Sexta-feira, 14 de Dezembro de 2007

Blog da semana: Amarcord

O cinema, como a musica e a literatura, é uma das áreas onde a blogoesfera mais produz e mais se reproduz. Em português há dezenas, centenas de blogues mais ou menos dedicados ao cinema, ou a especificidades ligadas à sétima arte.
Trago um desses blogues para a minha escolha da semana. Chama-se Amarcord (http://wwwamarcord.blogspot.com ), é assinado por Hugo Ramos Alves, e quando começou, em Janeiro de 2006, anunciou-se deste modo:
“De hoje em diante, este espaço fará jus ao nome: recordações do cinema de outros tempos, bem como reflexões a propósito do que hoje se vai fazendo. Sempre (espera-se) com um tom crítico, metódico e devidamente ponderado”.
Amarcord, explica o autor, é “expressão em dialecto romagnolo que significa "Io mi ricordo" e, simultaneamente, é o título de um celebérrimo filme de Federico Fellini”.
Na verdade, e ao contrário de outros blogues cinéfilos de que já falei, como o de João Lopes ou o de Lauro António, aqui estamos perante um blog totalmente "engajado" e muito nostálgico: o cinema francês, o cinema italiano, o neo-realismo, são admirados como hoje não se usa; o cinema português, seja um António Reis ou um Manoel de Oliveira, têm honras de primeira página – e mesmo quando há referências ao cinema actual elas acabam por ir ao passado buscar, no mínimo, inspiração.
É portanto uma forma peculiar, muito particular, de ver cinema. Politicamente, à esquerda, me parece.
Hugo Alves é, pelos vistos, advogado, já que num post se diz assim:
«Começa a ser recorrente perguntarem-me quando me dedico ao Cinema ou aos Livros. Dizem-me: "Não tens feitio de advogado. Tens pinta de intelectual" Adepto que sou das citações e afins sai, invariavelmente, "Sou um bocado como o Ethan Edwards no The Searchers: procuro obstinadamente algo que perdi. Precisamente por ter noção dessa dimensão trágica da perda [...] fico com o ar distante do Jef Costello: alheado de tudo, com ar sombrio e vago. Sou, de certo modo, como o conformista do Moravia. (trocista) Acaso não serei como as personagens dele? (...) Apenas anseio a normalidade. Viver a vidinha sem sobressaltos e sem causar arrepios de maior aos que se cruzam comigo”.
Para fechar com um exemplo deste olhar peculiar sobre o cinema, quer voltar a “Brandos Costumes”, de Alberto Seixas Santos?
Vá ao “Amarcord” e leia:
“Brandos Costumes é um ensaio social onde estão bem traçadas as fronteiras de todos e cada um numa dada sociedade: o pai que manda, a criada que faz, a mulher beata e as filhas algo perdidas. Tudo construído em contraste, provocando assim uma cadeia de choques contínuos. Vanguardista, retórico, exagerado e, não obstante, algo que marca, nem que mais não seja pelo cuidado tratamento do português, ou não fossem os diálogos uma sucessão de rimas”.
Há quanto tempo não ouvia falar deste filme...
Outro cinema, outra forma de ver cinema, e seguramente outros filmes, diferentes do mainstream diário. Na blogoesfera há espaço para todos - e essa é a sua maior riqueza.
publicado por PRD às 20:41
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1 comentário:
De Sandra Rocha a 17 de Dezembro de 2007 às 16:40
Ao ler o blog do Pedro Rolo Duarte, descobri a janela indiscreta, já ouvi falar no programa, vou ser sincera não costumo ouvir, mas gostei de ler o blog e imagino como deve ser bom o programa, talvez a partir de agora comece a ouvir embora a hora não seja a melhor, mas tudo se resolve.
Os meus sinceros parabéns.


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Estes textos são escritos para serem “falados”, ou “lidos”, pelo que não só têm algumas marca de oralidade (evidentemente, propositadas...) como é meu hábito improvisar um pouco “em cima deles” no momento em que gravo a rubrica. Também é relevante dizer que, dado tratar-se de uma “revista de blog’s” – e uma vez que os blog’s não se preocupam com a oralidade ou com a eventual citação lida dos seus textos -, tomo a liberdade de editar minimamente os textos que selecciono. Faço-o apenas para que, em rádio, não se perca a ideia do blogger pelo facto de escrever frases longas e muito entrecortadas. Da mesma forma, não reproduzo palavrões nem frases pessoalmente ofensivas, assim como evito acusações cuja possibilidade de prova é diminuta ou inexistente. Sendo uma humilde crónica de rádio, tinha ainda assim de ter alguns princípios. São estes. Quem tiver razão de queixa, não hesite!

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