Sexta-feira, 16 de Outubro de 2009

Poupar no psicanalista

Quando comecei a dedicar-me profissionalmente ao mundo dos blogues, há mais de 3 anos, aqui na Antena 1, costumava dizer entre amigos, e às vezes mesmo em entrevistas que fiz, que ter um blog também era uma forma de poupar no psicanalista ou nos antidepressivos.

Era uma brincadeira, mas tinha o seu fundo de verdade: na medida em que tenhamos um espaço onde desabafar, fazer sair de cá de dentro frustrações, dores, incómodos, na medida em que se possa exteriorizar o que nos vai na alma, um blog pode na verdade ser a ajuda que muitas vezes nos falta para um momento especifico.

Voltei a esta ideia esta semana, ao escolher o meu blog em destaque da semana. Não é um blog fácil de abordar ou de descrever. Do ponto de vista estético ou literário, não tem pretensões a ser mais do que aquilo que é. Mas aquilo que é tem um valor e uma importância que não se compadece com um olhar crítico. Se o trago ao destaque da semana, é porque ele pode inspirar outras pessoas – e é porque este blog é um exemplo de sobrevivência à morte. O mais difícil, portanto.

O blog chama-se “Estrelas do Céu”, o endereço é estrelinhasdoceu.blogspot.com. E é um blog de um pai que perdeu a sua filha, pequena ainda. “COMO A PRÓPRIA EDUARDA DIZIA, e Eduarda era o nome da menina, "MÃE TU ÉS A MINHA ESTRELA CINTILANTE". AGORA PASSOU A SER A EDUARDINHA, A ESTRELA CINTILANTE QUE BRILHA BEM DO ALTO DOS CÉUS”.

Joaquim Santos, o pai, alimenta diariamente o blog com textos poéticos, alusivos à vida, aos acontecimentos, ao que o rodeia, mas sempre sempre com a sua Eduarda na mira. Exemplo que deixo desta semana:

“Ontem choveu muito em Leiria. Os raios da trovoada, espelhavam o lado agressivo da natureza. Nenhuma passadeira resistiu aos transeuntes, sem que houvesse água em abundância para quem por artérias leirienses passasse... Sabes filha, gosto da beleza da natureza, do sol, arco-íris, flores, o verde, muito verde... Mas a chuva também faz falta, eu sei... Deus sabe dosear. Deus edificou o mundo com um propósito lógico, trazendo sempre a notícia: VALE A PENA ACREDITAR. Retrato-te hoje e sempre porque foste vista, sentida, ouvida e muito mais. Mesmo com esta chuva e trovoada assustadora, sei que permaneces aí, sempre aí, de perto, bem pertinho, de mansinho... (...) Afinal, és uma estrelinha do Alto. Daí, regulas o meu dia-a-dia e o tempo, o meu tempo...”

Estes posts não são para ser lidos a não ser por quem queira sentir-se solidário, ou sentir que algo tem a ver com a sua própria vida. Mas eu sei que Joaquim Santos quer ser lido – e quer de alguma forma espalhar a mensagem mais simples de todas: num blog, no mais modesto blog, pode estar o escape que nos falta para acertar contas com o que nos dói, com o que mexe connosco. Aqui há dias li uma entrevista de alguém que passa por esse terrível facto e dizia: perder um filho é como ter uma doença crónica. Temos de nos habituar a viver com esta doença.

Pensei nisso, uma vez mais, ao ler o blog dedicado à Eduarda. O blog onde o pai vai aliviando essa doença crónica que ninguém deseja viver, transformando-a em algo mais doce e suportável, mais humano. Foi a forma que encontrou de não desistir de uma ideia de felicidade. E essa busca é a chave de tudo.

publicado por PRD às 03:18
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Estes textos são escritos para serem “falados”, ou “lidos”, pelo que não só têm algumas marca de oralidade (evidentemente, propositadas...) como é meu hábito improvisar um pouco “em cima deles” no momento em que gravo a rubrica. Também é relevante dizer que, dado tratar-se de uma “revista de blog’s” – e uma vez que os blog’s não se preocupam com a oralidade ou com a eventual citação lida dos seus textos -, tomo a liberdade de editar minimamente os textos que selecciono. Faço-o apenas para que, em rádio, não se perca a ideia do blogger pelo facto de escrever frases longas e muito entrecortadas. Da mesma forma, não reproduzo palavrões nem frases pessoalmente ofensivas, assim como evito acusações cuja possibilidade de prova é diminuta ou inexistente. Sendo uma humilde crónica de rádio, tinha ainda assim de ter alguns princípios. São estes. Quem tiver razão de queixa, não hesite!

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