Quinta-feira, 17 de Dezembro de 2009

Debate à esquerda

Hoje proponho um destaque diferente – em vez de um blog, dois blogues, em vez de uma ideia, uma debate.

A saber: já passaram alguns dias, fiz aliás uma crónica inteira sobre o assunto, mas a verdade é que a discussão continuou para lá dos factos. O caso da agressão a Berlusconi desencadeou um debate fortíssimo no mundo dos blogues – curiosamente, um debate mais à esquerda do que à direita. Como bem resumiu no Cinco Dias João Branco, passou-se rapidamente “da discussão do caso para um debate sobre a violência em termos genéricos”, ou sobre a legitimidade do seu uso. E é justamente esse debate que motiva os meus destaques da semana – para os blogues Cinco Dias e Arrastão, ambos à esquerda e próximos do Bloco de Esquerda, também do PC, mas afinal com olhares divergentes sobre este tema.

Tudo terá começado com um post de Renato Teixeira no Cinco Dias, recheado de vídeos da agressão ao primeiro-ministro italiano, sob uma única frase: “O que a democracia não resolve tem o povo que resolver!”

Ai Jesus que a outra esquerda tremeu. Daniel Oliveira não teve duvidas e chegou-se à frente: “a violência política transporta em si as sementes da opressão. Não se trata portanto de saber quando e porquê se usa a violência (...), mas de ter consciência disto mesmo: quando optamos pela violência política, mesmo que ela seja incontornável, estamos já a desistir um pouco”. E depois explicou-se: “se fazem muita questão, deixo aqui o meu limite. Na verdade não é meu. É do mais famoso de todos os pacifistas, Mahatma Gandhi: “Quando não se possa escolher senão entre cobardia e violência, aconselharei a violência”. Nuno Ramos de Almeida ficou a meio caminho: “Não gosto de ver bandidos decrépitos depois de levarem com uma “pedrada”. Sobretudo, tenho muitas dúvidas se determinados acontecimentos não têm como efeito a legitimação desses poderes mafiosos. (...) Dito isto, não confundo as coisas: Berlusconi está no poder porque a “esquerda responsável” o colocou nessa cadeira. (...) Para quê ser de esquerda, se ela faz a política da direita?” E já no final do texto deixa o desafio, no fundo, ao Bloco de Esquerda: “tenho a convicção que a primeira derrota da esquerda foi ter aceite a limitação daquilo que é pensável. (...) Mantenho-me fiel à esquerda irresponsável. (...) A minha responsabilidade é uma espécie de ética interna e fica-se por esta frase de um gajo com barbas: “sejamos realistas, exijamos o impossível”.

No 5 Dias, Zé Neves assina uma longa análise onde escreve, às tantas, que Daniel Oliveira “diz que é pacifista, mas ele sabe (?) que não é bem assim. A mim parece-me que o Daniel defende a monopolização estatal da violência. Monopolização que, diga-se (...) tem que ocorrer num quadro democrático, porque (...) o Daniel não é contra o recurso à violência para combater estados ditatoriais”.

E o debate continua e por isso merece este duplo destaque para o Arrastão em arrastão.weblog.com-ot, e o 5 Dias, em 5 dias.net.

O mais interessante, e que explica esta escolha, é quando a esquerda, ela própria, se divide assim, entre a mais antiga e radical, e a que já sonha com o poder e amansa os seus ímpetos. A primeira, bate em Berlusconi sem problema – a segunda, queria bater mas já não pode, porque perde votos se o fizer... Prefere então debater o tema, para não virar costas ao seu próprio passado. Um grande momento, sem duvida...

publicado por PRD às 01:59
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Estes textos são escritos para serem “falados”, ou “lidos”, pelo que não só têm algumas marca de oralidade (evidentemente, propositadas...) como é meu hábito improvisar um pouco “em cima deles” no momento em que gravo a rubrica. Também é relevante dizer que, dado tratar-se de uma “revista de blog’s” – e uma vez que os blog’s não se preocupam com a oralidade ou com a eventual citação lida dos seus textos -, tomo a liberdade de editar minimamente os textos que selecciono. Faço-o apenas para que, em rádio, não se perca a ideia do blogger pelo facto de escrever frases longas e muito entrecortadas. Da mesma forma, não reproduzo palavrões nem frases pessoalmente ofensivas, assim como evito acusações cuja possibilidade de prova é diminuta ou inexistente. Sendo uma humilde crónica de rádio, tinha ainda assim de ter alguns princípios. São estes. Quem tiver razão de queixa, não hesite!

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