Segunda-feira, 18 de Maio de 2009

Passado & presente

O passado, ou a memória, por uma vez - 3 blogues diferentes permitem-me esta crónica hoje. Permitem-me ir ao passado vero presente: «O País perdeu a inteligência e a consciência moral. Os costumes estão dissolvidos, as consciências em debandada, os caracteres corrompidos. A prática da vida tem por única direcção a conveniência. Não há princípio que não seja desmentido. Não há instituição que não seja escarnecida. Ninguém se respeita. Nao há nenhuma solidariedade entre os cidadãos. Ninguém crê na honestidade dos homens públicos. Alguns agiotas felizes exploram. A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia».

Pensam então que são palavras de ontem ou de hoje num qualquer blog? Nada disso, são palavras de Eça de Queirós, em 1871, recuperadas por Nuno Dias da Silva, no blog A Civilização do Espectáculo, e retiradas do livro «Perceber a crise para encontrar o caminho», de Vítor Bento.

Curiosamente, é de novo a Eça de Queiroz que vou parar com Paulo Tunhas no blog ABC do PPM. Por causa de uma coluna que escreve, Paulo lembrou-se de “uma cena óptima d’Os Maias. Quando Ega e Cruges vão a casa de Dâmaso Salcede (...) e deparam-se, na sala, em cima de um contador, com um feminino sapatinho de cetim. A razão da extravagância de ele lá estar é típica do Dâmaso. Ele ouvira um dia Carlos da Maia dizer que “em todo o quarto de rapaz deve aparecer, discretamente disposta, uma relíquia de amor…”. E vai daí pespegou com o toque da passagem feminina à vista de todos, para que não houvesse dúvida. A exibição da intimidade é, na maior parte dos casos, ridícula, e, nos que sobram, pior. E o “sapatinho de cetim” pode não ser exactamente, é claro, um “sapatinho de cetim”.

Para bom entendedor, meia palavra basta – e daqui sigo para o Delito de Opinião e Teresa Ribeiro, que sobre isto da exposição e da intimidade escreve um brilhante post sobre o seu gosto pelas autobiografias e vai buscar de novo o melhor de todos os passados: “Sobre o seu diário Conta-Corrente, Vergílio Ferreira escreveu: "Que me leiam um romance não me perturba, mas não que me leiam a mim". Esta ambivalência que os leva a expor-se mas sempre em esforço torna tudo muito mais interessante. Não me é, pois, indiferente enquanto leitora que uma autobiografia seja assinada por um homem ou por uma mulher. Se é verdade que a persona do autor é que determina a decisão de o ler, o seu género (ou deverei dizer sexo?) irá condicionar a forma como o leio”.

E volta mais à frente a Vergílio Ferreira: "O desejo de desabafar", diz ele, "não é propriamente sublime". Et voilà! Fica explicado. Eduardo Prado Coelho chamava à escrita diarística "um devir feminino". A escrita confessional não é, pois, coisa de machos, dizem eles. Tanto melhor para nós. Porque quando eles cedem são irresistíveis”.

E hoje fico assim – no passado, a ver o presente o futuro bem à minha frente...

publicado por PRD às 00:23
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Estes textos são escritos para serem “falados”, ou “lidos”, pelo que não só têm algumas marca de oralidade (evidentemente, propositadas...) como é meu hábito improvisar um pouco “em cima deles” no momento em que gravo a rubrica. Também é relevante dizer que, dado tratar-se de uma “revista de blog’s” – e uma vez que os blog’s não se preocupam com a oralidade ou com a eventual citação lida dos seus textos -, tomo a liberdade de editar minimamente os textos que selecciono. Faço-o apenas para que, em rádio, não se perca a ideia do blogger pelo facto de escrever frases longas e muito entrecortadas. Da mesma forma, não reproduzo palavrões nem frases pessoalmente ofensivas, assim como evito acusações cuja possibilidade de prova é diminuta ou inexistente. Sendo uma humilde crónica de rádio, tinha ainda assim de ter alguns princípios. São estes. Quem tiver razão de queixa, não hesite!

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