Sexta-feira, 16 de Novembro de 2007

Blog da semana: Cachimbo de Magritte

“Este blogue nasce de uma ausência: a ausência sentida por todos os seus autores de um blogue de respiração mais lenta, onde se possa escrever e pensar sem a ditadura do imediatismo. Não temos a mínima pretensão de falar de tudo e ainda menos de tudo ao mesmo tempo. Queremos reflectir a actualidade, mas sem nos deixarmos levar pela espuma dos dias. Reunimos um grupo de pessoas com formações e percursos muito diferentes para alargar a visão panorâmica do blogue. Há tubarões do management e da advocacia, jornalistas quase cínicos e académicos irrealistas, jovens autarcas e professores utópicos. Em suma, temos representantes dos ofícios mais vilipendiados da sociedade portuguesa. Guardámos uma vaga para dirigentes desportivos com provas dadas de corrupção, mas pedimos que não enviem mais currículos.”
Foi assim que começou o Cachimbo de Magritte, o meu blog da semana, com Filipe Anacoreta, Paulo Marcelo, Mafala Avelar, Pedro Picoito e Francisco Van Zeller,  entre outros – a lista é grande.
O Cachimbo é realmente um largo e grande ponto de encontro onde se juntam ideias, tendências, segundo um critério que está lá bem explicado:
“O Cachimbo de Magritte é um blogue de comentário político. Ocasionalmente, trata também de coisas sérias. Sabe que a realidade nem sempre é o que parece. Não tem uma ideologia e desconfia de ideologias. Prefere Burke à burqa e Aron aos arianos. Acredita que Portugal é uma teimosia viável e o 11 de Setembro uma vasta conspiração para Mário Soares aparecer na RTP. Não quer o poder, mas já está por tudo. Fuma-se devagar e, ao contrário do que diz o Estado, não provoca impotência”
Inteligente, humorado, culto, interessante - e pausado, sem duvida, mesmo quando debate.
Prova provada disso mesmo, deixo-vos um post recente de Paulo Marcelo:
“A União Europeia continua preocupada com o seu bem-estar. Para que nada lhe falte, mas nada mesmo, a Comissão decidiu agora impor aos Estados membros a criação de uma linha telefónica de apoio emocional. Segundo a própria Decisão da Comissão Europeia, este serviço «oferece a quem telefona um contacto verdadeiramente humano, uma escuta sem juízos de valor. Oferece apoio emocional a quem sofre de solidão, a quem se encontra em situação de crise psicológica ou está a pensar pôr fim à vida.»
E se o serviço não estiver permanentemente disponível, ou seja, 24 horas por dia, 7 dias por semana, a nível nacional, Bruxelas exige que o serviço garanta que, durante os períodos de indisponibilidade, quem telefonar seja informado da data e hora em que o serviço voltará a estar disponível.
Nada melhor do que um burocrata para nos oferecer um contacto verdadeiramente humano. Se alguma vez pensar em acabar com a vida já sabe o que fazer. E fixe bem o número: 116123. Se estiver indisponível deixe recado e volte a ligar, mas no horário de expediente.
É tão bom ser europeu e saber que alguém se preocupa connosco.
Obrigado Bruxelas.”
Esta semana eu, que até deixei de fumar, estou com o cachimbo. O Cachimbo de Magritte (em http://cachimbodemagritte.blogspot.com/) .
publicado por PRD às 23:54
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Quinta-feira, 15 de Novembro de 2007

Folhetim nas alturas

Há um regresso cíclico do tema aeroporto ao debate nacional. Parece combinado entre instituições, governo, oposições e meios de comunicação: volta não volta, mais qualquer coisinha. Muitas vezes nem sequer é por causa directa do aeroporto, mas pode ser, por exemplo, por conta do traçado do TGV
Vital Moreira, no blog Causa Nossa, notou qualquer coisinha. Esta:
"A decisão [sobre a localização no novo aeroporto] é política, não é técnica", disse o presidente do LNEC.Quando os políticos procuram exonerar-se das suas responsabilidades e entregar decisões políticas aos técnicos é salutar ouvir um técnico recordar o óbvio".
Eduardo Pitta, no blog Da Literatura, notou outra coisinha e o seu post é certeiro quanto a decisões politicas e técnicas. Vale a pena ouvi-lo com atenção, com prejuízo de outras opiniões:
“Aqui há uns meses, no auge da polémica da Ota, a CIP tirou da cartola um estudo que apontava Alcochete como melhor solução para o futuro aeroporto de Lisboa. (...) Porém, não tendo a CIP divulgado a identidade do núcleo duro de financiadores desse estudo, acho muito estranho que os media, sempre tão compulsivos com questões de transparência, sobretudo no que toca ao governo, não estejam interessados em divulgar uma informação que é um segredo de Polichinelo. E é curial que o façam, porque estão em jogo conflitos de interesses. Afinal de contas, a opinião pública deve ficar a saber, preto no branco, quem defende o quê e porquê. Isto dito, (...) o desatino da CIP face ao que considera ser a estratégia comunicacional do governo (o pretexto foi a divulgação de um estudo da RAVE sobre o traçado de alta velocidade) parece traduzir o desejo de substituir-se ao governo na condução das obras públicas. O que começou por ser uma discussão em torno do melhor sítio para construir o futuro aeroporto de Lisboa, transformou-se rapidamente (...) num pacote que associa o futuro aeroporto à construção de duas novas pontes sobre o Tejo, logo duas, bem como à alteração do traçado do TGV. Ele são túneis, viadutos, pontes, autoestradas, entroncamentos de linhas, etc. Isto não é um estudo para fixar a melhor localização de um aeroporto. Isto é um programa de governo. Convinha, primeiro, ir a eleições.”
Ou seja, isto anda tudo ligado. Tão ligado, tão ligado, que João Gonçalves, no Portugal dos Pequeninos, até se dá ao luxo de iluminar o Presidente da Republica:
“Cavaco não acredita (...) que a decisão sobre o novo aeroporto de Lisboa esteja tomada. Falta o LNEC pronunciar-se, o organismo sobre quem o governo depositou a responsabilidade de "analisar" todos os estudos. Sucede que o LNEC tem uma tutela que me dispenso de nomear. E essa tutela tem o João Morgado Fernandes para regular o trânsito. Ou seja, o LNEC terá seguramente independência técnica mas não tem a que conta para a tomada de decisão política. (...) Em política, na política de hoje, nem tudo o que parece é.”
Embora nem tudo o que pareça, efectivamente seja, é verdade que quando nos cheira que vai correr mal, corre mesmo mal. Teme-se o pior...
publicado por PRD às 19:48
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Quarta-feira, 14 de Novembro de 2007

As 61.893 páginas de Paulo

A festa começou no sábado e não parou mais: a notícia de primeira página do Expresso, onde se conta que Paulo Portas fotocopiou 61.893 páginas de Documentos do seu gabinete de ministro da Defesa, tem feito as delicias da blogoesfera. Há blogues indignados, ou escandalizados, como também há quem aproveite a noticia para fazer humor. Já li que há quem queira oferecer, no Natal, a Paulo Portas, uma impressora com scanner incluído…
No blog Jumento, as 124 resmas de papel impressionam:
“Mas, escreve-se ali, podemos ficar descansados, tratou-se apenas de notas pessoais, notas pessoais sobre a compra de submarinos, guerra no Iraque e outro temas do foro íntimo de Paulo Portas. O Ministério Público até se interessou pelo assunto no âmbito do processo Portucale, (…) mas não ouviu Portas nem fez buscas para identificar os documentos”.
Daniel Oliveira no blog Arrastão espanta-se com os factos e comenta:
“Num país normal, deveria ser considerado grave levar para casa tudo o que não seja público e não esteja acessível ao cidadão comum”.
Fátima Pinto Ferreira, no blog Cão com Pulgas, acha que “Paulo Portas deveria ser condenado por crime ecológico”.
“61 893 páginas é um atentado deliberado à floresta. Pior. O presidente do PP (…) afirma que mandou copiar as suas notas pessoais. Ora, quer dizer que gastou 61 893 páginas a escrever as suas notas e, ainda não satisfeito, mandou copiá-las, gastando outras tantas páginas. Ou seja, se a calculadora não me falha, 123 786 páginas. É ou não é criminoso?”
A "fúria copiadora” de Portas, como lhe chama Artesão Ocioso no blog Origens, merece ainda este olhar do blogger: "Ficamos ainda a saber que Paulo Portas escreve tudo o que diz, prevalecendo, no entanto, a legítima dúvida sobre se dirá tudo o que escreve. Por fim, Paulo abre-nos a porta sobre a sua vida pessoal partilhando connosco o diagnóstico clínico de esquizofrenia. De tal forma grave que Paulo e Portas se obrigam a um rigoroso protocolo de segurança, nos termos do qual Paulo classifica como «pessoal» as notas de Paulo. Como «confidencial» as notas de Paulo e que Portas não poderá ver e finalmente «para conhecimento» as notas de Paulo para Portas.”
Seria para rir, se não fosse grave, como bem nota AAC no Blogando:  “O assunto é do conhecimento das autoridades judiciais, mas parece que o Ministério Público não achou suficientemente grave para mandar abrir um processo-crime: a mim que sou leigo, parece-me mais grave do que realizar escutas telefónicas ilegais porque se trata da apropriação pessoal de provas documentais do Estado”.
Entre a indignação com algo que parece ser claramente uma história muito mal contada e a sensaçãol eterna de que nada vai acontecer, talvez o melhor mesmo seja rir. Ou pelo menos sorrir: o Bibliotecário Anarquista, no blog com o mesmo nome, dá a noticia: “As maiores Bibliotecas Digitais do mundo estão a assediar o antigo Ministro da Defesa de Portugal com propostas milionárias para liderar os seus projectos ambiciosos no domínio da digitalização do Imenso Património Bibliográfico Universal”. Dá vontade de sorrir – antes de chorar com este Portugal onde nada acontece e a culpa morre sempre solteira.

publicado por PRD às 23:56
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Sexta-feira, 9 de Novembro de 2007

Blog da Semana: Bussola

“Os lisboetas não são necessariamente, e por regra, menos inteligentes do que nós” – este era o titulo de um dos primeiros posts, a 23 de Outubro de 2007... A coisa prometia, portanto. E promete. O novíssimo blogue Bússola merece obviamente constituir destaque da semana porque começa assim, a vir de Norte para Sul, sem medos, e com textos onde se escreve: “Sobe-me a mostarda ao nariz sempre que um lisboeta acha de bom gosto cumprimentar-me usando uma canhota tentativa de imitar o nosso sotaque: «Atão, murcóm?!. Cumu bai o Puaaaartu?». Imbuído de um espírito cristão, contenho-me e absolvo a idiotice do infeliz, que na sua santa e doce ignorância está convencido que não tem sotaque e a sua amaricada maneira de falar é o cânone. Nessas alturas, respiro fundo, e repito mentalmente, as vezes que se revelar necessário, o maior dos ensinamentos biblícos: «Bem aventurados os pobres de espírito, porque deles será o Reino dos Céus/Bem aventurados os pobres de espírito, porque deles será o Reino dos Céus!»». Quando a minha tensão arterial regressa à normalidade, concentro os meus esforços em evitar que a condescendência que me vai na alma se reflicta no sorriso que componho.”
Teme-se o pior neste texto de Jorge Fiel? Teme-se, claro. Ao seu lado estão nomes como Manuel Serrão, Julio Magalhães, Rogério Gomes e Manuel Queiroz, entre outros, e obviamente que o Norte comanda esta bússola que anima agora a blogoesfera.”Neste dealbar do século XXI, há alfacinhas em demasia a pensarem que Lisboa é o Sol à volta da qual gira o resto do país. O que é, convenhamos, pouco inteligente”, acrescenta Jorge Fiel nesse texto quase estatutário do novo blog. Texto que, diga-se, remata assim, citandoAlmeida Garrett: «Se na nossa cidade há muito quem troque o b pelo v, há muito pouco quem troque a liberdade pela servidão».
Eis então um blog com pronuncia do Norte, com gente do Norte, com uma bússola apontada sempre ao mesmo ponto cardeal. E com humor, critica, picardia e ironia em doses generosas, ao lado de ideias e reflexões e temas de debate.
A Janela Indiscreta é alfacinha mas não é fundamentalista – por isso à Janela, esta semana, está o novo blog de “Bussolistas, Nortistas e por isso verdadeiramente elitistas”, como escreve Manuel Serrão num post em que arrasa o filme Corrupção e o apelida de... benfiquista. Eu até sou do Benfica e não conto ver a fita, nem entrar nessas fitas. Mas entro com gosto na Bússola para reencontrar o Norte militante. Encontra-se em http://bussola.blogs.sapo.pt/. Volto na segunda-feira, com noticias de um mundo a norte, a sul, ou onde quer que a minha bússola vá parar...
publicado por PRD às 00:39
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Quinta-feira, 8 de Novembro de 2007

Se lá chegares...

A discussão do Orçamento de Estado merecia mais do que uma crónica – ou, como se costuma dizer, uma segunda opinião. No caso, uma colecção de segundas opiniões, e são tantas que o mais difícil mesmo é escolher. Mas... alguém tinha de o fazer!
Eduardo Pitta no blog Da Literatura, um post enxuto e certeiro:
“O início da discussão do Orçamento de Estado para 2008 corroborou várias evidências, a primeira e mais desinteressante das quais é que o Menino Guerreiro perde para o Animal Feroz. (...) Mas isso é circo. O pior é ouvir os outros. De Louçã a Portas, passando por Jerónimo, a vacuidade é de regra. Num debate que se presume técnico, a pirotecnia verbal, toda orientada no sentido do kickboxing, traduz falta de senso e vazio de alternativas. O governo agradece”.
Oiçamos agora José Medeiros Ferreiro, sempre poupado nas palavres no Bicho Carpinteiro:
“O inevitável aconteceu: José Sócrates levou a melhor no despique com Santana Lopes. Mas bom, bom, vai ser recordar como se discutia em 2007 o Orçamento em Portugal. No canal Memória...”
Carlos Abreu Amorim, no blog Blasfémias, prefere confrontar comentadores e eleitores. Assim:
“Os comentadores do costume decidiram (...): Santana foi arrasado! Donde, Sócrates esmagou. Já depois dos arautos terem lançado o mote para todos seguirem, Santana até disse que não esteve no seu melhor. Está, pois, decidido: Sócrates manda e mandará (...) ... Só há um ligeiro problema: o povo está-se nas tintas para esses diagnósticos nitidamente feitos antes do debate. Aqueles que se enganaram redondamente antes das Directas laranjas, dentro e fora do PSD, talvez devessem retomar o banho de humildade que tão cedo interromperam”.
Bruno Alves, no blog Desesperada Esperança, observa Santana Lopes e o que vê? Vê o seguinte: “Na sua cara, vê-se apenas o ressentimento, o orgulho ferido, e claro, a recordação de um falhanço estrondoso. Santana ia, mais uma vez, "surpreender" muita gente. O resultado foi, de novo, o descalabro”.
Bruno Cardoso Reis no blog Amigo do Povo, acha que há demagoaia a mais por aí e exclama:
“Durante anos um dos grandes escândalos nacionais era a fuga ao fisco. Os governos eram suspeitos de cumplicidade. Agora o grande escândalo é que a descida do deficit seja conseguido em parte pela maior eficiência fiscal!!! Realmente...”
E na recta final deste segundo olhar, um apontamento critico à Comunicação Social de Rui Costa Pinto no Mais Actual:
“O ambiente de futebolização do debate parlamentar sobre o Orçamento de Estado para 2008 revela o caos a que chegou uma certa Comunicação Social”.
Tem razão. Mas para um sorriso de final de dia, vou buscar Waldorf no Blog dos Marretas:
“Teixeira dos Santos prevê baixar impostos só em 2010. Ou seja, depois das próximas Legislativas”.
Titula o blog: “Se lá chegares como ministro...”
publicado por PRD às 20:58
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Quarta-feira, 7 de Novembro de 2007

Pólvora seca

O dia do duelo, o dia do debate, o dia do orçamento – como lhe queiram chamar. Ontem foi o dia em que José Sócrates foi abrir o debate sobre o Orçamento de Estado e ao mesmo tempo reencontrar o seu velho rival Pedro Santana Lopes. A blogoesfera esteve atenta, e começo por notar esta definição muito curiosa da Assembleia pela pena de João Gonçalves no Portugal dos Pequeninos:
“O Parlamento é uma espécie de condomínio fechado com os mesmos porteiros e seguranças há trinta e tal anos. Muda apenas o administrador. Agora é Sócrates. Há dois anos e meio que repete, com sucesso, a mesma lição”.
Ontem, no entanto, a lição tinha pela frente Santana Lopes. Chamaram àquilo um duelo mas Ana Rita Ferreira, no blog Margem Esquerda, fez bem a síntese:
“O Benfica-Sporting de hoje, que devia ter tido lugar no Parlamento, foi um flop. Mas só quem não conhecesse Santana Lopes podia esperar algo diferente... Como sempre, não fez o "trabalho de casa" e foi superficial. Com ele a dirigir o grupo parlamentar do PSD, Sócrates vai ganhar sempre por falta de comparência do adversário”.
Daniel Oliveira concorda, no Arrastão: “A notícia do renascimento de Santana foi manifestamente exagerada”, afirma, e acrescenta: “Santana não esteve mal. Esteve só igual a si próprio. Sócrates fez o que se esperava”.
Ainda à esquerda, Miguel Portas no blog Sem Muros:
“Dos dois lados, foi uma tristeza. Sem novidade, e reeditando mil debates onde os socialistas lançam as responsabilidades sobre quem já as teve e os sociais democratas sacodem a água do capote. Como comentou Francisco Louçã, “tinhamos a promessa de um duelo ao sol e está na altura de devolverem os bilhetes”…”
Miguel analisa depois em detalhe o Orçamento, vale a pena ler o longo texto que está no blog.
Mais à direita, José Pacheco Pereira no Abrupto recupera o programa Prós e Contras, onde se antecipou o debate do Orçamento, e exclama:
“O Prós e Contras revela involuntariamente uma verdade maior: há hoje menos oposição em Portugal do que há uns meses, no que verdadeiramente conta, no que dói ao PS e ao governo”. E recorda as propostas de entendimento entre PSD e PS deixadas no ar há dois dias por Luís Filipe Menezes.
Parece ser esse, afinal, o problema de fundo que marcou a apresentação do Orçamento: José Sócrates continua a governar sem oposição, ou apenas com um vago fogo-de-artifício à direita. Fogo-fátuo, como em geral a blogoesfera notou.
publicado por PRD às 22:21
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Terça-feira, 6 de Novembro de 2007

Sinistralidades

Uma infeliz sequência de acidentes de trânsito graves devolve à praça pública o debate sobre a sinistralidade, e as medidas que governos sucessivos têm tomado e que resultam, em geral, em mais multas e receitas para o Estado. No resto, como se vê, nada muda.
Procuro no blogoesfera reflexões sobre o tema e acabo por descobrir blogues que se dedicam, justamente, às causas e coisas do trânsito e da estrada.
“Menos um Carro”, por exemplo, assume-se como um “blog da Mobilidade Sustentável. Pelo ambiente, pelas cidades, pelas pessoas” – e é lá que percebo que a politica de pura caça à multa têm mesmo apoiantes:
“Tudo o que tem sido feito em termos de prevenção rodoviária (campanhas choque, tolerâncias zero, fiscalização mais apertada, penas mais elevadas (...), radares, etc...) tem valido a pena, invalidando assim as críticas de muita gente que gosta de pôr as culpas no mau estado das estradas e outros lugares-comuns semelhantes”.
Num sentido bem diferente descubro o blogue de Penim Redondo, Radares 50-80, onde está o apelo “Multados, irritados, fartos de arbitrariedades e cansados de engarrafamentos, UNI-VOS”.
Parece a brincar mas é a sério: o autor assume o politicamente menos correcto e olha os factos de outra forma:
“O lamentável acidente (...), junto ao Terreiro do Paço, (...) foi imediatamente aproveitado para uma campanha despudorada por parte dos fundamentalistas do costume. Sem cuidar de esclarecer as circunstâncias e causas do acidente, (...) partiu-se imediatamente para as acusações do costume aos automobilistas em geral, para a divulgação de números falaciosos e para a apresentação das soluções milagrosas.”
Menos habitual, mas muito certeira, é a reflexão que a jornalista Helena Matos deixa no blog Blasfémias:
“Os jornais de referência, escreve, têm um entendimento snob da vida. Assaltos e atropelamentos são coisas que não lhes interessam. A não ser que o assaltado seja um banco ou que o atropelamento aconteça no Terreiro do Paço. Infelizmente o que aconteceu este fim-de-semama no Terreiro do Paço está longe de ser um facto inédito. Inédito é causar indignação. E ser notícia destacada. Experimente-se colocar a palavra atropelamento no site do "Correio da Manhã" e descobrem-se inúmeros casos similares”.
Helena Matos exibe de seguida uma lista generosa de casos semelhantes que não foram notícia porque se passaram longe de Lisboa.
Já o acidente de ontem na A23 seria necessariamente notícia pela sua dimensão e não cabe nesta análise até por não ter ainda reflexos na blogoesfera.
No fim, acabo por parar e pensar neste testemunho de uma professora no blog “Da Planície”:
“Hoje, durante uma saída com os meus alunos, precisávamos de atravessar uma rua e eu fazia as recomendações habituais de irmos passar numa passadeira para peões, apesar de tornar o caminho mais longo. E diz-me logo um, que é o mais espevitado de todos "Oh professora, isso nem vale a pena porque o meu pai diz que os carros até gostam mais de passar por cima de quem vai nas passadeiras!". Fiquei de cara à banda”.
Não é caso para menos. Em escassos 5 dias, 3 acidentes reabrem o debate e deixam tudo em aberto: estado das ruas e estradas, politicas de prevenção, caça à multa. Tudo de novo em cima da mesa.
publicado por PRD às 23:34
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Segunda-feira, 5 de Novembro de 2007

As fitas que se fazem

Começo já por usar um blog para introduzir o tema do dia:
“O filme "Corrupção" cheira a esturro desde que se começou a falar dele. João Botelho aceitou a encomenda e gastou quilómetros de fita para fixar para a posteridade o manhoso livrito de uma tal Carolina” - assim escreve José Teófilo Duarte no Blog Operatório, e bem. O filme, que entretanto já não é de Botelho, a quem dá muito jeito ser e não ser ao mesmo tempo, estreou finalmente e já andam ideias e opiniões à solta na blogoesfera.
Começo a norte, com Manuel Queiroz no novo blog Bússola:
“Basicamente não há trama, o enredo é paupérrimo - ao nível do que já se sabia. O futebol não existe, não aparece um jogador - o que se tomaria por uma opção para que a "coisa" fosse sobre o país. Mas acaba por não ser nada”.
Luiz Carvalho, no blog Instante Fatal, gostou de “Corrupção”: ”é tecnicamente muito bom. Tem uma excelente fotografia que nos quer remeter para o ambiente dos filmes negros dos anos cinquenta”. (...) É um filme que se deixa ver”, remata o fotógrafo.
GK, no blog My Dirty Little Secret, é radical: “falso, mau, mal feito! Uma fantochada”.
Claro que no meio destas opiniões há sempre um sentimento que pode ser clubista, de Benfica versus Porto ou de Sul versus Norte.
Manuel Correia, no blog Puxa Palavra, prefere ir pela aparente polémica entre o realizador Botelho, rapaz de esquerda, e o produtor. Depois de dizer aqui d’el rei que não assino o filme, “realizador e produtor estão em negociações. Parece que tudo se resolverá no silêncio dos escritórios de advogados, mais cheque, menos cheque... A dignidade do trabalho não parece ter sido considerada...”
Pois é. São as pequenas falhas que ficam no ar neste argumento para este outro filme. E fecho a ronda com uma primeira impressão de um profissional: João Lopes, no blog Sound-vision:
“Corrupção é um filme sem destino, sem objectivo, sem identidade. Não sabemos se o filme de João Botelho seria "melhor" ou "pior". O certo é que, com o afastamento do realizador e o lançamento desta versão de produtor, o que resta é um amontoado desconexo e esburacado de cenas que apelam a qualquer coisa de inevitavelmente falso. Ou seja: pede-se ao espectador que construa na sua cabeça uma história "portuguesa" a partir de alusões que não chegam a sê-lo... No genérico de abertura, não há identificação de realizador ou argumentista; no final, diz-se mesmo que o filme alterou a "realidade" e até o próprio livro de Carolina Salgado. Quer isto dizer que a verdade material de Corrupção só se pode medir pelo facto de, através do seu nome, se venderem bilhetes de cinema”.
Vender, parece que vendem. No fim, o produtor, o realizador Botelho, a inspiradora Carolina, todos serão felizes para sempre. Como nos filmes...
PS - Por lapso, ao gravar o texto para a rádio, nesta citação final, em vez de João Lopes disse João Botelho... Um erro de que só me apercebi no podcast, tarde demais... Desculpas a ambos.
publicado por PRD às 19:04
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Sexta-feira, 2 de Novembro de 2007

Blog da semana: António Sousa Homem

Já esta semana deixei no ar a questão: até que ponto os leitores de cronistas de jornal não podem deixar de comprar a imprensa sabendo que podem ler os seus autores favoritos na blogoesfera e gratuitamente.
O meu blog da semana é um desses casos: é o blog de António Sousa Homem, cronista já de certa idade (nasceu em 1920), homem do Norte que vive em Modelo e é advogado de profissão.
Sousa Homem publica semanalmente na revista de sábado do Diário de Noticias e é um dos argumentos de venda mais sólidos da própria revista e do jornal ao sábado.
Diz-se que Sousa Homem não existe, que é pseudónimo de um conhecido escritor, mas para o caso isso não interessa nada: as crónicas da personagem são do melhor que se publica actualmente na imprensa portuguesa, e se a figura é inventada então é mesmo muito bem inventada.
Vantagem do blog: todas as crónicas do autor são ali publicadas no mesmo dia em que saem no jornal.
“A vida não acaba, escrevia Sousa Homem no sábado passado. O meu tio Alberto, bibliófilo de São Pedro de Arcos, considerava largamente que depois de um dia, outro dia havia de chegar. Com este princípio, que ele dizia ser arran­cado à inteligência do Minho, apontava o mundo de colinas, vales, ravinas enclausuradas, lagoas no sopé das serras – enfim, o mundo de São Pedro de Arcos, aquele a quem devo­tou a sua sensibilidade de poeta nunca publicado”.Num estilo literário muito agarrado às imagens do campo, às memórias e aos cheiros do passado, o cronista ainda assim reflecte sobre o país actual. Escreve por exemplo:
“Portugal vive empenhado em pagar direitos de autor a cavalheiros que escrevem uns livros vagamente parecidos com romances, e a senhoras que – se vivessem noutra época – resolveriam o problema com uma ida mais frequente ao confessionário (…) Diante do vastíssimo número de escritores de hoje em dia, o velho doutor Homem, meu pai, colocaria a hipótese de cha­mar pela polícia de costumes, uma velharia já no seu tempo. Mas a intenção fica. A vida não acaba, como filosoficamente considerava o tio Alberto, mas os escritores multiplicam-se bravamente. Por mim, leio cada vez mais devagar e tenho de escolher os livros da mesa-de-cabeceira”.Este era o remate da crónica do ultimo sábado, amanhã lá estará nova crónica de Sousa Homem, o autor que ninguém sabe se existe mas que, na verdade, é bem real na blogoesfera em antonio-sousa-homem.blogspot.com.
“Em certos aspectos”, como ele “diz”, parte do Diário de Noticias de sábado está ali, naquele livro virtual que todas as semana se constrói.
publicado por PRD às 22:02
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Quinta-feira, 1 de Novembro de 2007

Domingo no rádio

No próximo domingo, dia 4 de Novembro, entre as 11:00 e as 12:00, na Antena 1 (www.rtp.pt), vou conversar com a Shaken e Lapis-Lázuli, ou melhor, a Sofia e a Raquel, duas das sete autoras do blog "Lésbicas: simples ou com gelo?" (http://lesbicasimples.blogspot.com).
publicado por PRD às 18:32
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PRD

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Estes textos são escritos para serem “falados”, ou “lidos”, pelo que não só têm algumas marca de oralidade (evidentemente, propositadas...) como é meu hábito improvisar um pouco “em cima deles” no momento em que gravo a rubrica. Também é relevante dizer que, dado tratar-se de uma “revista de blog’s” – e uma vez que os blog’s não se preocupam com a oralidade ou com a eventual citação lida dos seus textos -, tomo a liberdade de editar minimamente os textos que selecciono. Faço-o apenas para que, em rádio, não se perca a ideia do blogger pelo facto de escrever frases longas e muito entrecortadas. Da mesma forma, não reproduzo palavrões nem frases pessoalmente ofensivas, assim como evito acusações cuja possibilidade de prova é diminuta ou inexistente. Sendo uma humilde crónica de rádio, tinha ainda assim de ter alguns princípios. São estes. Quem tiver razão de queixa, não hesite!

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