Sexta-feira, 30 de Janeiro de 2009

Blog da Semana: Diário de Reportagem

Sexta-feira, dia de escolha do blog da semana, não me foi difícil render-me de imediato a esta minha opção. Primeiro, porque relaciona jornalismo e blogoesfera, depois porque tem uma indiscutível actualidade, finalmente porque é assinado por uma das mais notáveis repórteres que a imprensa portuguesa publica. O blog chama-se Diário de Reportagem e não é mais nem menos do que a soma de trabalhos e crónicas que Alexandra Lucas Coelho tem editado no jornal Público a partir de Israel e da Palestina.

Alexandra é uma jornalista experimentada na matéria, tem até publicado um livro, Oriente Próximo, que é justamente o resultado do seu trabalho jornalistico em Israel e nos Territórios Palestinianos Ocupados entre 2002 e 2007. Não admira, portanto, que volte ao local do crime para cobrir a situação dramática que se vive actualmente naquela zona do globo.

Sendo embora a reprodução dos textos que vão saindo no Público, o blog tem a vantagem de juntar todos no mesmo espaço, de forma organizada, numa sequência diária que nos dá uma visão mais panorâmica dos factos. E inclui crónicas mais pessoais, como esta deliciosa que aqui trago:

“Vi Obama tomar posse num quarto em Jerusalém. Gosto deste quarto. Foi nele que dormi a primeira vez que aqui aterrei. Vim do aeroporto ao amanhecer, tudo parecia prestes a explodir. Bombistas suicidas entravam em autocarros e cafés, o exército israelita entrava nas cidades palestinianas, a morte saía muito à rua. Era Abril, 2002. Subi os degraus com a mala, havia um jardim, uma casa antiga de pedra. Deitei-me a ouvir – seriam tiros? E o dia seguinte nunca mais acabou, até hoje.
Voltei muitas vezes, sem nunca mais dormir neste quarto, e agora não pedi, foi um acaso.
E portanto às seis e meia da tarde em Jerusalém liguei a CNN para ver Obama. Tinha acabado de voltar de Ramallah, e tanta gente estava agora a fazer isto, ligar a televisão para ver Obama – em Jerusalém, Belém, Hebron, Nablus, Jenin, Ramallah.
Gaza menos. Falta electricidade. (...)

Antes ainda do discurso de Obama, quando Aretha Franklin estava a cantar, telefonei a um entrevistado em Ramallah. Mas a canção foi curta, e ele queria mesmo não perder Obama.
E então deve ter ouvido como eu as vezes que Obama falou da liberdade. Foram três vezes:
“… essa grande dádiva da liberdade...”
“… o que homens e mulheres livres podem conseguir quando a imaginação se junta ao objectivo comum, e a necessidade à coragem...”
“… essa promessa de Deus segundo a qual todos são iguais, todos são livres e todos merecem uma oportunidade de lutar pela sua medida completa de felicidade.”
Parece-me um bom programa para a reconstrução de Gaza. É exactamente disto que se trata, mesmo dando como certo que Obama não estava a pensar em Gaza.
É bom que no dia em que esta crónica saia eu já não esteja neste quarto”.

Pérolas de uma jornalista brilhante que estão agora ao alcance de um clique em diarioreportagem.blogspot.com. O mundo fica mesmo mais perto quando se pode ler pessoas como a Alexandra.

publicado por PRD às 03:22
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Quinta-feira, 29 de Janeiro de 2009

Estado da nação

Hoje decidi não perseguir um tema único, mas trazer algumas pérolas do dia que vale a pena conhecer ou mesmo reconhecer no mundo dos blogues.

Começo por ler Luciano Amaral no blog Gato de Cheshire. Ele viu com atenção a entrevista de Freitas do Amaral a Ana Lourenço na SIC Noticias e sob o titulo “Prá Frente Portugal”, escreve: “A única dúvida que tenho é a seguinte: o Prof. Freitas do Amaral corre sozinho a Belém e, portanto, tem de aparecer a sinalizar até que ponto está disponível para fazer fretes ao Governo? Ou é mesmo o possível candidato favorecido pelo Governo? Inclino-me mais para a primeira hipótese. O Governo também não está assim tão desesperado”.

Numa versão muito própria da blogoesfera, que é do texto seco, certeiro, mordaz, Miguel no Insurgente, volta aos escândalos bancários e atira esta: “É claro que com o aumento do controlo político sobre as insituições bancária desaparecem os incentivos para a contratação de ex-Ministros. Acredito que sim”. Quem viu o depoimento de Dias Loureiro na Assembleia da Republica percebe bem do que fala Miguel. Daí é incontornável voltar aos passos da justiça e à forma como o seu estado é debatido entre nós. Muito interessante, a esse propósito, o texto de Francisco Proença de Carvalho no blog 31 da Armada: “Ao contrário de muitos, penso que mais perigoso do que o poder político interferir no poder judicial, são os órgãos judiciais fazerem política. A razão é simples: os políticos nós elegemos, censuramos nas urnas, podemos criticar abertamente. Um político corrupto, desonesto ou incompetente, mais tarde ou mais cedo, acaba, pelo menos, julgado pelo povo. Relativamente aos agentes judiciais nada disso acontece… Em Portugal, sob o pretexto da total independência, temos um sistema judicial profundamente anti-democrático. Somos obrigados a partir do princípio que todos os políticos são uns malandros e, em contraposição, todos os senhores procuradores e juízes são uns santos. Mas se não forem? Quem os julga? Quem os fiscaliza? (...) (...) Numa verdadeira Democracia, é inaceitável que exista um poder tão importante como o judicial, que esteja totalmente à margem da fiscalização popular”

Eis aqui um excelente ponto de partida para um debate aprofundado que nestes momentos, com tantos casos a decorrer e a deixar dúvidas e desconfianças, ganha ainda mais sentido. E por essa via aterro no Abrupto, onde Pacheco Pereira desabafa sobre justiça ainda a propósito do caso Freeport: “Como eu já vi porcos a voar, nada me surpreende. Mas uma variante dos porcos a voar é ver jornalistas a queixarem-se das "fugas de informação" dos processos judiciais”. Pacheco observa o caso todos os dias com base na parcialidade ou imparcialidade dos jornais e televisões e vê tudo à lupa. Quase sempre, mesmo sem querer, dá razão às palavras de António Barreto no blog Jacarandá: “O CLIMA ESTÁ INSUPORTÁVEL. Não o da chuva e do vento, da neve e do gelo. Para esse, há remédios. Mas o clima espiritual. Moral. Político. Como se lhe queira chamar”.

publicado por PRD às 03:19
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Terça-feira, 27 de Janeiro de 2009

Freeport (II)

O caso Freeport levantou de novo, como ontem aqui referi, a questão da justiça. Ela é presente no mundo dos blogues com assiduidade, e quase sempre sob a forma de perguntas. Recolhi ideias diversas sobre justiça, quase sempre a partir de perguntas, como sucedeu com Carlos Barbosa de Oliveira no Delito de Opinião quando se interroga: “Qual é o espanto?”. E escreve: “Leio no DN que o primeiro juiz de instrução do caso Freeport  suspeitou da celeridade invulgar com que se desenvolveu o processo depois de obtido o parecer positivo de impacto ambiental. Pudera! Com a celeridade da nossa Justiça, até um caracol parece um recordista dos 100 metros barreiras”.

Diogo Belford Henriques espera sentado sobre outro tema de justiça: “Daqui a quatro meses vai passar um ano desde o fim do mandato do actual Provedor de Justiça.  Há quase um ano que este senhor espera o seu sucessor (sem, para seu grande mérito, desistir de trabalhar). Quase um ano sem que o PS e o PSD se entendam sobre quem defende os cidadãos - e os seus direitos - perante o Estado. E o regular funcionamento das instituições democráticas, é isto?”

Noutro domínio, Rodrigo Moita de Deus interroga-se no 31 da Armada: “como resolver o problema de (in)segurança nos tribunais?”

Descobre uma notícia que anuncia: o Ministério da Justiça manda retirar as caixas de multibanco dos tribunais. E remata com a sua ironia habitual: “Sem tentações não há problemas”.

Como se vê, de formas diversas e efectivamente divergentes, a justiça atravessa os nossos dias com aquidade. Acabo por aterrar no novo blog de Paulo Pinto Mascarenhas, o ABC do PPM, onde o jornalista reflecte com propriedade sobre uma frase de Rui Ramos numa edição recente do Correio da Manhã. Escreveu o historiador: "no caso Freeport, basta saber que o essencial passa pela justiça portuguesa para adivinhar que o ruído será sempre maior do que os factos." Analisa então o Paulo: “A afirmação é grave e testemunha a enorme debilidade do nosso sistema democrático, até porque não se pode falar de uma verdadeira democracia sem um sistema de justiça credível e funcional, insuspeito de estar ao serviço do poder político conjuntural. Os Estados Unidos são o que são exactamente por isso: veja-se como, no dia da inauguração, o presidente do Supremo Tribunal de Justiça tomou posse, lado a lado, em plano de igualdade institucional e separação de poderes com o presidente Obama e o vice-presidente Biden. Talvez o Rui Ramos tenha razão: continuamos a ter essencialmente uma justiça mediática (...). Parece haver sempre muito barulho para nada. Como já se está a perceber, (...) o caso Freeport começa a morrer lentamente. Se fosse português, Dostoevsky escreveria Crime sem Castigo. Mas, última esperança, talvez o Rui Ramos não tenha razão e pode ser que o essencial também passe pela justiça britânica”.

Eu concordo com Paulo Pinto de Mascarenhas e espero o mesmo – mas o que gostava mesmo era que tudo passasse por uma justiça portuguesa e tal facto fosse um garante da nossa segurança e um sinal de democracia e liberdade. Mas isso deve ser pedir demais...

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Segunda-feira, 26 de Janeiro de 2009

Freeport (I)

O caso Freeport chegou na chamada hora H: ano de eleições, um caso que envolve de alguma forma o PS. E quase salpica o líder do partido por via familiar.

Curiosamente, o tema serve também outro desígnio: mascarar o fracasso do projecto do jornal Sol. O jornal que ia vencer o Expresso em menos de um ano sem fazer ofertas chega ao fim de dois anos a oferecer tudo o que vem à rede, e com a corda na garganta, vendendo afinal um quarto do que vende o Expresso. Vai mudando de sócios, vai tentando capitalizar dinheiro, mas já se percebeu que há mais nuvens do que Sol. Isso não impede de fazer o jeitinho e juntar as peças do puzzle e no mundo dos blogues há muita gente que preferiu embarcar nesta ideia: o Governo é que quer acabar com o Sol, não é propriamente o mercado que o rejeita.

Enfim, por aqui não alinho em campanhas e prefiro destacar quem escreve o que deve ser escrito. Um exemplo sobre este Freeport – o post de José Mendonça da Cruz no blog Risco Continuo: “O projecto Freeport é um projecto PIN, uma invenção socialista que dá pelo nome de Projecto de Potencial Interesse Nacional (...). Os PIN têm a fundamentação aparentemente razoável de tornar mais expedita a aprovação de grandes investimentos que beneficiem o país. Ao contrário, parecem-me uma confissão de incompetência e incapacidade para reformar a administração pública, a negação do mercado em favor do negócio de favor, e um convite à corrupção. São uma confissão de incompetência, porque onde a máquina administrativa funciona com normal celeridade e transparência, não é necessário abrir vias rápidas à sombra do governo para uns investimentos em especial. São uma negação do mercado em favor do negócio de favor, porque o que um Estado que tem tal lei está na verdade a anunciar é isto: os nossos regulamentos são incertos, a nossa burocracia é paralisante, antes de investir venha falar comigo (...). Anuncia, tristemente, ainda mais: venha falar comigo só se tiver dinheiro que chegue; pequenos e médios empresários, abstenham-se. E é natural que os socialistas - que abominam o mercado e a liberdade que ele dá, mas gostam de negócios de corredor e de como lhes dão poder - se revejam nesta lei.

Os PIN são, finalmente, um convite à corrupção, porque grandes investimentos ficam (...) dependentes de uma comissão que avalia subjectivamente se o projecto preenche os 6 requisitos enunciados no artigo 2º”. E José Mendonça da Cruz sugere que se analise o processo do outlet de Alcochete à luz dos tais requisitos.

A verdade é esta: este post tem opinião mas ela é sustentada por factos e levanta questões relevantes – não é apenas o clássico bota abaixo que mina a conversa de café e se estende ao mundo dos blogues.

Um caso judicial é isso mesmo – um caso para a justiça investigar e julgar. Opinião sobre ele, qualquer um pode ter. Mas entre os blogues que aceitam a teoria da conspiração sobre o ano eleitoral e os que, do outro lado, falam da perseguição ao jornal Sol, sinceramente prefiro que o dia passe só com este post, e este olhar sensato e útil. Há dias assim...

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Sexta-feira, 23 de Janeiro de 2009

Blog da Semana: Find Afonso Tiago

Comecemos pela noticia: um jovem investigador português que trabalha e vive em Berlim está desaparecido e foi visto pela última vez quando se dirigia para casa, há mais ou menos 15 dias, depois de ter estado numa discoteca local numa noite de fim de semana.

A policia investiga este desaparecimento, interroga amigos e colegas, mas até agora não há pistas sobre o que possa ter acontecido a Afonso Freire Novais dos Santos Tiago, de 27 anos, que estava a fazer um estágio de seis meses na delegação de Berlim de uma empresa portuguesa de projectos espaciais. Os amigos consideram-no uma pessoa com grande sentido de responsabilidade, o que torna ainda mais estranho este desaparecimento.

Ora bem: tenho vindo a mostrar, ao longo de meses, anos já, que o mundo dos blogues serve para muito mais do que apenas dar palpites ou desabafar estados de alma. E aqui temos mais um exemplo: praticamente desde o dia em que desapareceu, o nome de Afonso Tiago corre os blogues nacionais e alemães – corre o nome, correm fotografias dele, contactos para quem possa ter informações. E há mesmo um blog só sobre o caso, que é então o meu destaque da semana. Podem encontrá-lo em findafonsotiago.blogspot.com, está replicado também na plataforma do Sapo. No find Afonso Tiago, que está editado em várias línguas (Português, Alemão, Inglês, Francês e Turco), há fotos do jovem desaparecido, contactos, um mapa rigoroso onde se assinala o local onde foi visto pela última vez.

É possível ainda deixar comentários ou palavras de solidariedade. Leio por exemplo Henrique de Medeiros e Melo: “Não posso ficar indiferente ao desaparecimento de um português em terras estranhas. Que Deus esteja com ele e nos envie de volta são e salvo! Não o conheço mas espero que esteja bem. Á familia e amigos que com ele privam, não desesperem e força! Há que ter esperança! Um bem haja para todos que lhe são queridos e o meu mais sincero lamento e apoio nesta hora de angustia...”. Outros leitores acabam por fazer corrente, divulgando a noticia e os contactos nos seus blogues, como fez Nuno Faritas Lobo que escreveu: “Dei a minha pequena e singela contribuição no meu blogue (Tasca Real) e vai ficar em destaque durante algum tempo... Desejo que ele apareça e tudo acabe em bem (...). Boa sorte e força para o Afonso, família e amigos”.

Cria-se, assim, um laço, um gesto, solidariedade. E o blog vai mantendo acesa a chama e a força dos amigos e familiares que obviamente acreditam que o Afonso Tiago vai voltar. Um blog também pode ser este gesto e esta intenção, e é por isso que constitui a minha escolha desta semana.

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Quinta-feira, 22 de Janeiro de 2009

Blogoesfera, por um dia

Depois de dois dias dedicados a Obama, e com o tema ainda a dominar o mundo dos blogues, hoje a Janela afasta-se desse mundo vira-se para o umbigo, isto é, vira-se para a reflexão sobre a própria blogoesfera. Começo por encontrar José Medeiros Ferreira e é por ele que sigo a pista: “Quem entretem um blogue tem tendência a reflectir sobre a blogosfera. Estou aqui há pouco mais de 3 anos e já noto imensas diferenças neste universo. Há mais gente, mais «côteries» de apoio mútuo, os blogues muito colectivos levam a melhor nas audiências, não sei se na influência. A contra-informação fina também chegou a este meio (...). Nada disto me incomoda num meio tão personalizado e diversificado. Preocupam-me sim algumas desistências anunciadas de gente de qualidade. Esta semana recebi um e-mail muito significativo do João Vasconcelos Costa a dar conta de alguma desilusão com o meio. Agora leio uma reflexão pessoal do Francisco José Viegas em que este anuncia uma interrupção (...). Más notícias para a nossa blogosfera”.

Ora bem, fui ver então o Origem das Espécies. Francisco José Viegas fala num intervalo, numa pausa, mas vai deixando mensagens diversas:

“Há amigos que têm blogs e às vezes desistem; e há blogs que continuam. Há outras pessoas que têm blogs e não são meus amigos. Há pessoas que conheço e outras que não conheço. De vez em quanto há a tentação de fazer um balanço sobre a blogosfera e o seu ressentimento, a sua inutilidade, a sua maldade -- tanto como sobre as coisas indispensáveis que ela trouxe. Evito. Há coisas que nos deixam irritados com os outros e coisas que nos deixam despertos para os outros; os blogs fazem, em todos nós, parte da irritação e da sensação de partilharmos ideias comuns ou incomuns”. Viegas diz depois que já gostou mais de blogues e já leu mais do que lê hoje e lembra que “Estamos hoje muito vigiados; somos vigiados por leitores, vizinhos, colegas de trabalho, pessoas que nos amam ou nos detestam (...). A net é barata, acessível e livre. Dá para tudo, para o melhor e para o pior, para a maledicência e para a aldrabice, (...) e para a banalização de tudo. É aí que estamos todos. Perdeu-se muita inocência na internet. Às vezes, ainda bem; de outras vezes, infelizmente”.

Percebe-se nas palavras do escritor e jornalista algum desencanto, algum cansaço. Curiosamente, no mesmo dia, noutro blog, o Ares da Minha Graça, Patti mostra o lado bom da mesma moeda: “As razões que nos prendem aos textos, aos temas, aos amigos, às visitas, aos comentários, às trocas e emoções são muitas, imensas e tão diferentes para todos nós. Mas uma é igual, a partilha. A partilha de algo muito nosso”. E depois de reflectir sobre o blog, remata com a cereja em cima do bolo: “Escrever não será nada mais que isto. A forma que sem saber, encontrei de estar mais tempo comigo. Às vezes só me faltava eu”.

E é por estas e por outras que, mesmo com momentos menos encantados, como aquele que vive Viegas, o mundo dos blogues continua a ser rico e fascinante. E a Janela continua a abrir-se todos os dias...

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Quarta-feira, 21 de Janeiro de 2009

Somos todos americanos

Era natural que, no meio das evocações que a eleição de Barack Obama inspirou, chegasse a vez desta: somos todos americanos. Foi isso que José Carlos Guinote escreveu no blog Pedra do Homem:”Hoje existem razões para todos nos sentirmos americanos. Apesar das decepções, apesar dos recuos, apesar de por vezes parecer estar instalada a pura barbárie na politica internacional, momentos como este que temos o privilégio de estar a viver parece quererem desmentir tudo isso e acender um clarão de esperança”.

O clarão foi um dia inteiro de Obama nas televisões, tudo em directo, e o discurso inaugural mais esperado das últimas décadas. É por aí que vou, começando por ler Carlos Manuel Castro no Camara de comuns, a dizer que “Esperava melhor intervenção de Obama na tomada de posse. Obama limitou-se a dizer o que qualquer eleito podia proferir”.

Carlos Santos, no Valor das Ideias, não concorda e escreve: “Um dos mais brilhantes oradores da História dos EUA tomou posse como 44º Presidente. E fez o discurso que se anunciava: apelou à unidade dos americanos neste momento de crise. E voltou a enunciar as suas prioridades: o combate à crise e a saída das dificuldades económicas assente numa aposta forte na regulação de mercados, no ambiente e na energia”. No blog Avenida Central, Vítor Pimenta chama ao discurso um sermão – “sim, escreve ele, porque haverá poucas homilias com mais louvores a Deus e à sua criação. (...) Fosse Obama cumprimentar os presentes em cima de um andor de flores brancas e julgaria estar naqueles dias em que o choro na "Procissão do Adeus " enche a quase plenitude das emissões televisivas nacionais pelo 13 de Maio”.

Procuro, portanto, opiniões e ideias diversas sobre as palavras do novo presidente - LR, no Blasfémias, só viu ali “os habituais lugares comuns em liturgias do género”, enquanto Medeiros Ferreira prefere analisar as palavras para concluir que “Obama escolheu fazer um discurso discreto no acto de posse. Simples e enérgico”. E deixa a pergunta: “Para forçar um down-grade nas expectativas?”. Mesmo com esse down-grade, Laurinda Alves foi às nuvens e deixou apenas duas frases no seu blog: “Não há palavras para tanta emoção. Grande discurso!”

Por fim, encontro Miguel Morgado, no blog Cachimbo de Magritte, que perspicaz nota a relevância de um pormenor quando Obama cita Washington: “Nessa citação, escreve, Washington diz que no pior dos momentos valeu à América a "esperança" e a "virtude". Repare-se, não foi só a esperança, mas também a virtude. Um detalhe insignificante? Talvez não. É que a virtude jamais pode ser confundida com um optimismo sorridente próprio de gente acéfala ou inconsciente; não pode ser confundida com um optimismo que por vezes parece ser assimilado a uma espécie de técnica psicológica primitiva de geração de um vazio contentamento. A esperança acompanhada pela virtude pode agora ser o optimismo de quem enfrenta a adversidade com o queixo levantado e sem piscar os olhos”.

E é assim que o nasce o tempo de Obama...

 

publicado por PRD às 03:10
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Terça-feira, 20 de Janeiro de 2009

Fazer História

Sonho americano – é assim que o mundo vê o que hoje sucede nos Estados Unidos da América, é assim que leio no blog Risco Continuo José Mendonça da Cruz recordar Martin Luther King e o sonho: “I have a deram”. Por isso mesmo, também, “um dia histórico para os americanos e para o mundo em geral”, como escreve Carlos Barbosa de Oliveira no Delito de Opinião. E acrescenta: “Vira-se uma página negra na história mundial, escrita com letras de sangue por um imbecil chamado Bush (...). Dir-se-á que qualquer que fosse o eleito, o mundo respiraria sempre de alívio. Concordo, mas com Obama não é apenas uma nova página que se abre. É o início de um novo capítulo na História Contemporânea”. Quem quiser seguir o novo capitulo com precisão, rigor e sempre em cima da hora, tem de visitar o blog de Nuno Gouveia, Politica 2008, onde a tomada de posse e os meandros da presidência norte-americana são vistos ao minuto e ao milímetro. Mas continuando a ronda das opiniões, leio José Teófilo Duarte no Blog Operatório: “É tempo de arregaçar as mangas. O anterior ocupante da sala (...) deixa-lhe um ramalhete de sarilhos. (...) Há despedidas boas, que não deixam saudades. É nessas alturas que as boas vindas são mais saborosas”. Na verdade, a parada está alta e Nuno Dias da Silva tem razão quando escreve no blog Civilização do Espectáculo que “as expectativas (...) são quase messiânicas, o que faz com que o seu discurso seja aguardado com enorme expectativa. Mas, para colocar água na fervura, o presidente eleito já disse para os americanos se prepararem para frustrações e revezes na sua administração”. O mundo não muda de um dia para o outro nem apenas pela mão de um Presidente, é óbvio – mas Obama reúne paixões tão fortes como a que leva Miguel Marujo, no Cibertulia, a escrever: “Hoje o mundo fica mais limpo, mais atento, mais bonito, mais cuidado, mais transparente, mais luminoso, mais azul, mais humano, mais sábio, mais inteligente, mais fascinante, mais curioso, mais respirável, mais humilde, mais mundo, mais...” Uf, que até cansa! Veja-se que até o sempre desconfiado José Saramago se deixou ir na maré, e deixou hoje um post nos seus Cadernos onde diz: “Talvez todos sejamos crentes desta nova fé política que irrompeu em Estados Unidos como um tsunami benévolo que tudo vai levar adiante separando o trigo do joio e a palha do grão (...). Fosse por simples casualidade, fosse de caso pensado, Obama, nos seus múltiplos discursos e entrevistas, disse tanto de si mesmo, com tanta convicção e aparente sinceridade, que a todos já nos parece conhecê-lo intimamente e desde sempre. O presidente dos Estados Unidos que hoje toma posse resolverá ou intentará resolver os tremendos problemas que o estão esperando, talvez acerte, talvez não, e algo nas suas insuficiências, que certamente terá, vamos ter de lhe perdoar, porque errar é próprio do homem como por experiência tivemos de aprender à nossa custa”. Saramago remata com um bem a seu jeito “veja lá no que se mete”. E é nisso, afinal, que todos pensamos neste dia que faz História e que se deseja histórico no futuro.
publicado por PRD às 23:55
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Segunda-feira, 19 de Janeiro de 2009

De Sócrates ao CDS

Dois temas políticos que marcaram o fim-de-semana, a apresentação oficial da candidatura de José Sócrates a mais um mandato na liderança do PS, e o Congresso do CDS/PP. Sobre Sócrates, duas notas: Pedro Santana Lopes, no seu blog, tenta explicar o regresso dos casamentos homossexuais à agenda socialista e escreve – “"Estava na cara", como tive ocasião de sustentar, há quatro anos (...). Para compensar as suas decisões, pouco ou nada socialistas, na política económica e, por vezes, nos apoios sociais, o actual Primeiro-Ministro vai aprovando mudanças legislativas no plano das opções éticas e das regras fundamentais da organização social”. No Insurgente, Rodrigo Adão da Fonseca sublinha o “discurso escorreito” de José Sócrates, “que utiliza com propriedade expressões como “estabilidade”, “estratégia”, “acção”. Sócrates utiliza um tom tão virginal no seu discurso, na forma como enuncia “promessas eleitorais”, que quase me convence que se está a candidatar pela primeira vez. Eis que me lembro, de repente: Sócrates está no governo desde 1995, nos últimos 14 anos, teve responsabilidades ao mais alto nível durante 11 anos, 4 deles como Primeiro-Ministro e maioria absoluta no Parlamento…” E conclui: “11 anos em 14 de governo. É muito tempo para falar com tanta arrogância sobre os problemas, como se nada tivessem a ver com o estado do país”. João Gonçalves, no Portugal dos Pequeninos, ajuda-me aqui a fazer a ponte entre o PS e congresso do CDS: “Já tínhamos o admirável Sócrates. Agora, pela voz de Ricardo Costa, o editor de política da SIC, o CDS/PP tem um "líder magnético". Por acaso, o dr. Portas até fez um bom discurso nas Caldas. Só que de retórica já estamos razoavelmente bem servidos. E clareza e verdade nos propósitos não são "minudências". Nunca - lembra o filósofo - há bom vento para quem não conhece o seu porto. Mesmo para chefes "magnéticos"”. Já João Távora acha, no Risco Continuo, que Paulo Portas “pode agradecer às minudências e a alguns inconformados militantes, terem salvo o congresso de se tornar numa enfadonha feira de vaidades. Quanto à sua estratégia de disputar o fatal centrão (...), não lhe antevejo grande sucesso...” Excelente cobertura do Congresso foi a que fez Emídio Fernando no blog “Correio Preto”. Num dos posts, destaca “Pensamentos profundos democratas-cristãos”, ou seja, “as frases mais ouvidas, as mais belas e as que servem de guia para se chegar à direcção de Paulo Portas”. Eis algumas: “Saímos daqui mais fortes, mais unidos, mais moralizados” “O CDS é um partido democrata-cristão (esta, às vezes, desaparece de um congresso para o outro)”; “Temos um grande respeito pelo líder do partido (é repetida por causa das dúvidas)” “Conte connosco, conte connosco, conte connosco” “Credibilidade, credibilidade, credibilidade (dita com voz falsete e com uma mão levantada a acenar dá direito a entrada directa no Conselho Nacional)” Mais seco, o blog 31 da Armada cita Portas: "Este foi um congresso de políticas novas. Não foi um congresso de politiquice". E conclui: nesse caso, “não foi um congresso”...
publicado por PRD às 23:54
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Sexta-feira, 16 de Janeiro de 2009

Blog da Semana: Blog de Letras, Artes e Ideias

Não se esconde a origem nem a inspiração: está lá o logótipo do jornal e ao lado claro como água “Blogue de Letras, Artes e Ideias” – é o blog do JL, o jornal cultural que resiste ao tempo e a todas as mudanças e que daqui a 15 dias publica a sua edição nº 1000. Bom, esse seria já um bom motivo para a minha escolha da semana recair no blog do JL – mas infelizmente, há outra, bem mais triste, porém relevante: esta semana morreu Rodrigues da Silva, o jornalista que nos últimos 15 anos dedicou a escrita e o talento justamente ao Jornal de Letras. E o blog reflecte isso mesmo: um conjunto de textos, de homenagens a Rodrigues da Silva, podem ali ser lidos fora do ambiente sempre mais contido das páginas do jornal - um “imenso adeus” onde se escreve: “Era o primeiro a chegar à redacção. A meio da manhã, escondido atrás da secretária, junto à janela, um texto já estava feito. De um lado, um bloco de notas com as ideias alinhadas, a escrita rápida, meio inclinada, mas segura; do outro, um dicionário – de português, de francês, de cinema – para qualquer dúvida que surgisse. Era o que mais gostava no jornalismo. Escrever. Podia ser sobre qualquer assunto, uns mais do que outros, é certo, mas se alguma informação tivesse de ser acrescentada ao seu BI seria essa: gosta de escrever. As mãos bem presas ao teclado, que produzia um som contínuo, só suspenso por alguns momentos para cofiar a barba, para uma passa no cachimbo ou para escolher a palavra exacta. E o Zé Manel era jornalista de palavras exactas, de palavras certas. Não lhe interessavam os lugares comuns, as ideias feitas, as expressões alheias. Construía o seu próprio léxico, que era eminentemente oral, metido à sorrelfa a meio das conversas de todos os dias, mas que depois era construído, reconstruído e sublimado pelo savoir-faire do artífice da escrita em que se tornava quando se sentava ao computador, à máquina de escrever, quando se via com uma caneta na mão”. São muitas as palavras que estão no blog e que homenageiam e recordam Rodrigues das Silva. É claro que, para lá deste momento especial que afecta a vida do Jornal de Letras, o blog tem contributos de muitos colaboradores e reflecte os interesses específicos da publicação: literatura, cinema, artes plásticas, musica, educação, filosofia, vida académica, um pouco de tudo se encontra neste espaço que acaba por complementar, no dia a dia, o trabalho do jornal. Está em bloguedeletras.blogspot.com, é então a minha escolha da semana e uma forma de mandar daqui também o abraço solidário aos amigos de Rodrigues da Silva e uma saúde antecipada pelo milésimo número do JL.
publicado por PRD às 23:53
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PRD

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Estes textos são escritos para serem “falados”, ou “lidos”, pelo que não só têm algumas marca de oralidade (evidentemente, propositadas...) como é meu hábito improvisar um pouco “em cima deles” no momento em que gravo a rubrica. Também é relevante dizer que, dado tratar-se de uma “revista de blog’s” – e uma vez que os blog’s não se preocupam com a oralidade ou com a eventual citação lida dos seus textos -, tomo a liberdade de editar minimamente os textos que selecciono. Faço-o apenas para que, em rádio, não se perca a ideia do blogger pelo facto de escrever frases longas e muito entrecortadas. Da mesma forma, não reproduzo palavrões nem frases pessoalmente ofensivas, assim como evito acusações cuja possibilidade de prova é diminuta ou inexistente. Sendo uma humilde crónica de rádio, tinha ainda assim de ter alguns princípios. São estes. Quem tiver razão de queixa, não hesite!

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Seis anos já cá cantam.

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