Segunda-feira, 16 de Novembro de 2009

Paradoxo

O vício do jornalista de imprensa leva-me muitas vezes a pensar que esta crónica diária precisa de um título – porque nos jornais, o título é essencial para chamar o leitor. Aqui não é preciso titulo – mas se fosse, hoje era fácil. Um título curto e incisivo: o poder do paradoxo.

Vivemos na verdade o tempo de todos os paradoxos, de todas as contradições. Diariamente os vou espelhando no retrato da actualidade que faço a partir do que se escreve na blogoesfera. Mas esta manhã, estava a preparar a crónica, e dei comigo a seleccionar quatro posts diferentes que em comum têm essa palavra-chave: o paradoxo. O paradoxo em que vivemos.

Comecei por José Medeiros Ferreira, no Bicho carpinteiro, que há semanas não visitava. Anotou ele: “li com muita atenção o texto no Diário de Notícias. O que mais me impressionou foi a diferente perspectiva do que pode ser o segredo de justiça entre dois intérpretes máximos do dito e do não-dito como são o Presidente do Supremo Tribunal de Justiça e o Procurador-Geral da República. E ainda sobram as entrelinhas do comunicado”.

Isto é totalmente verdade – e digam-me lá se não é pelo menos esquizofrénico que um PGR e um Presidente do Supremo não tenham o mesmo entendimento sobre matéria tão sensível e relevante como o Segredo de Justiça.

Ainda na mesma área, mas para um paradoxo diferente, encontro-o nas palavras de Miguel Morgado: “O Estado de Direito existe para que a inocência não seja sacrificada. Mas este é apenas um aspecto do Estado de Direito. Um outro que lhe está intimamente associado é este: o Estado de Direito não tolera a impunidade. (...) É um espectáculo miserável ver a Espada sem Justiça; é um espectáculo degradante ver a Justiça sem Espada”.

Mudando radicalmente de tema, mas alimentando esta ideia do paradoxo, agora no domínio do efeito sobre o comum dos mortais da tragédia e da glória, Nuno Dias da Silva: “As tragédias continuam a vender mais do que os contos de fadas. Os funerais de massas ultrapassaram em interesse os casamentos da mesma natureza. Talvez fruto dos sinais dos tempos. As exéquias fúnebres do ex-guarda redes do Benfica, Robert Enke, foram notícia em todo o mundo e transmitidas em directo na manhã de domingo por 5 estações de televisão alemãs. Foi o maior funeral ocorrido em território germânico desde o do antigo Chanceler Konrad Adenauer, em 1967”.

É impressionante observar estes movimentos de massas que glorificam quem desaparece, e tantas vezes ignoram quem está vivo – e neste paradoxo, uma vez mais, vivemos sem saber muitas vezes que ordem dar ao mundo e à vida.

Mas não vos quero maçar com mais filosofia, por isso aterro na realidade bem portuguesa e leio os comentários ao jogo de Portugal com a Bósnia que ganhámos de aflitos e sem jeito nenhum. Rodrigo Moita de Deus: “os brasileiros foram os melhores jogadores da equipa portuguesa”.

Lá está: o paradoxo, hoje foi sempre a mesma palavra.

 

publicado por PRD às 01:00
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Estes textos são escritos para serem “falados”, ou “lidos”, pelo que não só têm algumas marca de oralidade (evidentemente, propositadas...) como é meu hábito improvisar um pouco “em cima deles” no momento em que gravo a rubrica. Também é relevante dizer que, dado tratar-se de uma “revista de blog’s” – e uma vez que os blog’s não se preocupam com a oralidade ou com a eventual citação lida dos seus textos -, tomo a liberdade de editar minimamente os textos que selecciono. Faço-o apenas para que, em rádio, não se perca a ideia do blogger pelo facto de escrever frases longas e muito entrecortadas. Da mesma forma, não reproduzo palavrões nem frases pessoalmente ofensivas, assim como evito acusações cuja possibilidade de prova é diminuta ou inexistente. Sendo uma humilde crónica de rádio, tinha ainda assim de ter alguns princípios. São estes. Quem tiver razão de queixa, não hesite!

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