Sexta-feira, 16 de Outubro de 2009

O video de Maitê

Agora que o tema pacificou, dedico-me a ele até por razões pedagógicas. Nos últimos dias, o mundo dos blogues, da internet em geral, foi invadido aqui no rectângulo por um vídeo do you tube com 4 minutos que mostra uma reportagem feita pela actriz brasileira Maitê Proença para o programa de TV Saia Justa. A reportagem é feita em Portugal e basicamente é um gozo e uma ridicularização sem grande graça dos portugueses.

A coisa ganhou estatuto de escândalo: houve blogues a dizer que se em Portugal se cospe para o chão, no Brasil mata-se, e corre na net uma petição para um pedido de desculpas formal. No Facebook há um grupo da causa "Portugueses 'cospem' na Maitê Proença”.

Maitê Proença já fez esse pedido de desculpas, não sem antes explicar que o vídeo era uma piada, e que sentia haver pouco humor em Portugal.

Bom. O que acontece neste caso não é apenas os bloggers e os internautas verem o vídeo fora do contexto – porque se o vissem como outros vídeos que aparecem no programa, percebiam que era apenas um bocado de mau humor. Mas ainda assim humor. O problema é que o vídeo foi realizado e exibido há dois anos, e fala-se nele como se fosse desta semana.

O You tube e os blogues têm este pequeno problema: não sentem necessidade nem têm de enquadrar as imagens e os vídeos. E daí resultam grandes disparates – como uma indignação geral... com dois anos de atraso.

Francisco José Viajes procura explicar o fenómeno no seu blog: “Jantei com Maitê Proença em Lisboa, possivelmente na mesma altura em que a atriz gravou o vídeo (...). Nele, Maitê (...) dá por adquirido que os portugueses são inábeis, atrasadinhos, enfim – o costume. Durante esse jantar, Maitê mostrou-se encantada com Portugal, e creio que era mais do que simpatia. Mas no Brasil é outra coisa. Faz parte do gene brasileiro esse apetite saudável por Portugal, a velha metrópole de padeiros, açougueiros e gente desajustada. As jovens nações, entusiastas e adolescentes, acham gracinha a tudo. Comportam-se como crianças quando descobrem a careca dos avós. É natural e compreensível. Depois crescem. Ou pedem que lhes apreciemos as pantomineirices”.

Insisto: estamos a falar de um vídeo com dois anos e onde se percebe que não há qualquer tentativa de rigor – é uma espécie de vídeo caseiro de humor, bem típico do programa Saia Justa. Estou tentado a dar razão a Tiago Moreira Ramalho no Corta-Fitas: “Como a Maitê não é portuguesa, a Maitê não pode fazer uma brincadeira com os idiotas do hotel onde dormiu. Como a Maitê não é portuguesa, não pode brincar com o sotaque português”.

Mas por fim, o que conta é que o exagero e a desproporção do caso, que foi noticia de telejornal e de imprensa, resultam apenas dessa embriaguez pelo que surge na rede sem a necessária preparação técnica, que só mesmo os jornalistas têm, para procurar confirmar os factos, percebê-los, dar-lhes um sentido. O episódio Maitê Proença deixa um ensiamento: a ideia do cidadão-reporter, do jornalista que há dentro de qualquer blogger, pode ser uma boa ideia – mas não passa de uma ideia. Sem jornalismo profissional, este fait-divers continuaria um escândalo. Com jornalismo, ficou um folhetim de segunda ordem. É essa a diferença.

publicado por PRD às 03:19
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PRD

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Estes textos são escritos para serem “falados”, ou “lidos”, pelo que não só têm algumas marca de oralidade (evidentemente, propositadas...) como é meu hábito improvisar um pouco “em cima deles” no momento em que gravo a rubrica. Também é relevante dizer que, dado tratar-se de uma “revista de blog’s” – e uma vez que os blog’s não se preocupam com a oralidade ou com a eventual citação lida dos seus textos -, tomo a liberdade de editar minimamente os textos que selecciono. Faço-o apenas para que, em rádio, não se perca a ideia do blogger pelo facto de escrever frases longas e muito entrecortadas. Da mesma forma, não reproduzo palavrões nem frases pessoalmente ofensivas, assim como evito acusações cuja possibilidade de prova é diminuta ou inexistente. Sendo uma humilde crónica de rádio, tinha ainda assim de ter alguns princípios. São estes. Quem tiver razão de queixa, não hesite!

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