uma pessoa sente-se logo outra: menos sorumbática e amorfa. A Vida arrasta-se menos quando este sol, pouco quente e brilhante num céu limpo e lavado pela chuva, irrompe ao cabo de dias e dias de humidade e cinzento”.

Talvez a mudança do tempo tenha inspirado posts mais animados ou pelo menos bem humorados sobre temas negros, muito negros. Como a crise económica. Encontro no Geração de 60 Gonçalo Pistacchini Moita a escrever: “Muito se tem querido falar, a propósito da actual crise, de um hipotético regresso das doutrinas de Karl Marx. Numa visão mais patriótica (... ) aqui proponho, em alternativa, o regresso de António Aleixo (...):
«A ninguém faltava o pão,
Se este dever se cumprisse:
- Ganharmos em relação
Com o que se produzisse.»

Certeiro, este Aleixo e esta recuperação da memória – a que posso juntar outra, que Emídio Fernando colocou no Correio Preto. Emídio sugere que os políticos leiam “O Capital” na íntegra, e tem razão quando cita Karl Marx em 1867: "Os donos do capital vão estimular a classe trabalhadora a comprar bens caros, casas e tecnologia, fazendo-os dever cada vez mais, até que se torne insuportável. O débito não pago levará os bancos à falência, que terão que ser nacionalizados pelo Estado".
Comecei no dia dos namorados, acabei na economia – prova provada de que isto anda tudo ligado.

publicado por PRD às 01:02
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Estes textos são escritos para serem “falados”, ou “lidos”, pelo que não só têm algumas marca de oralidade (evidentemente, propositadas...) como é meu hábito improvisar um pouco “em cima deles” no momento em que gravo a rubrica. Também é relevante dizer que, dado tratar-se de uma “revista de blog’s” – e uma vez que os blog’s não se preocupam com a oralidade ou com a eventual citação lida dos seus textos -, tomo a liberdade de editar minimamente os textos que selecciono. Faço-o apenas para que, em rádio, não se perca a ideia do blogger pelo facto de escrever frases longas e muito entrecortadas. Da mesma forma, não reproduzo palavrões nem frases pessoalmente ofensivas, assim como evito acusações cuja possibilidade de prova é diminuta ou inexistente. Sendo uma humilde crónica de rádio, tinha ainda assim de ter alguns princípios. São estes. Quem tiver razão de queixa, não hesite!

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