Quinta-feira, 18 de Outubro de 2007

Outras palavras

Quem navegue pela imensa blogoesfera pode apanhar regularmente ataques: de fúria, de riso, de indignação. As caixas de comentários dos blogues espelham isso mesmo – mas com o tempo, pode ganhar-se também uma outra qualidade nestas viagens: o respeito pela opinião alheia, por mais estranha e obtusa que possa parecer. E é interessante pelo menos observar ou pensar em pontos de vista que jamais nos passariam pela cabeça. É por aí que vou hoje com alguns exemplos da semana.
Estamos nos dias em que se assinala o aniversário da morte de Adriano Correia de Oliveira. Evoca-se o artista, o musico, o compositor. Ouve-se de novo Adriano. Mas há quem não o oiça. É o caso de Rui Bebiano, que no blog Terceira Noite explica:
“Ao escutá-las agora, viajo no tempo, recuando ao país-Portugal, sequestrado e em permanente luto, no qual ele viveu quase toda a sua vida. Para mim que ainda conheci esse país, ouvir hoje Adriano é como revisitar uma prisão, como ler as memórias de um torturado, como ver um documentário sobre o país que foi (..). Dói-me e evito fazê-lo. Desculpem”.
Consigo compreender esta postura, apesar de não ser a minha e a de muitos. O mesmo se passa, noutro domínio completamente diferente, com a história dos empréstimos perdoados no BCP a familiares de membros da administração do banco. Toda a gente grita que é escândalo, toda a gente pede a responsabilidade e a cabeça de quem permitiu tal facto. No meio do barulho das luzes encontro um longo texto assinado por Nuno Pombo, no blog Incontinentes Verbais, que de alguma forma contraria a tendência generalizada para arrasar o BCP. Não o vou resumir aqui, é longo, vale a pena ler para ver o tema de outro ponto de vista, mas deixo uma frase que já abre o apetite:
“Considerar uma dívida incobrável não é sinónimo de perdoar uma dívida. O perdão reflecte-se no devedor, ao passo que a insusceptibilidade de cobrança é uma constatação, meramente interna, do credor”.
Mudando novamente de tema, a Cimeira da União Europeia em Lisboa também motiva muitos cmentários. À margem de todos eles, encontro no blog do advogado José Maria Martins uma absolutamente inesperada ideia:
“José Sócrates tem o dever, tem a obrigação de mostrar aos seus homólogos da União Europeia , a miséria que grassa em Portugal. Deve ir mostrar os bairros de lata ainda existentes na Grande Lisboa, deve ir mostrar os bairros onde os idosos vivem arrastando-se, deve ir mostrar o interior, decrépito, paupérrimo". E sugere mais visitas por aquilo a que chama "miséria de Portugal, país que entende ser”enfezado, que se abotoa com os subsídios que a França, a Alemanha, Reino Unido nos mandam , e depois são delapidados, quando deveriam ser aproveitados para nos alavancar para o desenvolvimento”.
Se eu estou de acordo? Não estou. Se acho que faz sentido? Não faz. Mas eu acho um escândalo o que se passou no BCP, e oiço Adriano pensando no país que ele sonhou, e acho que a Europa nos fez bem e nos fará melhor.
O que daqui resulta e é a minha ideia forte de hoje é apenas isto: a blogoesfera, pela sua liberdade total, obriga-nos a pensar noutros pontos de vista. E respeitá-los. E muitas vezes descobrir verdades onde só víamos nuvens, mentiras ou não víamos mesmo nada.
publicado por PRD às 19:22
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Estes textos são escritos para serem “falados”, ou “lidos”, pelo que não só têm algumas marca de oralidade (evidentemente, propositadas...) como é meu hábito improvisar um pouco “em cima deles” no momento em que gravo a rubrica. Também é relevante dizer que, dado tratar-se de uma “revista de blog’s” – e uma vez que os blog’s não se preocupam com a oralidade ou com a eventual citação lida dos seus textos -, tomo a liberdade de editar minimamente os textos que selecciono. Faço-o apenas para que, em rádio, não se perca a ideia do blogger pelo facto de escrever frases longas e muito entrecortadas. Da mesma forma, não reproduzo palavrões nem frases pessoalmente ofensivas, assim como evito acusações cuja possibilidade de prova é diminuta ou inexistente. Sendo uma humilde crónica de rádio, tinha ainda assim de ter alguns princípios. São estes. Quem tiver razão de queixa, não hesite!

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