Sexta-feira, 31 de Outubro de 2008

Blog da semana: Cidadania Lx

Mais do que um blog da semana, hoje escolho um caso da semana, um caso exemplar de como os feitiços se podem virar contra os feiticeiros.

Tornando uma longa história, curta: Miguel Sousa Tavares, com o brilhantismo que o caracteriza, tem vindo a denunciar na imprensa, nomeadamente na sua coluna do Expresso, as atrocidades que a Administração do Porto de Lisboa vai cometendo contra o rio, a cidade e os interesses dos cidadãos da capital. A essa instituição acrescentou recentemente o Governo, quando denunciou a ampliação da capacidade do terminal de contentores de Alcântara, que implica a criação de uma muralha com cerca de 1,5 quilómetros com 12 a 15 metros de altura entre a Cidade de Lisboa e o Rio Tejo.

Caiu o Carmo e a Trindade, abriu-se o debate, até o Dr. Mário Soares veio elogiar “o artigo tão corajoso, lúcido e oportuno”, onde “exprime a sua sensibilidade e indignação de lisboeta - que coincide com a minha - por as autoridades camarárias, portuárias ou seja quem for, estarem de novo a tirar a vista do Tejo aos lisboetas, aos portugueses e aos turistas”.

Do artigo á petição foi um passo, e aí está ela na Internet, promovida pelo próprio Miguel Sousa Tavares, “os abaixo-assinados vêm pelo presente meio solicitar à Assembleia da República que sejam tomadas as medidas necessárias para impedir este atentado estético e económico contra o País, contra Lisboa e contra os seus cidadãos”.

Ora bem: é sabido que Miguel Sousa Tavares tem sido um dos mais violentos críticos da blogesfera, dos blogues em geral, metendo-os todos no mesmo saco do anonimato, da infâmia e do insulto, do boato e da difamação. Mas agora pergunta-se: quem promove a petição de Miguel, quem acompanha minuto a minuto os diversos passos do processo, quem faz multiplicar a corrente de informação?

São os blogues. Nem mais. Pela boca morre o peixe, diria então, já que se fala do Tejo. E deixo o exemplo mais claro, acabando por recair nele a minha escolha semanal: cidadanialx.blogspot.com. É o blog do “Movimento Fórum Cidadania Lisboa”, “que se destina a aplaudir, apupar, acusar, propor e dissertar sobre tudo quanto se passe de bom e de mau na nossa capital, tendo como única preocupação uma Lisboa pelos lisboetas e para os lisboetas”.

O blog trata de Lisboa mas nos últimos dias trata basicamente de contentores e do rio e do Governo e do Porto de Lisboa. Dos relatórios do Tribunal de Contas sobre as administrações portuárias a todas as noticias, crónicas ou opiniões sobre o tema, o blog é em si uma causa – e remete para a petição do colunista do Expresso e da TVI.

É interessante ver como o que começa por ser um inimigo pode tornar-se repentinamente um aliado. Sousa Tavares vai aprender essa lição: o que de mau pode ter um blog para espalhar boato ou difamação, pode ter de bom para transformar uma micro-causa numa mega-causa. A cidade merece, com certeza.

publicado por PRD às 18:27
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Quinta-feira, 30 de Outubro de 2008

Um mais um igual a dois

E num só dia, a educação voltou a dominar a agenda nacional, os rankings voltaram à ordem do dia, mas o que mais mexeu com o mundo dos blogues foi mesmo os resultados dos exames do 9º ano de Matemática, que de um ano para o outro se tornaram um caso de sucesso: 97 por cento das escolas obteviveram uma classificação positiva. No ano passado, apenas 66 por cento tinha conseguido tal obra.
“O facilitismo colhe resultados... estatísticos!”, comenta António de Almeida no blog Direito de Opinião, que classifica as provas como “básicas” e sugere que para o ano “permitam cábulas e coloquem um explicador ao lado de cada aluno, talvez possam alcançar a excelência, 100% de resultados positivos, o eduques está imparável”.

JRV, no Activismo de Sofá, adapta o provérbio popular: “Quando os resultados são grandes, o povo desconfia”. E acrescenta: “Como já se tornou de senso comum, os exames parecem ter sido feitos para “facilitar um pouco mais” (...). Não vejo que tal represente uma qualquer catástrofe uma vez que, nos anos anteriores, a proliferação de chumbos também não demonstrava mais do que uma perfeita desadequação entre o que é ensinado nas escolas e o que é sujeito a exame (...). O Ministério da Educação e a sua titular acabam, no entanto, por sair muito mal desta fotografia ao insistirem que esta melhoria é apenas o resultado de um maior esforço de alunos e docentes. Ó meus amigos, o povo é distraído, mas nem tanto…”. Nada distraído, Filipe Tourais, no blog Pais do Burro, é peremptório: “Sucesso total rumo ao analfabetismo certificado”: “A tutela insistiu que é consequência do maior esforço de alunos e docentes. Todos os professores que conheço queixam-se que uma grande maioria de alunos que chegam ao 12º ano lêem mal e escrevem ainda pior. Sobre os conhecimentos em matemática, nem falar”. Nuno Ramos de Almeida, no Cinco Dias, também tem nome para estes dados: chama-lhes “Estatística de Potemkin” e explica: “A verdadeira realidade é como o Natal: é aquilo que um ministro quiser. O encarregado das estatísticas é apenas uma espécie de rena do trenó. Por uma questão de facilidade e rigor histórico podem chamar ao doce quadrúpede de Potemkin.”. Rodrigo Moita de Deus segue o seu instinto e faz humor, reproduzindo um presumível Excerto do exame de Matemática do 9º ano: “Um magalhães mais um magalhães é igual a quantos magalhães?”.

No meio desta discussão, vem o Conselho Nacional da Educação propor ao governo o fim das reprovações no ensino básico. A noticia foi do Diário Económico e parecia a cereja em cima do bolo. Deixo uma amostra do nível dos comentários que li. Está no blog Geração Rasca e é assinado por Leonor Barros: “No futuro, insucesso será um conceito obsoleto no Ensino, mesmo que o povo não saiba ler uma letra do tamanho de um camião. Quanto mais ignorantes melhor. As ditaduras alimentam-se da ignorância”. O tema promete, isso podem ter a certeza...

publicado por PRD às 22:25
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Quarta-feira, 29 de Outubro de 2008

Salário Muito Mínimo

Ainda na ressaca da entrevista de José Sócrates, o debate sobre o aumento do ordenado mínimo. Opiniões diversas, seja sobre o anuncio, seja a posterior reacção do PSD, destaco uma análise de Manuel Jorge Marmelo, no blog Teatro Anatómico, que eu arriscaria dizer que seria subscrita por boa parte da população:

“O aumento do ordenado mínimo em Portugal fica sempre acima das possibilidades dos empresários e abaixo das necessidades do país. (...) O ordenado mínimo em Portugal devia ser pelo menos parecido com o espanhol, o francês ou o italiano, uma vez que aqueles que auferem desse ordenado adquirem os bens de consumo aos mesmos preços do que os cidadãos daqueles países, quando não pagamos mesmo preços mais caros (...). Um ordenado de 450 euros, sejamos claros, é pouco, é muito pouco. É o salário da fome, o princípio de uma apagada e vil miséria. Mas, para as empresas e para os empresários portugueses, um ordenado de 450 euros constitui uma extravagância atroz. Se pudessem, as empresas e os empresários portugueses baixavam o ordenado mínimo para 150 euros, para 100 euros, para tentarem competir com os chineses. Aliás, na China é que essa gente estava bem”.

Carlos Loureiro, no Blasfémias, vê neste aumento, a na lei subjacente, “quase um Ovo de Colombo”: “Com o fim da indexação das pensões e de vários subsídios públicos ao valor do Salário Mínimo Nacional, o Governo passou a poder decretar o valor que muito bem entender, satisfazendo eleitores e aumentando a receita pública (...) sem aumentar a despesa na mesma medida. Uma parte significativa da redução do défice deve-se a ela”. O seu colega de blog João Miranda nem hesita: “Subidas do salário mínimo de 5,6% quando se fala em risco de deflação?” O resultado é: “desemprego”.

No Atlântico, Pedro Marques Lopes, que até é próximo dos sociais-democratas, prefere observar a reacção do PSD: “A Dra Ferreira Leite critica o pseudo-anúncio do Primeiro-Ministro acerca do salário mínimo apelidando-o de irresponsável quando o acordo tinha sido obtido em sede de concertação social – e por unanimidade – há muitos meses.  Mas o disparate não se ficou por aí. Questionada para um melhor esclarecimento da questão, disse que até nem era contra o aumento do salário mínimo (...), era só contra o anúncio... Se calhar a estratégia do silêncio é, de facto, a mais apropriada”.

À esquerda, mas no mesmo sentido, vai Pedro Sales no Arrastão: “Manuela Ferreira Leite, sempre pronta a denunciar o incumprimento pelo Estado dos seus compromissos com as empresas, disse ontem que o primeiro-ministro “roça muito a irresponsabilidade” por ter “anunciado” um aumento do salário mínimo há muito acordado em concertação social”. Comentário: “Está certo. Ferreira Leite sempre disse estar preocupada com a nova pobreza, nunca disse nada sobre a velha”.

E esta ideia da pobreza velha e nova remeteu-me, assim sem mais nem quê, para o blogue dos Marretas que, face à actual situação, pergunta com ironia e recordando uma campanha recente: “Ainda haverá alguém que queira ser dono de um banco?”

publicado por PRD às 22:23
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Terça-feira, 28 de Outubro de 2008

O veto

Noticia do dia, sem duvida o veto de Cavaco Silva ao novo Estatuto dos Açores. Foi a segunda vez, toda a gente acha que não haverá terceira. Até lá, o debate. “OBVIAMENTE, VETEI-O”, título feliz para o post de Jorge Ferreira no Tomar Partido: “Como se vê, gestos simples podem ter imenso significado, sobretudo quando se trata de um diploma aprovado por incompreensível unanimidade no Parlamento. Para quê empatar o país durante um dia se é tão simples, afinal, usar o pouco poder que se tem? Concordo com a decisão e digo mais: quando Cavaco quer actua. Quando não actua, vide lei do divórcio por exemplo, é porque não quer. Poderia então poupar na literatura”.

João Gonçalves observa o tema de forma mais política e objectiva: “Cavaco não aceita a "sujeição" do órgão de soberania que representa aos jogos florais das "audições". Pelo andar da carruagem, o PR ainda um dia deste teria de ouvir o porteiro de Belém para saber se devia entrar no Palácio. Desde 1983 que o "arco constitucional" partidário decidiu apoucar os poderes presidenciais. Deixaram para o presidente aquilo a que, de forma idiota, apelidam de "bomba atómica", a dissolução do parlamento, a qual, por acaso e até agora, tem sido utilizada com senso e parcimónia pelos incumbentes”. A este propósito, diga-se, é pertinente Paulo Pinto de Mascarenhas, que leu com atenção o texto que sustenta o veto e lança fogo: “Por três vezes na sua mensagem (...) fala o Presidente da República de estar em risco o normal funcionamento das instituições democráticas. (...) Lembre-se que o regular funcionamento das instituições é uma das causas previstas no nº 2 do artigo 195º da Constituição para a demissão do Governo. Se alguém no Governo e no PS não o levou a sério no primeiro veto, parece ter chegado o tempo de reconsiderar e ponderar bem o passo seguinte”. No Vox Pop, Paulo Gorjão limita-se a comentar: “José Sócrates anda a brincar com fogo. Sem querer, ainda se queima”. Eduardo Pitta não está de acordo e no seu blog escreve: “ posição do Presidente da República não traduz um braço-de-ferro com o Partido Socialista. Nas suas duas versões, o diploma foi aprovado por unanimidade. (...) Logo, a existir um braço-de-ferro, ele será entre o Presidente da República e a Assembleia da República”.

Um blog Açoriano, In Concreto, e uma análise, a de Tibério Dinis: “a situação política tornou-se mais complicada. Importa não esquecer que o diploma foi aprovado por duas vezes por unanimidade por duas câmaras eleitas (...). Antes da AR avançar para confirmação é necessário fazer um estudo exaustivo das normas que suscitam dúvidas, pois no futuro poderão ser declaradas inconstitucionais (...), o que poderá levar a becos sistemáticos. E entre um estatuto cheio de buracos devido a inconstitucionalidades e o actual inteirinho, não sei o que é melhor”.

O tema tem o seu lado aborrecido e técnico, mas é relevante, porque coloca Cavaco Silva numa posição de força e a Assembleia na dúvida entre dar o braço a torcer ou comprar uma crise desnecessária nesta fase do jogo. Vamos ver o que sucede...

publicado por PRD às 22:21
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Segunda-feira, 27 de Outubro de 2008

Dez anos

Escreve Vítor Dias no blog Tempo das Cerejas: “É sabido que, quando nos morrem pessoas mais queridas, mais estimadas ou mais próximas, a primeira reacção é quase sempre a de ainda não acreditar ou não querer acreditar que seja verdade. E essa primeira reacção quase sempre prolonga-se por uns dias. Não sei explicar porquê mas hoje, quando se completam 10 anos sobre o desaparecimento do grande homem e grande escritor que foi José Cardoso Pires, a minha reacção continua a ser ainda a de não querer acreditar que assim foi e que ele já não está connosco”.

Pois bem: este sentimento é, aos poucos, o que vou encontrando no mundo dos blogues neste fim-de-semana em que passa uma década já sobre a morte do escritor. Parece que foi ontem no sentido em que Cardoso Pires continua felizmente muito presente nos nossos dias, nas nossas vidas... “Excepcional escritor e homem de letras, (...) cidadão íntegro e vertical, (...) democrata coerente e combativo e (...) sólido humanista”, não deixa de sublinhar Vítor Dias.
Paula Crespo, no blog “Uma espécie de Mim”, recupera uma canção de Fausto para escrever “O barco foi de saída” e depois recorda o José Cardoso Pires lisboeta por adopção: “percorre as ruas da cidade, temperando-as das sensações que colhe a cada passo, das emoções, dos pensamentos. É uma Lisboa subjectiva esta, na primeira pessoa, como o é a cidade de alguém cheio de alma, cujo olhar se detém nos pormenores e os traduz numa escrita depurada”. Outro olhar, o de Sérgio de Almeida Correia no blog Bacteriófago: “Será sempre neste país uma das suas almas inquietas e um exemplo da clareza, da lucidez, da intervenção cívica oportuna e da elegante classe de um escritor, contista ou romancista”. E cita-o, com oportuna actualidade: "Vivemos numa época em cada qual fala para si mesmo na companhia de muitos outros".

João Gonçalves, no Portugal dos Pequeninos, homenageia o escritor reproduzindo as palavras que Vasco Pulido Valente escreveu no Público justificando previamente a prosa; «Quando um amigo morre, tanto faz que tenha sido há dez, vinte ou trinta anos. Mas Cardoso Pires morreu há dez; e não há nenhum mal em aproveitar a convenção para falar dele”. Vasco escreve e acrescenta ao que se sabe: “Antes de ele morrer, jantámos meia dúzia de vezes, com uma certa melancolia. Estava amargurado e, pior do que isso, como ele próprio insistia, estava "sozinho". O "Prémio Pessoa" ainda o consolou. Muito tarde. Ninguém como ele contribuíra para transformar o português literário, arcaico, rural e afectado, ou populista, académico e pseudo-lírico, numa língua moderna..”
Essa língua que o mundo dos blogues convoca e que não deixa passar em claro a data. Dez anos sem Cardoso Pires – mas sempre, para sempre, com o que escreveu e nos deixou.

publicado por PRD às 20:20
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Sexta-feira, 24 de Outubro de 2008

Blog da semana: Caderno de Saramago

Hesitei antes de o escolher, deixei passar algumas semanas, no fundo queria perceber até que ponto estamos perante um blog. Mas acho por fim que este Caderno de Saramago é um blog. É o de José saramago, escritor e Nobel, que conta de forma simples a história de quando, nos idos de 90, se instalou com a mulher em Lanzarote, e os cunhados lhe oferecerem, cito, “um caderno que deveria servir de registo dos nossos dias canários. Punham uma só condição: que de vez em quando fizesse menção das suas pessoas. Nunca escrevi nada no tal caderno, mas foi desta maneira, e não por outras vias, que nasceram os Cadernos de Lanzarote, que durante cinco anos veriam a luz. Hoje, sem esperar, encontro-me numa situação parecida. Desta vez, porém, as causas motoras são Pilar, Sérgio e Javier, que se ocupam do blog. Disseram-me que reservaram para mim um espaço no blog e que devo escrever para ele, o que for, comentários, reflexões, simples opiniões sobre isto e aquilo, enfim, o que vier a talhe de foice. Muito mais disciplinado do que frequentemente pareço, respondi-lhes que sim, senhor, que o faria desde que não me fosse exigida para este Caderno a assiduidade que a mim mesmo havia imposto nos outros. Portanto, pelo que isso possa valer, contem comigo”.

E na verdade, com frequência, ali está o escritor reflectido, os seus pensamentos, as suas ideias – nuns dias com maior actualidade, noutros dias sem actualidade alguma. Esta semana, por exemplo, encontrei lá uma análise à escrita de Chico Buarque de Holanda no livro já com algum tempo, Budapeste. Pelos vistos, o livro mexeu com o escritor, e o elogio é rasgado:”Chico Buarque ousou muito, escreveu cruzando um abismo sobre um arame, e chegou ao outro lado. Ao lado onde se encontram os trabalhos executados com mestria, a da linguagem, a da construção narrativa, a do simples fazer. Não creio enganar-me dizendo que algo novo aconteceu no Brasil com este livro”.

Mas no Caderno de Saramago também há política, quando por exemplo diz que os gestores responsáveis pela actual crise económica são “criminosos (...) conhecidos, têm nomes e apelidos, (...) e tão seguros de si mesmos que nem sequer pensaram em esconder-se. São fáceis de apanhar”. Pergunta: “Quem se atreve a levar este gang aos tribunais? Ainda que não o consiga, todos lhe ficaremos agradecidos. Será sinal de que nem tudo está perdido para as pessoas honestas”.

O blog não tem comentários dos leitores, o que é pena, tem um design modesto, simples, mas é efectivamente o blog de um grande escritor. Em dois meses já lá publicou mais de 25 textos. Quem o quiser seguir é só ir ao endereço caderno.josesaramago.org. Podemos amar ou odiar, podemos concordar ou discordar, mas é sempre bom ler quem sabe escrever e pensar. É o caso – e é muito por isso que constitui a minha escolha desta semana.

publicado por PRD às 23:17
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Quinta-feira, 23 de Outubro de 2008

Crédito com fundo e confuso

No meio da crise, a questão do crédito á habitação parece a que mais preocupa as pessoas, pois é nesse capitulo da economia doméstica que se encontra a fatia de leão dos débitos. O Governo tenta criar almofadas para a situação, e os consumidores tentam perceber essas almofadas. No mundo dos blogues, o tema merece atenção. No Arrastão, Pedro Sales tenta explicar e analisar:

“As famílias em dificuldades de pagar o crédito à habitação, e que recorram aos fundos imobiliários agora anunciados pelo Governo, verão a sua casa avaliada por uma comissão independente (...). A maioria (...) estará a vendê-la por um valor inferior ao do empréstimo que contraiu. Ficará a pagar uma renda com base nessa diferença, que lhe será desfavorável, e que implica uma diminuição dos seus encargos mensais (...). Este redução dos encargos é conseguida através do primeiro produto financeiro totalmente isento de impostos. (...) Todas as mais valias ficam para os bancos. Livram-se do crédito malparado (...) e ainda ganham dinheiro com as isenções fiscais (...). Para quem não tem mais um cêntimo ao fim do mês esta poderá ser a única alternativa, para todos os outros é o negócio mais ruinoso desde que os índios venderam Manhattan por 24 dólares”.

E no fim, recupera um editorial do Jornal de Negócios onde se aconselha: “Faça as contas antes de fechar negócio. O inferno tem fila à porta de financeiros americanos mas ainda lá há espaço para as boas intenções dos portugueses”.

Rodrigo Adão da Fonseca, no Insurgente, acha que vai confusão na cabeça de Pedro Sales: “Se a solução é tão ruinosa para as famílias, há sempre uma hipótese para os coitados de que o Pedro Sales fala: não venderem as suas casas ao Fundo Imobiliário, e pagarem as suas dívidas. Ou o Pedro Sales ainda queria que quem não paga o que deve, tenha benesses e batatinhas?”.

Carlos Manta Oliveira, no Blog 27, analisa a ideia e conclui: “Estes fundos são uma hiper-duração no contrato. (...) Um bom negócio? Claramente que não, é um último recurso, a evitar sempre que possível”.

No Teatro Anatómico, Manuel Jorge Marmelo, desconfia do Governo: “Suspenda-se, por um instante, aquilo a que o ministro das Finanças chama "preconceito ideológico" e imagine-se que o Governo está realmente preocupado com as famílias (...). Faça-se este exercício. Não custa nada. Mas, ainda assim, convém perguntar: se o Governo estivesse realmente preocupado com as famílias, não seria lógico estender a quem tem dificuldade para pagar as prestações do crédito à habitação os mesmo benefícios fiscais que os bancos vão receber, permitindo-lhes, por exemplo, não pagar as contribuições de que os tais fundos imobiliários estarão isentos?”.

É uma pergunta pertinente. Que de alguma forma explica a razão pela qual encontrei em pelo menos 6 blogues diferentes a reprodução na integra da ultima crónica de Ricardo Araújo Pereira na Visão. Onde ele escreve: “Vivemos tempos difíceis, e julgo que todos, sem excepção, temos de dar as mãos. Por mim, dou as mãos aos bancos. Assim que eles tirarem as mãos do meu bolso”.

publicado por PRD às 23:15
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Quarta-feira, 22 de Outubro de 2008

Agora também em blog...

Até hoje, eu achava que o universo dos blogues, e do que anda à sua volta, se distinguia do mainstream da comunicação por uma certa libertação dos paradigmas da comunicação clássica. Na blogoesfera, quem quer abre um blog e diz o que pensa – e esta diferença essencial faria com que deste universo estivessem para sempre afastados os nomes que fazem a banalidade nos outros meios de comunicação.

Confesso, quando penso em banalidade penso em Francisco Moita Flores – o especialista de tudo e de nada, o homem que mistura habilmente a sua convicção com os factos, as tendências da opinião pública com o que lhe dá jeito, e de passagem é politico, autarca, escritor, enfim...

Pois bem: pelo blog “JonasNuts”, de Maria João Nogueira, descubro esta pérola notável: “Mão amiga, conta ela, fez-me chegar uma mensagem de spam que, depois de lida, pensei que fosse uma daquelas coisas cómicas que circulam por aí (...). Esta missiva referia um curso de estratégias de comunicação e assessoria mediática, e o título era chamativo - "Blogues passam a integrar pós-graduação única no País", no ISLA. Até aqui nada de novo, acho muito bem e apropriado. E continuam depois: "O estudo do fenómeno dos blogues, segundo Nicolau Santos, é uma das principais atracções do 6.º Curso de Pós-Graduação em “Estratégias de Comunicação e Assessoria Mediática” que arranca no ISLA, em Lisboa, já em Novembro próximo. (...) Ok, prossegue a Jonas, embora Nicolau Santos não seja a primeira pessoa que me ocorre quando penso em Blogs, é sem dúvida uma referência no jornalismo, em Portugal, e parece-me ser uma pessoa sensata e com sensibilidade (...). E continuei a ler, para de imediato perceber que não, afinal a minha intuição inicial confirmava-se, era mesmo uma brincadeira: "O módulo relacionado com a análise de blogues e seu impacte, ministrado pelo director-adjunto do semanário Expresso, é mais uma aposta do curso que tem Francisco Moita Flores como director e José Bartolomé Duarte e António de Sousa Duarte como directores-executivos." Ri-me, claro. Percebi porque é que me tinham enviado o mail. Era um mail humorístico. Francisco Moita Flores à frente de um curso sobre estratégias de comunicação e assessoria mediática só poderia ser uma anedota, na medida em que o ISLA tem alguma tradição de seriedade”.

Pois é: mas o que parecia brincadeira é mesmo verdade, como a blogger confirmou quando consultou o site do Isla: “Verdade seja dita que, consultando o plano de estudos, verificamos que na realidade, Francisco Moita Flores não lecciona nenhuma das cadeiras do curso. Mas, mesmo assim, é o Director da Coisa”.

Ou seja: o homem que opina sobre Maddie, sobre a PJ, sobre o funcionamento da Justiça, o autarca, o escritor, o autor de programas de TV, é também o homem que manda numa pós-graduação onde se estuda a blogoesfera nacional.

Primeiro fiquei chocado – mas depois percebi o fenómeno: pois se o mundo dos blogues reproduz uma realidade, e essa é a realidade portuguesa, de alguma forma Moita Flores tinha de estar presente. Não havendo clone à vista, vem o próprio sob a forma académica e pós-graduada. Nem podia ser de outra forma, pois claro...

publicado por PRD às 23:14
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Terça-feira, 21 de Outubro de 2008

A solidão de Manuela

A vida não anda fácil para Manuela Ferreira Leite. Para onde quer que se vire, tem meio mundo a cair-lhe em cima, e os últimos dias foram exemplares. Ontem terá sido o cúmulo, com a entrevista a Constança Cunha e Sá na TVI, rapidamente comentada no Blasfémias por Carlos Abreu Amorim: “Fraca, fraca, fraca…
Sempre a negar as evidências, tentando contradizer aquilo que é óbvio, atacando o Governo nos temas em que ela própria ainda fez pior quando lá esteve, assumindo-se como a defensora das PMEs que ela tanto ajudou a destruir, ensaiando ataques a Teixeira dos Santos (...), tentando dar a ideia que tem que a sua palavra conta para alguma coisa na escolha do candidato à Câmara de Lisboa, sem respostas, sem chama, sem graça. Afivelando uma máscara de ‘amiga dos contribuintes’ e das pequenas empresas que tresanda a postiço e que desmente todo o seu passado. Política e pessoalmente, foi uma desgraça!”. Miguel vale de Almeida, no blog Tempos Que correm, diz que é “uma personagem patusca: diz “piquenas e médias empresas” e o cabelo não mexe”. Gi, no “Só falta um 31 na Minha Vida”, liga a televisor e o que vê? “Estão duas mulheres lindas de morrer, esticadinhas, vestidinhas na cor da moda, a jogar às cartas, ao vivo, na TVI”.

A entrevista não correu bem a Manuela. E dessa desgraça fez parte realmente a confusão e a falta de resposta sobre o tema Santana Lopes e Lisboa. Já Sofia Loureiro dos Santos, no blog Defender o Quadrado, tinha escrito: “acho tal escolha absolutamente incompreensível e ruinosa para a cada vez mais distante e abatida credibilidade do PSD e da sua Presidente, Manuela Ferreira Leite. Não a entendo em nenhuma perspectiva, nem na única mesquinha hipótese de ter hipóteses de ganhar”.

Ontem, a Presidente do PSD disse, uma vez mais, nim. Mas essa palavra inventada, o nim, que não é sim nem é não, parece ser a marca da senhora, como nota BRMF no blog Do Contra: “Manuela Ferreira Leite escreveu no Expresso um artigo sobre o Orçamento de Estado para 2009 onde não diz absolutamente nada sobre o mesmo. Estou completamente “estupidificado” com o brilhantismo da prosa”.

Como se não bastasse, ainda houve as eleições açorianas e o fraquíssimo resultado do PSD, No Bicho Carpinteiro, Medeiros Ferreira comenta: “Manuela Ferreira Leite ficou com uma ideia do que lhe pode acontecer pessoalmente nas legislativas de 2009.Basta olhar para Costa Neves”. Manuel Costa Branco, no 31 da Armada, concorda: “Digam o que disserem, parece me que esta é a 1º  derrota de Manuela Ferreira Leite desde que é lider do partido e a 1º vitória de Paulo Portas desde que voltou ao CDS”. E José Ricardo, no Res Civita, perspectiva o futuro nos próximos capítulos da nossa vida politica: “Depois do previsível assentimento de Santana Lopes para a disputa eleitoral à Câmara de Lisboa, é caso para afirmar que Manuela Ferreira Leite é, neste momento, uma líder sem rumo, esperando lá para Junho ou Julho uma derrota honrosa nas legislativas (...) para, descomplexadamente, sair da nau que tem vindo a comandar de forma desastrosa”. Assim vai a maré lá para os lados do PSD...

publicado por PRD às 23:12
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Segunda-feira, 20 de Outubro de 2008

Açores a votos

Dediquemo-nos, então, às Ilhas, a propósito das eleições regionais nos Açores. O mundo dos blogues é dinâmico no arquipélago, debateu fortemente durante a campanha eleitoral, e agora comenta com amargura, por exemplo, a abstenção, como escereve Francisco Costa no Vida Nova Farol: “uns defendem que os eleitores ficam em casa porque já sabem quem vai ganhar e por isso o seu voto não irá fazer diferença, outros defendem que o eleitorado não vota porque perdeu a confiança nos políticos e não se revê nas propostas do diversos partidos. Eu tenho uma teoria diferente. Nem todos conseguem chegar às mesas de votos, e ninguém faz as mesas de voto chegar a eles”. No Desabafo Atlântico, SPN acha mesmo que “afinal todos perderam” as eleições, “Porque não conseguiram fazer com que mais de 50% dos Açorianos fossem votar”.

Os que foram votar deram nova maioria ao PS de Carlos César e derrotaram claramente o PSD de Costa Neves. No Planeta Politik, Bruno escreve: “teria sido um bom Presidente do Governo Regional, mas não o foi enquanto líder da oposição. Esteve no lugar certo no momento errado”. Tibério Diniz no blog In Concreto diz mesmo que “Costa Neves é um ilustre desconhecido na Ilha de Jesus Cristo que não convenceu. Nesta matéria tenho que parafrasear Menezes, entre o certo e o duvidoso, prefere-se o certo, neste caso de César”. E depois da demissão do líder regional, reconhece o que aí vem: “Órfão de líder, os próximos tempos do PSD serão difíceis. Ladeado por um PS legitimado por uma maioria absoluta e por um CDS/PP em franco e rápido crescimento é imperativo encontrar um líder forte e não de transição”.

No blog Admirável Mundo Novo, Flávio Gonçalves prefere notar as caras novas que chegam à Assembleia Regional: “Finalmente, após muitos anos de combate, suor, sangue e algumas lágrimas bem como várias desilusões, eis que finalmente o meu amigo Paulo Estêvão foi recompensado, por todo o seu esforço e empenho, com um mandato”. Trata-se do candidato do PPM, que tem ele próprio um blog com o seu nome. Nanda, no Ilhas do Mar, concorda que nesta nova legislatura “As sessões serão menos monótonas, haverá uma Democracia mais participativa”. Escreve ainda JRV no Activismo de Sofá: “depois de 4 anos em que a Assembleia Legislativa Regional foi constituida apenas por 3 partidos, a entrada de 3 novos partidos implicará uma nova dinâmica para a oposição nos Açores. Nota muito positiva, portanto, para a reforma eleitoral que criou o círculo regional de compensação”. No mesmo sentido vai o autor do blog Fiat Lux quando diz: “Que belo arco-íris. Melhor era (quase) impossível. (...) Temos uma Região de cor única ... mas não temos uma Região de partido único. É bom que Carlos César perceba isso de uma vez por todas”.

Assim, entre a abstenção, a vitória socialista mais do que esperada, e a chegada de novas cores à Assembleia Regional, os Açores viveram eleições. É o começo de um ciclo que vai animar Portugal até ao fim de 2009. E eu, à Janela, a ver...

publicado por PRD às 23:10
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PRD

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Estes textos são escritos para serem “falados”, ou “lidos”, pelo que não só têm algumas marca de oralidade (evidentemente, propositadas...) como é meu hábito improvisar um pouco “em cima deles” no momento em que gravo a rubrica. Também é relevante dizer que, dado tratar-se de uma “revista de blog’s” – e uma vez que os blog’s não se preocupam com a oralidade ou com a eventual citação lida dos seus textos -, tomo a liberdade de editar minimamente os textos que selecciono. Faço-o apenas para que, em rádio, não se perca a ideia do blogger pelo facto de escrever frases longas e muito entrecortadas. Da mesma forma, não reproduzo palavrões nem frases pessoalmente ofensivas, assim como evito acusações cuja possibilidade de prova é diminuta ou inexistente. Sendo uma humilde crónica de rádio, tinha ainda assim de ter alguns princípios. São estes. Quem tiver razão de queixa, não hesite!

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