Segunda-feira, 27 de Abril de 2009

35 anos depois

“Reparei que este ano houve mais rendições políticas à data do 25 de Abril, ou mais reconhecimentos da sua importância” – José Medeiros Ferreira reparou, eu também reparei. E voltou a haver debate e ideias. Por exemplo, Paulo Pinto Mascarenhas recupera a data para a direita: “Se há coisa que a direita nunca deveria ter permitido é que alguma esquerda se apropriasse das ruas e do golpe de estado, aliás assumido e oficializado por alguém que nada tem a ver com a esquerda, o general Spínola. Ninguém é dono de Abril".

João Távora responde a Paulo no Risco Contínuo: “sou dos que vivem neste dia um sentimento ambíguo, algo melancólico até. Se por um lado lhe reconheço o significado pela conquista (...) da liberdade de expressão, o 25 de Abril traz-me inevitavelmente à memória os sequentes meses de inglório combate por essa liberdade que nos ia sendo usurpada pela esquerda totalitária”.

No Insurgente, Miguel prefere reflectir sobre a própria ideia de democracia. Ele nota que nestas ocasiões “muitos dizem-se desiludidos com a subsistência de pobreza, iliteracia ou desigualdades várias. É frequente a conclusão que a “democracia não foi cumprida”. Um desiderato que considero absurdo. (...) Considero um erro grave, e potencialmente perigoso, atribuir ao sistema democrático objectivos que mais não são que escolhas democráticas. Como lembra o Miguel Morgado “o povo troca com facilidade a liberdade por pão”. Qualquer dia já não conseguimos separar o processo democrático do socialismo iliberal que nos empobrece e infantiliza diariamente”.

Por entre reflexões mais ou menos profundas, há quem escolha a data simplesmente para lembrar o ano de 1974 e responder à pergunta clássica: e onde estava no 25 de Abril? Ana Vidal, no Delito de Opinião, sentiu o que seguramente muita, mesmo muita gente, sentiu: “Esse dia, fulcral para a minha vida futura (...) foi vivido por mim como uma alucinante ficção, uma aventura inesperada numa qualquer twilight zone que eu desconhecia em absoluto, conduzida por um guião que podia ter saído da pena dos Monty Python. As razões desta alienação? É simples: em minha casa não se falava de política, pelo que eu e as minhas irmãs estavámos completamente a leste do paraíso. Aprendi no curso intensivo das ruas, da rádio e da televisão, nas semanas que se seguiram, tudo o que até aí me fora ocultado. Mas no "dia D", confesso, não percebi nada, a não ser que alguma coisa muito estranha se estava a passar à minha volta. E gostei da confusão, da alegria das pessoas, como qualquer adolescente que vê um turbilhão de novidades agitar a rotina, ainda que elas pareçam absurdas. (...) Os meses que se seguiram foram trepidantes, e quase tudo o que eu tinha como garantido até ali, deixou de sê-lo e mudou irreversivelmente. Para muito melhor, sei-o hoje. Mas a verdade é que a minha geração foi criada e educada para habitar um mundo que lhe desapareceu debaixo dos pés de um dia para o outro. Teve de apagar toda a matéria dada e seguir em frente, com nova cartilha”.

A cartilha, afinal, com a qual vivemos hoje, 35 anos mais tarde...

 

publicado por PRD às 00:09
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